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sexta-feira, 20 de julho de 2012

E o dia segue em Manaus

Teatro Amazonas
     Compradas as passagens de navio, outros afazeres eram necessários. Providenciar recursos financeiros no banco, adquirir uma rede. E assim o dia seguiu.
     Ainda era manhã, cedo. Tudo corria muito bem. Nenhum compromisso pendente. O que fazer? Uma visita à Ponta Negra, uma praia artificial nas margens do Rio Negro, próxima à cidade, ao lado da ponte. Identificado o ônibus urbano que me levaria até a praia, lá fui eu.
     O passeio urbano foi, também, bastante agradável, e a praia me surpreendeu pela beleza, mas também pela quantidade de lixo que estava sendo retirado de lá. Metade da praia já estava limpa, e na outra metade uma multidão de garis se empenhavam na limpeza daquela quantidade assustadora de lixo que disputava espaço com a areia. Suspiro. Por que a gente é assim?
     Mas a estrutura da praia é ótima: calcadões, escadarias, mirantes, fontes, um palco com platéia em forma de arena voltada para o rio. Uma linda obra arquitetônica irmanada com o espaço natural - o rio, pois a areia foi inserida no espaço para que a praça existisse. Com o tempo esta informação será ignorada, e a praia será naturalmente incorporada à existência do rio. Em minha cidade natal também existe um lago que passou por este processo. É a mão do homem à imagem de Deus.
     O Rio Negro tem águas da dor de ferrugem. Não é feio, ao contrário, é muito bonito! Mas não se vê nada dentro dele, mesmo usando óculos de natação. Ao fundo da paisagem vemos a outra margem do rio, e ao lado a ponte que o atravessa, uma ponte imensa, grandiosa, humanamente bela e, no calor das horas, o banho de rio era o sumo do prazer. Água doce, sem ondas, pisando em areia, corpo imerso sem medos, e as horas iam passando, lentamente.
     As companhias sempre se apresentam e, por mais misantropo que eu seja, alguma conversa sempre se estabelece com desconhecidos. Neste banho de rio conheci a Fran, Françoise, uma cabeleireira em Manaus, transexual. Foi uma conversa de amenidades, uma troca de pequenas histórias de nossas vidas. Estas trocas humanas enriquecem a viagem pois não podemos ir em busca apenas de paisagens e monumentos. Este encontro com paisagens humanas é magnífico.
     E como as horas, apesar de caminharem lentas como o rio, teimavam em seguir seu curso, o corpo sentiu a costumeira fome, o sol alto e agressivo me convidava para uma sombra. Decidi então me afundar uma última vez, me despedir da Fran e do rio, fazer uma última caminhada pelo calçadão, tomar um sorvete e fazer um último ritual de despedida do alto do mirante. Assim fiz.
     Seguiu-se a caminhada a um ponto de ônibus que não demorou a chegar. De volta ao centro da cidade passei pelo hotel para tomar um banho, melhorar os trajes, proteger a pele, e seguir até um restaurante indicado pelo amigo no dia anterior. Feita a refeição regular, voltei para o hotel descansar um pouco e fugir do calor daquela tarde.
Igreja de São Sebastião
     Ainda não era noite quando sai do hotel novamente para caminhar pela Praça e conhecer a Igreja de São Sebastião.
     Queria curtir o fim daquele último dia em Manaus na Praça do Teatro Amazonas, no Bar do Armando, um tradicional e precário boteco ali existente. O atendimento é péssimo. É necessário implorar por uma cerveja. Talvez, por ser um bar tradicional eles apenas atendam fregueses tradicionais, e os turistas e estrangeiros não são bem recebidos pelas razões já expostas. Mas como insisti em ficar, depois de um grande tempo sendo ignorado pelos garçons, tomei minhas iniciativas e consegui uma cerveja e o cardápio. Apesar de uma faixa enorme anunciando o bolinho de bacalhau português, o mesmo só era vendido em porções grandes, não sendo possível obter uma "meia porção". Optei então pelo sanduíche tradicional de pernil que combinou com o atendimento, isto é, um sanduíche sonso, caro e pequeno. Acho que a tradição do bar é ser ruim, vai entender estes casos. Neste momento senti saudade de outros sanduíches de pernil tradicionais, do Estadão, do BH na Augusta... enfim, não faltam boas referências. Quem já comeu sabe o que é, realmente, um sanduíche digno do título "tradicional". Mas ainda insiste em uma caipirinha, que também entrou para o rol das piores que já tomei. Nem eu consigo fazer uma caipirinha tão sem graça e aguada.
     Desisti de ser feliz no Bar do Armando. Fui até a outra esquina da praça tomar um delicioso suco de Taperebá (fiquei viciado neste suco aqui no Norte) e para aplacar a fome repeti o Tacacá da Gisela.
Praça Amazonas
     A noite se fez e, comendo o tacacá, me sentei nos bancos da praça onde haviam instalado um telão. O filme em cartaz era Avatar. Já havia assistido a este filme em 3D em São Paulo, mas assisti-lo inserido no universo amazônico entramos em n-dimensões. Foi um misto de respeito, de consciência, de preocupação. Me senti fazendo meus pedidos para Eywa junto com o Jake.
     Fim do filme, suspiros profundos, mais uma caminhada, uma pequena busca para prosseguir a noite, afinal, esta era a noite de despedida de Manaus, Para o dia seguinte a passagem para Santarém já estava comprada.
      Caminhei até uma rua onde existem algumas boates e bares com a boemia mais intensa da cidade. Escolhi um bar que, para ironia com os pretensos cristãos, se chama "Paraíso".. Ai sim, um bom atendimento, tradicional, como somente estes lugares tem a dignidade de oferecer, onde todos são bem-vindos, todos são iguais perante uma cerveja gelada. Mas como não pode deixar de ser, todo bar tem seus encostos, mas, dos males, o menor. Deixei uma dose para Exu e assim terminei minha cerveja e minha última noite em Manaus.

