sexta-feira, 20 de julho de 2012

Manaus

     Do aeroporto ao centro arrisquei o ônibus e foi super tranquilo. O ônibus comum, R$ 2,70 e uma van a R$ 4,30, com ar condicionado. A van passou primeiro e foi uma viagem quase como um táxi pois éramos eu e apenas mais um passageiro. Melhor que os R$ 40 a serem pagos por um táxi "comum".
     Já havia pesquisado alguns hotéis. No centro da cidade existem muitos, alguns mais simples, outros com um pouco mais de requinte, mas o preço é sempre inferior a R$ 100 a diária com café da manhã. Alguns, mais sofisticados, pode chegar a R$ 120, mas não vi nenhum acima de R$ 150. E com alguma conversa o preço fica ainda melhor. Optei por um hotel bem simples, R$ 70 a diária, com ar condicionado, tv e café da manhã. Não pretendia ficar muito tempo dentro do hotel, era dormir, tomar banho, deixar a mochila e pertences.
     Bem, era uma tarde de domingo. A cidade estava em cesta... poucas pessoas pelas ruas, muito calor, tudo fechado. Foi até difícil encontrar um lugar para comer. Já era tarde para o almoço, muito cedo para o jantar. A solução foi um lanche bem gostoso, um X Picanha por apenas R$ 8, e um açaí no copo, de sobremesa, um picolé.
     Depois da refeição a alternativa foi ficar no quarto de hotel, protegido do calor pelo ar condicionado, vendo tv a cabo. Em Manaus, um autêntico domingo paulista.
     Neste quarto, o cheiro dos pensamentos, o descanso embaçado pela excitação do lugar desconhecido instigado pelo querer conhecer. Quando a luz do dia deixou de clarear o quarto, um banho espantou a letargia. Troca de roupa, perfume, agrados para a pele e rua.
Teatro Amazonas
     Ao chegar na Praça do Teatro Amazonas a cidade já estava repleta de vida. Palcos espalhados pela praça ofereciam magia, música e dança. Mas a majestade deste momento era o Teatro, ainda mais vê-lo com a noite e suas luzes. Foi quando notei uma fila e me veio o pensamento: por que não assistir a um espetáculo? Ao me aproximar já tive a agradável surpresa de ser um espetáculo gratuito, era só pegar a fila e entrar. Para maior alegria, haveria uma apresentação da Orquestra de Violões do Amazonas. Tive até um tempo gostoso para admirar os detalhes do Teatro, a boca de cena, as frisas, o teto, as cadeiras de madeira, confortáveis e belas.
Teatro Amazonas
     Estar ali já era algo sublime e ficou ainda melhor quando anunciou-se o repertório da noite, dedicado ao Folclore Regional. Para quem sempre evita o afogamento em meio a tanta música ruim e aos tec-tec-tecs doentios do dia-a-dia, a apresentação da Orquestra de Violões do Amazonas foi um balsamo. E não foi apenas o agradável da música, que foi excelente. O repertório apresentou canções de alguns dos Festivais da região. Fora o já globalizado Festival dos Bois de Parintins, tive o imenso prazer de saber sobre o Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, com os peixes Cardinal (azul e vermelho) e o Acará-disco (preto e amarelo) - http://www.barcelosnanet.com/2012/01/festa-em-barcelos-am-xviii-festival-do.html. E também  o Festival de Cirandas de Manacapuru - http://portalamazonia-teste.tempsite.ws/sites/ciranda/conteudo-menu.php?idM=2551.
     Soube que também existe um festival de tribos indígenas. É muito bom descobrir toda esta riqueza cultural que se perpetua apesar do grande império da mediocridade.
Orquestra de Violões do Amazonas
     Um dos pontos mais sublimes da apresentação, para meu gosto, para minha alma, foi o canto da Iara que é uma das canções do Boi Caprichoso. No palco, Karine Aguiar (de branco) fazia a canção, e Míriam Abad (de preto) fazia a voz da sereia. Por sintonia, nesta noite, vestia bermuda e camiseta azuis e não tive dúvidas, eu sou Caprichoso.
     Do Festival do Peixe Ornamental de Barcelos, há o Cardinal, que gosta de navegar, mas gostei mais do Acará-disco que, pela canção, gosta de desafios.
     Suspiro. Um espetáculo belíssimo, grandioso, em todos os aspectos.
     Obrigado Amazonas!