Comprando passagens de navio

     O dia seguinte amanheceu quente, como era de se esperar, embora estivesse frio para os padrões da região, apenas 31 graus.
     Depois do café da manhã caminhei até o porto para conhecer embarcações e alternativas para a viagem até Belém. Fiz exatamente aquilo que todos me aconselharam a não fazer, adquirir a passagem com um dos vendedores da rua.
     Aqui cabe, novamente, o alerta sobre o turismo no Brasil, já destacado anteriormente. Talvez, por outrora e também nos dias atuais, muitos estrangeiros virem para esta região com o único intuito de extorquir a riqueza da terra, os nativos se colocam na posição de reaver ao menos uma parte desta riqueza que lhes é tirada sem escrúpulos. Assim, por que haveriam eles de ter algum escrúpulo e, afinal, um turista é sempre um estrangeiro, e tem contra si o desconhecimento dos saberes locais. Mas não tenho do que reclamar. Não paguei tão barato quanto um nativo consegue pagar, nem tão caro quanto muitos turistas acabam pagando, além de receber muitas orientações e esclarecimentos.
     Mas é preciso tomar cuidado com gentilezas, pois a gentileza é uma mercadoria que custa caro. Nunca aceite uma gentileza sem perguntar seu preço antes, pois uma vez aceita, não há como discutir seu valor depois. Assim foi um passeio de lancha rápido para conhecer um dos barcos que poderia me levar até Santarém, cujo preço não vou citar pelo absurdo do valor em relação ao serviço prestado. Uma vez na armadilha, como sair dela?
     No barco, o NM São Bartolomeu II, uma suite que poderia sair por até R$ 300 não chegou a menos de R$ 450 e sai por R$ 600 para outros. Acabei optando mesmo pela rede, que apesar da falta de costume, atendia ao meu anseio de vivenciar a viagem como é comum para a maioria dos que empreendem esta viagem. Paguei R$ 90, poderia ter sido por R$ 60 ou R$ 120, mas não quero mais discorrer sobre as tabelas portuárias.
     O vendedor ganhou minha simpatia pelas informações e orientações. Decidi por sair de Manaus no dia seguinte, parar em Santarém para conhecer Alter do Chão e também adquiri, antecipadamente, a passagem Santarém-Belém no navio NM Amazon Star por R$ 140. Assim, a passagem Manaus-Belém saiu por R$ 230.
      Esta mudança de programação proporcionou os momentos mais emocionantes da viagem, sobre o que tratarei mais tarde. Foi assim que uma viagem Manaus-Belém se tornou uma viagem Manaus-Santarém-Alter do Chão-Belém, um dia a menos em Manaus para obter um dia em Alter do Chão que valeram uma vida!

Lá, fora...

Um céu "estrelinhoso", como diz Mia Couto em "Terra Sonâmbula", o livro que me acompanha nesta viagem; "a escuridão nos faz nascer muitas cabeças".
     Terminado o espetáculo, depois do bis já esperado, ouço meu nome. O mundo pode ser grande, mas gira sem parar e, assim, aqui nos confins do país, encontro um amigo de minha cidade natal. Assim acontecem os encontros.
     Na praça, agora acompanhado, encontro algo para saciar minha fome; o tradicional Tacacá da Gisela, um caldo forte com folhas de macaxeira e camarões. Uma delícia para o gosto manauense, que aprovei e voltei para repetir a dose no dia seguinte.
     Mas a noite ainda não havia terminado. Pegamos um trem, literalmente, que faz um passeio turístico pelo centro, para chegarmos ao Clube do Rio Preto onde estava acontecendo a segunda festa da vitória do Boi Caprichoso.

     Lá chegando a festa já estava no fim, poucas pessoas dançando, mas ainda muita animação nos pés e nos corpos. Havia uma piscina onde um folião se jogava de vez em quando. Poucas músicas foram tocadas até que o silêncio dos tambores e das vozes determinasse o fim definitivo da festa.
     Persistindo na primeira noite em Manaus, continuamos nossa caminhada sem rumo pelo centro da cidade, buscando um lugar qualquer. Resolvemos tomar uma última cerveja no Bar do Armando, que também já estava em final de expediente.
     Teimosamente continuamos a busca por outro lugar para dar prosseguimento à noite, mas a inexistência de alternativas nos levou à despedida. Dadas as devidas lembranças ao amigo, seguimos, cada um o seu rumo.
     E assim foi o primeiro dia e a primeira noite em Manaus.

Manaus

     Do aeroporto ao centro arrisquei o ônibus e foi super tranquilo. O ônibus comum, R$ 2,70 e uma van a R$ 4,30, com ar condicionado. A van passou primeiro e foi uma viagem quase como um táxi pois éramos eu e apenas mais um passageiro. Melhor que os R$ 40 a serem pagos por um táxi "comum".
     Já havia pesquisado alguns hotéis. No centro da cidade existem muitos, alguns mais simples, outros com um pouco mais de requinte, mas o preço é sempre inferior a R$ 100 a diária com café da manhã. Alguns, mais sofisticados, pode chegar a R$ 120, mas não vi nenhum acima de R$ 150. E com alguma conversa o preço fica ainda melhor. Optei por um hotel bem simples, R$ 70 a diária, com ar condicionado, tv e café da manhã. Não pretendia ficar muito tempo dentro do hotel, era dormir, tomar banho, deixar a mochila e pertences.
     Bem, era uma tarde de domingo. A cidade estava em cesta... poucas pessoas pelas ruas, muito calor, tudo fechado. Foi até difícil encontrar um lugar para comer. Já era tarde para o almoço, muito cedo para o jantar. A solução foi um lanche bem gostoso, um X Picanha por apenas R$ 8, e um açaí no copo, de sobremesa, um picolé.
     Depois da refeição a alternativa foi ficar no quarto de hotel, protegido do calor pelo ar condicionado, vendo tv a cabo. Em Manaus, um autêntico domingo paulista.
     Neste quarto, o cheiro dos pensamentos, o descanso embaçado pela excitação do lugar desconhecido instigado pelo querer conhecer. Quando a luz do dia deixou de clarear o quarto, um banho espantou a letargia. Troca de roupa, perfume, agrados para a pele e rua.
Teatro Amazonas
     Ao chegar na Praça do Teatro Amazonas a cidade já estava repleta de vida. Palcos espalhados pela praça ofereciam magia, música e dança. Mas a majestade deste momento era o Teatro, ainda mais vê-lo com a noite e suas luzes. Foi quando notei uma fila e me veio o pensamento: por que não assistir a um espetáculo? Ao me aproximar já tive a agradável surpresa de ser um espetáculo gratuito, era só pegar a fila e entrar. Para maior alegria, haveria uma apresentação da Orquestra de Violões do Amazonas. Tive até um tempo gostoso para admirar os detalhes do Teatro, a boca de cena, as frisas, o teto, as cadeiras de madeira, confortáveis e belas.
Teatro Amazonas
     Estar ali já era algo sublime e ficou ainda melhor quando anunciou-se o repertório da noite, dedicado ao Folclore Regional. Para quem sempre evita o afogamento em meio a tanta música ruim e aos tec-tec-tecs doentios do dia-a-dia, a apresentação da Orquestra de Violões do Amazonas foi um balsamo. E não foi apenas o agradável da música, que foi excelente. O repertório apresentou canções de alguns dos Festivais da região. Fora o já globalizado Festival dos Bois de Parintins, tive o imenso prazer de saber sobre o Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, com os peixes Cardinal (azul e vermelho) e o Acará-disco (preto e amarelo) - http://www.barcelosnanet.com/2012/01/festa-em-barcelos-am-xviii-festival-do.html. E também  o Festival de Cirandas de Manacapuru - http://portalamazonia-teste.tempsite.ws/sites/ciranda/conteudo-menu.php?idM=2551.
     Soube que também existe um festival de tribos indígenas. É muito bom descobrir toda esta riqueza cultural que se perpetua apesar do grande império da mediocridade.
Orquestra de Violões do Amazonas
     Um dos pontos mais sublimes da apresentação, para meu gosto, para minha alma, foi o canto da Iara que é uma das canções do Boi Caprichoso. No palco, Karine Aguiar (de branco) fazia a canção, e Míriam Abad (de preto) fazia a voz da sereia. Por sintonia, nesta noite, vestia bermuda e camiseta azuis e não tive dúvidas, eu sou Caprichoso.
     Do Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, há o Cardinal, que gosta de navegar, mas gostei mais do Acará-disco que, pela canção, gosta de desafios.
     Suspiro. Um espetáculo belíssimo, grandioso, em todos os aspectos.
     Obrigado Amazonas!

São Paulo - Manaus

     Finalmente, acomodado no avião, apenas com o atraso considerado padrão e desconsiderado nas estatísticas e relatórios, a avião decola.
     Como detalhe previsto e realizado, uma poltrona na janela, marcada com antecedência, fora das asas, para aproveitar todo o visual possível. Apesar do tempo nublado, o passeio voando a mais de 10km de altura proporcionou belas paisagens, garantindo uma viagem muito agradável.
     Começamos com a paisagem paulista, pontuada por cidades, entrecortada por estradas, cores e formatos diversos.
     Passado um tempo, a paisagem no solo muda. As cidades desaparecem. O que vemos são imensos quadriculados de plantações. Talvez seja este o tão propagado progresso da agricultura no Brasil, mas não tenho argumentos para desenvolver este tema.
     Finalmente, a tão esperada floresta. Um horizonte sem fim de árvores, verdes, riscado por rios curvilíneos, alguns largos, outros um fino fio de água, muitos alagados, lagoas, águas escuras, um dos rios com águas marrom barrentas, talvez o Solimões.
     Esta imagem me faz refletir. Por que os rios teimam em fazer curvas? Por que não seguem linhas retas, curvando-se apenas por necessidade, como as estradas? Porque os rios nos convidam a ficar, enquanto as estradas nos instigam a seguir.

Inicia-se a viagem...

Metrô, domingo, 6h30
     Como nada em São Paulo é tão fácil como poderia ser, chegar ao aeroporto e embarcar no avião teve suas intempéries.
     Apesar de ser um domingo, que pede cachimbo, 6h30 de uma manhã fria, o metrô e o ônibus para o aeroporto estavam absurdamente lotados. Poderia ter me dado ao luxo de pagar R$ 35 por um ônibus executivo, ou R$ 80 por um táxi. Poderia.
     Resolvi pagar R$ 7,30 (metrô + ônibus) para usufruir da categoria popular, que é a minha categoria. É uma pena que, mais uma vez, exista esta confusão entre luxo e dignidade. Eu não sou obrigado a pagar mais caro para ter um transporte digno. Eu posso pagar mais caro para ter luxo ou um conforto extra.

     E, ao chegar no aeroporto, o caos continua, e neste caso, não existe diferença de preços, o tratamento inadequado é o mesmo para todos. Filas, confusão, espera, trocas de portão de embarque, uma saga até o último instante de embarque.
     Portanto, o elemento essencial para qualquer viagem no Brasil é "muita paciência", seguir o conselho da ex-ministra de turismo "relaxa e goza", e prestar mais atenção nas próximas eleições.

Preparativos da viagem

Priscila, a rainha do deserto
     Antes mesmo do início da viagem muitas atividades já são realizadas. No caso desta viagem para a floresta, vacina para febre amarela e repelente de insetos para amenizar o risco de outras doenças que não tem vacina, como a malária. São atividades imprescindíveis.
     A aquisição de uma mochila adequada, onde caibam todos os utensílios necessários para a viagem e que possa, se possível, ser transportada como bagagem de mão, mesmo quando é carregada nas costas. Este detalhe simplifica muito todas as etapas da viagem, principalmente no aeroporto, mas não só, pois o cuidado com um único volume é bem menor do que se preocupar com uma série de malas, bolsas, mochilas ou qualquer outro apetrecho considerado necessário.
     Sou desta opinião: a única grande necessidade é viajar. Os demais utensílios apenas podem facilitar alguns aspectos, ou embelezar, mas na maior parte do trajeto podem atrapalhar muito. Portanto, em viagens, quanto menor a bagagem, maior a diversão.
     Porém, em uma viagem como esta, é imprescindível levar um bom livro como companhia, preparar uma boa trilha sonora para nos acalentar e, se padecer do mesmo mal que eu, um bom caderno com capa dura, lápis e apontador para as inevitáveis anotações que, não tenha dúvida, clamarão por existência.
     Findos os preparativos pragmáticos, as férias começarão antes mesmo do embarque. Neste caso, dois dias antes da primeira viagem de avião. Aproveitei estes dias para curtir a cidade onde moro, a capital. Fui assistir ao espetáculo "Priscila, a rainha do deserto", um bom roteiro para quem vai sair em viagem. Seguiu-se uma bebedeira comemorativa adequada ao momento nos bares de minha preferência.
     Depois da noite festiva, um dia de descanso e preparos finais da bagagem e outros detalhes.
Priscila, a rainha do deserto