São Paulo - Manaus

     Finalmente, acomodado no avião, apenas com o atraso considerado padrão e desconsiderado nas estatísticas e relatórios, a avião decola.
     Como detalhe previsto e realizado, uma poltrona na janela, marcada com antecedência, fora das asas, para aproveitar todo o visual possível. Apesar do tempo nublado, o passeio voando a mais de 10km de altura proporcionou belas paisagens, garantindo uma viagem muito agradável.
     Começamos com a paisagem paulista, pontuada por cidades, entrecortada por estradas, cores e formatos diversos.
     Passado um tempo, a paisagem no solo muda. As cidades desaparecem. O que vemos são imensos quadriculados de plantações. Talvez seja este o tão propagado progresso da agricultura no Brasil, mas não tenho argumentos para desenvolver este tema.
     Finalmente, a tão esperada floresta. Um horizonte sem fim de árvores, verdes, riscado por rios curvilíneos, alguns largos, outros um fino fio de água, muitos alagados, lagoas, águas escuras, um dos rios com águas marrom barrentas, talvez o Solimões.
     Esta imagem me faz refletir. Por que os rios teimam em fazer curvas? Por que não seguem linhas retas, curvando-se apenas por necessidade, como as estradas? Porque os rios nos convidam a ficar, enquanto as estradas nos instigam a seguir.

Inicia-se a viagem...

Metrô, domingo, 6h30
     Como nada em São Paulo é tão fácil como poderia ser, chegar ao aeroporto e embarcar no avião teve suas intempéries.
     Apesar de ser um domingo, que pede cachimbo, 6h30 de uma manhã fria, o metrô e o ônibus para o aeroporto estavam absurdamente lotados. Poderia ter me dado ao luxo de pagar R$ 35 por um ônibus executivo, ou R$ 80 por um táxi. Poderia.
     Resolvi pagar R$ 7,30 (metrô + ônibus) para usufruir da categoria popular, que é a minha categoria. É uma pena que, mais uma vez, exista esta confusão entre luxo e dignidade. Eu não sou obrigado a pagar mais caro para ter um transporte digno. Eu posso pagar mais caro para ter luxo ou um conforto extra.

     E, ao chegar no aeroporto, o caos continua, e neste caso, não existe diferença de preços, o tratamento inadequado é o mesmo para todos. Filas, confusão, espera, trocas de portão de embarque, uma saga até o último instante de embarque.
     Portanto, o elemento essencial para qualquer viagem no Brasil é "muita paciência", seguir o conselho da ex-ministra de turismo "relaxa e goza", e prestar mais atenção nas próximas eleições.