Preâmbulos - viagem Manaus a Belém em julho de 2012

     Sou daqueles que sofrem o desejo de escrever. Escrever diários, escrever bilhetes, escrever situações, anotações. Eternizar um presente, a escrita, que é passado, vida, que já é futuro, nas possíveis leituras. Mas careço de criatividade, não sei inventar personagens e situações, o que escrevo é vida vivida, é vida ouvida, é vida partilhada.
     Então, comecei com o desejo de uma viagem que transformei em realidade e descrevo aqui esta andança.
     Uma das boas coisas do trabalho são as folgas e férias. Assim, então, eis-me aqui, com duas semanas de recesso escolar - outro nome utilizado para férias - cujo usofruto tem sido programado desde férias anteriores no início deste ano.
     Tudo nasceu com uma vontade, simples. Professor de História, sempre tive a Amazônia como um país distante, e há quem diga que nem mesmo Brasil ela é. Do pouco ou nada que conheço deste mundo, floresta, tudo é restrito a leituras e saberes teóricos. Foi com esta inquietação que determinei à minha vontade o realizar da viagem Manaus-Belém, de barco, pelos rios da Amazônia. Desbravar meu próprio país.
     Feitas as necessárias pesquisas, os eixos principais da viagem foram determinados: avião São Paulo a Manaus, dadas e preços de navios Manaus a Belém e o encerramento inevitável Belém a São Paulo de avião. Após algumas referências de hotéis, avaliações de preços e gastos, decidida foi a viagem.
    A primeira etapa foi, de todas, a mais tranquila. Determinar datas, comprar passagens de avião, tudo com a antecedência adequada para conseguir preços mais acessíveis e pagamento parcelado.
     As etapas intermediárias determinaram o grau da aventura. Os preços da viagem de barco variavam muito, de menos de R$ 200 a mais de R$ 600. É um dos males do turismo selvagem que se pratica no Brasil. Como se a única oportunidade de ganhar dinheiro, muito dinheiro, seja cobrando o máximo possível de turistas, que por mais precavidos que sejam, estão sujeitos à ignorância do ambiente que querem conhecer.
     Esta prática já se dá a partir dos taxistas de aeroporto, creio que sejam o maior exemplo desta falta de caráter. Mas mesmo um quarto de hotel pode custar R$ 40 para um nativo e R$ 100 para o turista, e um turista "esperto" consegue pagar barato R$ 70. Depois, neste caso específico, vem a passagem de barco, onde um camarote custa R$ 600, o turista pode receber um bom desconto e pagar R$ 450 ou R$ 500, mas um nativo não paga mais do que R$ 300. Se a viagem for em rede, no nativo paga R$ 40 ou menos, e o turista, com desconto, paga R$ 90, mas este preço pode chegar a R$ 120 e até mais.
     Enfim, cultura brasileira, para que cobrar um preço justo se eu tenho a oportunidade de ganhar mais dinheiro com isto? É assim que caminha o turismo no Brasil.

domingo, 15 de abril de 2012

Nós literários

ENCONTRO VITAL

Ontem, 14 de abril do ano 2012 da era cristão, tive o prazer de participar de uma ceia sagrada, um encontro de seres afins que compartilharam não apenas comida, mas suas próprias Vidas. Éramos nove pessoas: três crianças, três professor@s, tínhamos um líder, uma artista, e duas pessoas em um processo de busca. Bem, apenas apresentei as personagens presentes neste encontro. Mas vou desenvolver minha reflexão.

Três professor@s, começarei por nós, pois sou um deles: uma Professora de Geografia, um Professor de Português e um Professor de História, eu. Nosso líder, que estava com o olhar à nossa frente, quem promoveu o encontro, quem tinha um objetivo para o encontro, quem tinha um plano para a transcendência deste encontro. A artista, que não precisa de descrição, pois o próprio nome já a define. Três crianças lindas, os anjos do encontro: a Amelie, o Santiago e o Antônio, alegrando e tornando nosso encontro mais belo e agitado. E as duas pessoas em um processo de busca mais pontual, embora todos nós nos encontrássemos ali para desenvolver este processo.

Hoje estou preenchendo meus diários das minhas classes do Ensino Fundamental, e percebo os efeitos transcendentes de nosso encontro. Ganhei de presente da artista o conhecimento do Ho’oponopono, um processo de meditação e cura havaiano, e comecei meu dia estudando um pouco deste processo. A partir dele, minha visão do trabalho de preencher diários escolares mudou completamente. Não é mais uma atividade burocrática, mas espiritual. A cada marca nos diários acompanha um pensamento naquele ser vivo que está sob minha responsabilidade. Nunca antes havia percebido a profundidade deste momento. Aqui em minha gruta, ouvindo músicas clássicas da Rádio Cultura FM, vendo minhas anotações, relembrando minhas aulas e momentos em sala da aula, rememorando a vida e as relações com cada um destes alunos. O preenchimento dos diários se tornou um momento de reflexão, contemplação, meditação e oração. Mais do que um transferidor de conteúdos, sou alguém que “vela” por estes seres que compartilham do mesmo mundo que eu. Aloha, palavra havaina, significa “estar na presença” (Alo) do divino (Ha).

Este é um dos reflexos do encontro, mas um encontro entre seres vivos é sempre muito mais. Compartilhados alimentos deliciosos, uma mesa com abundância, sabores, delícias. Mas além do alimento físico, a troca de experiências, de planos, de histórias de nossas Vidas, de interrupções para a realidade lúdica que também estava ali em nosso convívio e exigia nossa atenção e cuidado.

Nosso líder tinha um plano, com seu olhar adiante: a constituição de um grupo de escritores para descrever experiências literárias. O grupo (blog) deverá se chamar nosliterarios, referindo-se a nós, pessoas ali presentes, referindo-se a nós, aquele nó que usamos para unir linhas, cordões, ideias, experiências, vidas. Não são linhas, cordões, ideias, experiências e vidas que simplesmente se cruzam, são linhas, cordões, ideias, experiências e vidas que se cruzam e cuja união não se desfaz. O encontro fica marcado de forma definitiva, unida, amarrada. As linhas, cordões, ideias, experiências e vidas seguem sua trajetória, mas o nó foi atado, não se desfaz.

Amém (assim seja, assim está feito)!

domingo, 3 de abril de 2011

Grandes ações para pequenos grupos

"Há homens que lutam um dia e são bons.
Há outros que lutam um ano e são melhores.
Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Porém, há os que lutam toda a vida.
Esses são os imprescindíveis."
Bertold Brecht

Hoje estive em um protesto contra a mediocridade de Jair Bolsanaro.
Foi legal! Poucas pessoas, não mais que 30, outros tantos que ficaram um pouco e se foram e mais outro tanto que esteve só de passagem.
Apesar do número pequeno dos que ficaram, foi lindo perceber a grandeza de cada uma das pessoas que estavam ali, mesmo com chuva, dispostos a fazer sua parte.
É pensando neles e aproveitando o que conheço de Hakim Bey (Zona Autônoma Temporária), do Teatro Invisível de Augusto Boal e do trabalho de minha imprescincível amiga Nina Caetano (www.obscenica.blogspot.com) que resolvi propor possíveis ações para grupos pequenos (10 a 50, ou menos):
1. Pequenas Paradas. No lugar das grandes e festivas paradas gays, pode-se, com um pequeno grupo, fazer uma caminhada com "pequenas paradas". Por exemplo: caminhando pela Av. Paulista, uma primeira parada no Conjunto Nacional, um manifesto, um apitaço, uma intervenção cênica, uma ciranda...; caminha-se mais um pouco, até o vão do MASP, outra parada, repete-se o manifesto; caminha-se um pouco mais, até a Casa das Rosas, nova parada, novo manifesto... Centro Cultural São Paulo, nova parada, novo manifesto. Em outro momento a caminhada com paradas pode ser no centro da cidade, shoppings, outros bairros, em qualquer cidade.
1a. Parada com ciranda: levar um aparelho de som, tipo hip-hop, colocar uma ciranda e cirandar. Adereços, camisetas, cartazes e faixas são necessários para explicitar a ideia. A ciranda permite que pessoas que estejam passando pelo local participem da festa e demonstrem seu apoio, sem a necessidade de compromisso com a continuidade do evento.
1b. Parada com ciranda e beijaço no centro da roda: a mesma proposta, mas no centro da ciranda pode-se estar 3 casais; um hetero, um de meninos, um de meninas; misturando cores: negros, mulatos, brancos, índios, orientais, transexuais; um círculo ying, yang, yamp!!!
1c. Parada com ciranda e cena de intervenção: a mesma proposta, mas aproveita-se o centro da ciranda para a apresentação de uma cena rápida, um fato ocorrido, uma cena de violência. Por exemplo, uma cena de agressão onde o agredido retribua com uma rosa... sei lá, criatividade e inspiração não nos faltam! Uma poema, uma notícia, qualquer cena.
Mas as paradas devem ser rápidas, não mais de 15 minutos. Chega, faz, acontece, marca presença e dispersa. A força virá com a repetição e multiplicação da ação com diferentes grupos, em diferentes locais.
EVOÉ!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um shabat, e não outro dia, qualquer.

Foi um dia longo...
Começei com o retorno a meu curso de LIBRAS na DERDIC, e como o mundo é grande, mas gira, gira, gira; encontrei uma amiga do interior, de Araras, que eu não encontrava há mais de 30 anos, que também está fazendo o curso. Reforçando meu conceito dos elos sutis que unem as pessoas!
Depois, um passeio delicioso pela ÁGUA - a exposição que está na OCA. Contemplação, reflexão, preocupação, descanso, oração... para que nós, seres humanos, tenhamos a capacidade de parar a degradação do meio ambiente.
Almoço, pois o esqueleto precisa manter-se em pé.
Então: O filme O Discurso do Rei! Neste ano estamos com uma série de filmes incríveis. Já me extasiei com Cisne Negro. Agora, um exemplo de superação em um momento tão delicado e importante não só na história das personagens, mas na história do nosso mundo. Não é apenas Colin Firth e Geoffrey Rush que estão estupendos (para Geoffrey, este comentário é pleonasmo), mas todo o elenco; destaco Timothy Spall como Winston Churchill.
Ufa. Depois de uma pausa para banho e descanso, fui ver o espetáculo Justine no Teatro Sátyros II; sem comentários. E finalizei a noite com o melhor deste dia tão intenso, no Sátyros I, à meia-noite:
HIPÓSTESES PARA O AMOR E A VERDADE
No Sátyros eles trabalharam com o que denominaram de Teatro Expandido. O elenco não interpreta apenas personagens, mas são, em muitos momentos, os próprios personagens! É um facebook cênico... será?
No programa consta: "Com a evolução tecnológica, os recursos disponíveis para as experiências humanas tornam-se, a cada dia, mais provocadores e transformadores. Temas como o pós-homem e realidade expandida são hoje fundamentais para a compreensão dos caminhos que vamos traçar."
O elenco está magnífico, com Fedra de Córdoba em um papel chocante! Sua dança (em cadeira de rodas) está sublime (e não posso dizer mais). No elenco também estão quatro transexuais, alguns sem treinamento formal, mas com um poder cênico que apenas quem tem seu próprio corpo como figurino é capaz de usar.
Enfim... o corpo exige... uma noite de sonhos, na profundeza contida entre as paredes do meu quarto.
Como não deixar de agradecer a Deus... e às pessoas que compuseram mais este dia em minha Vida!
Como disse o poeta Gonzaguinha: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz!"

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Sinos

Ouvi os sinos da Ave Maria.
Exata a mente. Era 6 horas da tarde, anunciando a noite.
Há muito tempo que eu não os ouvia, e nunca os ouvi como neste momento, no alto da Avenida Paulista, sobre o som de motores de automóveis e suas buzinas, sobre o ronco monótono do ar condicionado central do edifício ao lado.
Ouvi-los em Araras, minha terra natal, é nostálgico e vital. Minha infância teve muito som de sinos, eu mesmo os badalei quando era coroinha.
Ouvi-los em Ouro Preto era um êxtase, uma apoteose, um festival!
Ouvi-los neste momento me trouxe um pouco mais de fé no mundo e nas pessoas - talvez seja efeito (colateral) do Natal.
Ouvi-los neste momento me trouxe um pouco de razão, ao menos a razão para escrever este texto.
Que badalem os Sinos; eterna a mente!!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Domingo no Parque

Mais um domingo delícia. Programa para quem não tem dinheiro. Passear pelo Ibirapuera. Depois de ver a Orquestra do Auditório, ao ar livre. Jovens músicos transcendendo a mediocridade do dia após dia. A Dança das Águas. Muita gente, muita criança, muita vida, conhecer novas pessoas, pessoas que talvez nunca mais encontremos. Valeu o dia, valeu a música, valeu viver! São Paulo também tem vida! Basta vivê-la, bem!

domingo, 11 de outubro de 2009

Crônica para 11 de outubro

Dizem que tô louco
Por te querer assim
Por pedir tão pouco
E me dar por feliz
Em perder noites de sono
Só pra te ver dormir
E me fingir de burro
Pra você sobressair

Dizem que tô louco
Que você manda em mim
Mas não me convencem, não
Que seja tão ruim
Que prazer mais egoísta
O de cuidar de um outro ser
Mesmo se dando mais
Do que se tem pra receber
E é por isso que eu te chamo
Minha flor, meu bebê

Dizem que tô louco
E falam pro meu bem
Os meus amigos todos
Será que eles não entendem
Que quem ama nesta vida
Às vezes ama sem querer
Que a dor no fundo esconde
Uma pontinha de prazer
E é por isso que eu te chamo
Minha flor, meu bebê

Cazuza / Dé / Bebel Gilberto

11 de outubro de 1991 – 11 de outubro de 2009
18 anos – A maioridade de um sentimento.
Em uma certa noite Adriana me perguntou se eu achava mesmo que o Amor é eterno, e eu confirmei, SIM. O Amor é eterno. As relações se transformam, mas o Amor é eterno. Haja visto que hoje comemoro 18 anos de um Grande Amor e quero me dedicar a um texto em sua memória.
Um dia Clarice me revelou: “Medo de não amar, maior que o medo de não ser amado.” Eu me senti triste pois naquele momento achei que nunca havia amado ninguém. Riso. Mas este era um auto-engano que a pouca vida oferece para dar mais ênfase, mais dramaticidade, mais consistência àquele pouco que vivemos.
Quando olho para o meu passado percebo que amei muito, que tive GrandeS AmoreS! Graças a Deus! Sempre fui muito rico em Amores. Hoje me sinto pobre, hoje também sinto medo de não amar. Mas me salvam as memórias, e a elas recorro para festejar este dia e todos os meus Amores:
Estávamos viajando há mais de uma semana. Foram várias cidades no interior de São Paulo, vários hotéis, vários restaurantes, várias platéias. Naquele 11 de outubro chegávamos em Belo Horizonte para conviver em mais um hotel, mais um restaurante. No dia seguinte teríamos mais uma platéia. Éramos um Grupo de Teatro cheio de vitalidade, cheio de alegria, montando e desmontando nosso cenário, fazendo e desfazendo nossa maquiagem. Acordávamos juntos, tomávamos café da manhã juntos, trabalhávamos juntos, nos alimentávamos juntos e conversávamos, e conversávamos, e ríamos, e ríamos, e brigávamos também, poucas vezes.
Estávamos viajando há mais de uma semana e naquele dia 11 de outubro chegamos em Belo Horizonte e eu não aguentava mais tanto convívio em comum. Risos.
Então, como não era difícil para mim, jantei com o grupo no hotel e com a desculpa de ir ao banheiro sai de mansinho, sem convidar ninguém para a tradicional cerveja. Eu adorava e adoro todos aqueles amigos, mas Belo Horizonte era uma cidade com um apelo diferente, eu sabia que algo especial me aguardava nas Minas Gerais, entre montanhas.
A noite estava deliciosa. Estava na Savassi, um bairro bacana, véspera de feriado. Sentia a vida fervilhando sob as estrelas. Andava perdido, sem ter onde ir, sem conhecer qualquer rua, qualquer lugar. Ao chegar em uma esquina me deparei com uma Torre Eiffel de 2 metros no meio da calçada.
Uau! A memória dos poucos dias que passei em Paris tomaram meu humor e me deram a garantia de que aquela noite seria memorável. Entrei no local para ver do que se tratava. Era uma boate, a Troisieme. Não tive dúvidas. Entrei.
A noite não estava cumprindo o prometido... a música era legal, havia um telão com imagens de aviões fazendo acrobacias, muitas pessoas como as muitas pessoas que sempre encontramos em muitas boates. O tédio começou a me dominar.
Em meio ao movimento eu vi quando ele entrou, acompanhado de uma menina. Um casal interessante. Não sei exatamente o porquê, mas minha atenção se fixou nele e meu pensamento o escolheu como tema. Ele era o escolhido. Mas eu, tímido, pouca inteligência relacional (riso) fiquei na minha, pensando, sem ação, me entregando ao tédio.
Quando o tédio venceu meu desejo de ficar tomei o caminho da saída. Som, luzes e eis que eu o vejo, encostado em uma coluna, só. Meus olhos se fixaram nele, o caminho da saída me levava a cruzar com ele, e meus olhos não conseguiram abandoná-lo. Parei quase em frente a ele, os olhos ainda fixos, minha cabeça enlouquecendo: eu preciso dizer algo! o que eu digo? que palavras usar? Ali, parados, olhos nos olhos. De repente ele apenas pegou em meu braço e me levou para dançar.
Nunca fui um bom dançarino apesar de frequentar muitos bailes na cidade onde nasci, no interior de São Paulo. The Cure e Joy Division me ajudaram neste sentido e meu jeito desengonçado podia ser tido como uma dança, mas ele era ainda mais desengonçado que eu, porém, naturalmente. E aquele jeito natural de ser desengonçado me deixou à vontade e poucos momentos depois estávamos nos beijando.
Da pista para uma área vazia no fundo da boate foi uma transferência instantânea. Lá ficamos, em pé, abraçados, excitados, falando sem parar sobre Clarice, sobre música, sobre teatro, sobre cinema. Aquela conversa, em outro momento, seria brochante, ou pelo menos desviaria o pensamento de uma pessoa para temas mais conceituais, mas entre nós, aquela conversa nos deixava ainda mais excitados. A necessidade do abraço era forte, nossos corpos de entrelaçavam, nossas mãos buscavam tocar todos os detalhes escondidos pelo pudor.
Suspiro profundo.
Ao me despedir dele na frente do hotel eu percebi que havia acontecido algo definitivo. O dia seguinte foi uma sequencia de atividades mas meu pensamento não o abandonou. À noite, na van, na estrada, voltando para Campinas eu olhava as estrelas sem conseguir dormir, observando a sensação que se manifestava dentro de mim, no corpo? Na alma? Em meu ser.
Em poucos dias recebi a primeira longa carta. Eu já havia postado a minha. Elas devem ter se encontrado pelo caminho. A partir daí muitas outras histórias aconteceram. Em poucos meses eu estava morando em Belo Horizonte e passamos a viver juntos, cada dia.
Como eu disse, o Amor é eterno, os relacionamentos não.
Hoje me restam memórias que me acalentam e inspiram meu viver, dando um bom sentido a cada novo dia.
Obrigado Deus! Amo, logo existo!

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Convite para a Festa!

iiiiiiiiii 45 ANOS iiiiiiiiii

Comemorar, como diz Mário Sérgio Cortella, é memorar junto, lembrar com outros (pg 20 em seu livro “Não espere pelo epitáfio...”).
Sim! Para minha felicidade há muito o quê lembrar e muitos amigos e amigas com quem lembrar junto. Nestes 45 anos foram muitos os momentos difíceis, mas também foram muitos momentos bons. Então, vamos, juntos, memorar?
Trago comigo vastas emoções e memórias. Desde brincar em montes de terra e pedras usados para asfaltar a Rodovia Anhanguera que era uma estradinha naqueles dias longínquos. O primeiro amigo, o Tato, e os vizinhos que eu achava que eram primos. Sim. Eram e são parte do que sinto prazer em chamar de Família.
Naqueles dias viajava quase todo final de semana para o sítio do Tio Pierobom onde subia em árvores enormes, me perdia no mundo mágico da fábrica de mandioca, comia pão caseiro quentinho feito no forno a lenha, mascava cana e chupava laranja no pé.
Me lembro de meu avô Nicola, que morreu nestes tempos. Tenho na memória a imagem dele sentado em um banco da praça, em frente à Igreja Matriz, ao lado de uma árvore. Hoje eu me sento no mesmo banco protegido pela sombra da mesma árvore que ali cresceu. É incrível o tanto que eu o amo tendo vivido tão pouco em sua companhia. O tempo o preservou.
Aqueles eram os bons tempos de brincar de ciranda em volta do coreto ao som da banda que continua a tocar todos os domingos no mesmo lugar, ou ficar parado perto da fonte para sentir as gotículas de água tocarem meu rosto.
Uau! Quanta memória boa! Um cachorro enorme que meu pai tinha (ou eu que era pequeno?), um papagaio que brincava comigo entre toquinhos de madeira que eram o lego daqueles tempos, papagaio que foi morto por um gato, gato que foi morto com uma vassourada pelo meu pai. O papagaio foi enterrado no mesmo quintal que contemplo hoje, nestes dias de sombra e idade.
Logo cedo aprendi a acreditar em Deus enquanto brincava na Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Havia um brinquedo chamado Passo-de-Anjo. Tinha o Padre Carlos e eu era coroinha, cantava no coro e celebrei minha primeira comunhão com a Dona Ivone. A eles sempre sou grato!
Nunca me esqueço das viagens para Santos nas férias, ou melhor, São Vicente. Íamos para Santos somente para tomar sorvete. Em São Vicente era o mar, brincar na areia, e o primeiro voo de avião. Avião? Tudo bem, era um teco-teco, mas estávamos nas alturas, sobre a serra, sobre o mar. Delícias infantis.
Depois veio o parque infantil onde meu pai me levava e me buscava todas as manhãs. Chegávamos em casa para o almoço. E então, a escola, o primeiro amigo na escola, o Jaime; a primeira professora, a amada Dona Maria; e a Dalva também, a amiga com quem ganhei uma prenda ao fazermos a dança da maça, aquela onde o casal dança segurando uma maça com a testa. Riso. Alegrias puras!
Veio a puberdade, a porra, os pelos, o primeiro beijo, em um homem, em São Paulo. A primeira namorada. Uma época em que era difícil entender os desejos.
A gente cresce, estuda, aprende a ser adulto, aprende a tocar violão com o grande mestre Ednelson. Começo a trabalhar, tiro minha carteira profissional. Mudo de escola, mudo de igreja.
Muitos amigos e amigas na adolescência, nossa Tchurma, o amor pelo melhor amigo em meio a desejos conflituosos. Muita música, muitos cursos, boas notas, boa vida.
Finalmente, a maior idade, diplomas, viagem para a Europa. A partir deste momento sinto um desapego cada vez maior por credos e comportamentos. Passo a morar em Campinas onde entendo melhor meus desejos e encontro o primeiro namorado, que compõe outra linda história para narrar. E, por falar em história, começo a trabalhar como músico no Grupo de Teatro Téspis, que me leva a novas viagens, novas descobertas, novas amizades, novos mundos.
Entro na Universidade e acabo me envolvendo no movimento estudantil. Com mais novos amigos, todos com muita energia para usar, fundamos o Grupo Gaia, um grupo para organizar viagens e excursões. Foi uma época maravilhosa! Conheci Trindade, ainda vila de pescadores, escalei o Pico das Agulhas Negras e desbravei cavernas no Vale do Alto Ribeita. Vivi momentos de êxtase em cada viagem que realizávamos.
Comecei estudando Matemática pois sempre quis ser professor, mas com a vivência na Universidade e com o Grupo de Teatro, mais as influências de Clarice Lispector, meus sentimentos se modificam e me levam para as Ciências Humanas.
Até aqui vivi em Araras, ia para São Paulo sempre que possível, conheci Londres e Paris, viajei para inúmeras cidades do interior de São Paulo e morava em Campinas há muitos anos, onde aprendi a viver sozinho, fazer comida, me cuidar e me descuidar. Em 1991 conheço Belo Horizonte e encontro um Grande Amor com quem vivi outras lindas histórias para narrar.
Me mudo para Belo Horizonte e descubro um novo mundo, novos sentimentos, meu encanto pelas Minas Gerais. Afirmei para uma amiga que o Amor não morre, mas os relacionamentos mudam... e assim foi, O Grande Amor ficou, mas nosso relacionamento degringolou.
Depois de sofrer a dose suficiente vou embora para São Paulo. Anos 90, histórias, histórias, muitas histórias, Massivo, Hell's, drogas, sexo e bass'n'drums. Anos intensos! O primeiro ácido caminhando pelo Elevado e o apartamento atemporal do Zafiro até o momento da Roleta Russa (leia esta história no blog).
Com tudo acontecendo, busca novas mudanças e tento ir embora para Cuiabá em busca de um novo amor mas acabo pedindo arrego em Araras. Meu pai havia morrido, minha vida e minha casa estavam deteriorando. Era um momento de reconstrução, mas depois do fôlego, um novo horizonte.
Minas definitivamente me enfeitiça. Fui passar uma semana de férias na casa de um amigo em Ouro Preto e acabei ficando por lá. Finalmente conquisto minha primeira graduação, em História. Novos amigos, novos mundos, amigos professores, professores amigos. Mais viagens e fortes emoções. Escalo o Pico da Bandeira durante a noite para ter o privilégio de ver nascer o sol de um lindo dia!
Terminada a graduação São Paulo me ilude e me traz de volta. Mas as expectativas são frustradas, uma apendicite dramática interrompe minhas pretensões. Perdas e mais perdas se sucedem.
A busca interior, sempre presente em minha vida, se torna mais preemente, já que as conquistas exteriores entram em estado de espera. Passo a estudar um pouco de Antroposofia e Filosofia.
A Antroposofia me leva ao estudo da minha biografia onde descubro que, depois de passar pela busca do meu lugar a partir dos 21 anos (Campinas), da conquista do meu lugar a partir dos 28 (Belo Horizonte) e da consolidação do meu lugar a partir dos 35 (Ouro Preto), entro, a partir dos 42 anos, na fase do autodesenvolvimento, da busca da verdade e realismo interior, o fazer o que é essencial.
Assim as perdas adquirem um significado diferente, Viktor Frankl aparece para me dizer que, quando a circunstância é boa, devemos desfrutá-la; quando a circunstância não é favorável, devemos transformar a circunstância; e quando a circunstância não pode ser transformada, devemos transformar a nós mesmos.
Enfim, um texto longo, uma vida intensa, não me esqueci de muita coisa, mas não cabe contar todas as história aqui, e este é um momento de comemoração. Aqui estamos, compartilhando minha história, não só memorando mas também memoriando juntos. E cito Ed René Kivitz para finalizar: a experiência depende da capacidade de transcender ao próprio eu ao buscar a unidade plural que formamos vivendo juntos.
Agradeço a Deus por tudo o que vivi, por todos que encontrei, e por tudo que viver hei!

domingo, 27 de setembro de 2009

Eh! São Paulo!

Domingo de muito sol, no Ibirapuera!
No palco, que não se vê graças à excelente câmera do meu celular rsrs, estão Fernanda Takai, Zélia Duncan e Frejat,
com a Orquestra Arte Viva!
Alto astral, um dia lindo!!
E não podia deixar de citar pelo menos uma música...
e para não variar: Segredos, do Frejat.

Eu procuro um amor

Que ainda não encontrei

Diferente de todos que amei...

Nos seus olhos quero descobrir

Uma razão para viver

E as feridas dessa vida

Eu quero esquecer...

Pode ser que eu o encontre

Numa fila de cinema

Numa esquina

Ou numa mesa de bar...

Procuro um amor

Que seja bom prá mim

Vou procurar

Eu vou até o fim...

E eu vou tratá-lo bem

Prá que ele não tenha medo

Quando começar a conhecer

Os meus segredos...

Eu procuro um amor

Uma razão para viver

E as feridas dessa vida

Eu quero esquecer...

Pode ser que eu gagueje

Sem saber o que falar

Mas eu disfarço

E não saio sem ele de lá...

Procuro um amor

Que seja bom prá mim

Vou procurar

Eu vou até o fim...

E eu vou tratá-lo bem

Prá que ele não tenha medo

Quando começar a conhecer

Os meus segredos...

Procuro um amor

Que seja bom prá mim

Vou procurar

Eu vou até o fim...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

E no quinto dia ele descansou...

E dando os trâmites por findos
Porque [ontem foi sábado]
Há a perspectiva do domingo
Porque [ontem foi sábado]
(brincando com Vinícius)
então
Hoje é domingo
pede cachimbo
cachimbo é de barro
bate no jarro
o jarro é de ouro
bate no touro
o touro é valente
bate na gente
a gente é fraco
cai no buraco
o buraco é fundo
acabou-se o mundo
.

domingo, 19 de julho de 2009

Dia, o Quarto

Mas não fiquei o dia todo no quarto não, fiquei mais foi na cozinha! Começei com uma mousse de chocolate, no almoço foi estrogonofe de frango e panquecas no jantar. Dei início à leitura da biografia de Renato Russo escrita pelo jornalista Carlos Macedo. Logo de cara gostei muito! Carlos Macedo faz toda uma apresentação do contexto histórico e político no Brasil desde Juscelino, com a construção de Brasília. Um excelente livro para ser usado nas aulas de História. Mas o melhor do dia foi assistir ao filme "The Legend of 1900". Como já narrei, ontem fiz a leitura do livro "Novecentos" de Alessandro Baricco. Hoje tive o prazer de ver este livro em forma de filme com a direção de Giuseppe Tornatore e a trilha sonora de Enio Morricone. Depois desta ficha técnica você acha que eu preciso escrever algo mais?