Preparativos da viagem

Priscila, a rainha do deserto
     Antes mesmo do início da viagem muitas atividades já são realizadas. No caso desta viagem para a floresta, vacina para febre amarela e repelente de insetos para amenizar o risco de outras doenças que não tem vacina, como a malária. São atividades imprescindíveis.
     A aquisição de uma mochila adequada, onde caibam todos os utensílios necessários para a viagem e que possa, se possível, ser transportada como bagagem de mão, mesmo quando é carregada nas costas. Este detalhe simplifica muito todas as etapas da viagem, principalmente no aeroporto, mas não só, pois o cuidado com um único volume é bem menor do que se preocupar com uma série de malas, bolsas, mochilas ou qualquer outro apetrecho considerado necessário.
     Sou desta opinião: a única grande necessidade é viajar. Os demais utensílios apenas podem facilitar alguns aspectos, ou embelezar, mas na maior parte do trajeto podem atrapalhar muito. Portanto, em viagens, quanto menor a bagagem, maior a diversão.
     Porém, em uma viagem como esta, é imprescindível levar um bom livro como companhia, preparar uma boa trilha sonora para nos acalentar e, se padecer do mesmo mal que eu, um bom caderno com capa dura, lápis e apontador para as inevitáveis anotações que, não tenha dúvida, clamarão por existência.
     Findos os preparativos pragmáticos, as férias começarão antes mesmo do embarque. Neste caso, dois dias antes da primeira viagem de avião. Aproveitei estes dias para curtir a cidade onde moro, a capital. Fui assistir ao espetáculo "Priscila, a rainha do deserto", um bom roteiro para quem vai sair em viagem. Seguiu-se uma bebedeira comemorativa adequada ao momento nos bares de minha preferência.
     Depois da noite festiva, um dia de descanso e preparos finais da bagagem e outros detalhes.
Priscila, a rainha do deserto

Preâmbulos - viagem Manaus a Belém em julho de 2012

     Sou daqueles que sofrem o desejo de escrever. Escrever diários, escrever bilhetes, escrever situações, anotações. Eternizar um presente, a escrita, que é passado, vida, que já é futuro, nas possíveis leituras. Mas careço de criatividade, não sei inventar personagens e situações, o que escrevo é vida vivida, é vida ouvida, é vida partilhada.
     Então, comecei com o desejo de uma viagem que transformei em realidade e descrevo aqui esta andança.
     Uma das boas coisas do trabalho são as folgas e férias. Assim, então, eis-me aqui, com duas semanas de recesso escolar - outro nome utilizado para férias - cujo usofruto tem sido programado desde férias anteriores no início deste ano.
     Tudo nasceu com uma vontade, simples. Professor de História, sempre tive a Amazônia como um país distante, e há quem diga que nem mesmo Brasil ela é. Do pouco ou nada que conheço deste mundo, floresta, tudo é restrito a leituras e saberes teóricos. Foi com esta inquietação que determinei à minha vontade o realizar da viagem Manaus-Belém, de barco, pelos rios da Amazônia. Desbravar meu próprio país.
     Feitas as necessárias pesquisas, os eixos principais da viagem foram determinados: avião São Paulo a Manaus, dadas e preços de navios Manaus a Belém e o encerramento inevitável Belém a São Paulo de avião. Após algumas referências de hotéis, avaliações de preços e gastos, decidida foi a viagem.
    A primeira etapa foi, de todas, a mais tranquila. Determinar datas, comprar passagens de avião, tudo com a antecedência adequada para conseguir preços mais acessíveis e pagamento parcelado.
     As etapas intermediárias determinaram o grau da aventura. Os preços da viagem de barco variavam muito, de menos de R$ 200 a mais de R$ 600. É um dos males do turismo selvagem que se pratica no Brasil. Como se a única oportunidade de ganhar dinheiro, muito dinheiro, seja cobrando o máximo possível de turistas, que por mais precavidos que sejam, estão sujeitos à ignorância do ambiente que querem conhecer.
     Esta prática já se dá a partir dos taxistas de aeroporto, creio que sejam o maior exemplo desta falta de caráter. Mas mesmo um quarto de hotel pode custar R$ 40 para um nativo e R$ 100 para o turista, e um turista "esperto" consegue pagar barato R$ 70. Depois, neste caso específico, vem a passagem de barco, onde um camarote custa R$ 600, o turista pode receber um bom desconto e pagar R$ 450 ou R$ 500, mas um nativo não paga mais do que R$ 300. Se a viagem for em rede, no nativo paga R$ 40 ou menos, e o turista, com desconto, paga R$ 90, mas este preço pode chegar a R$ 120 e até mais.
     Enfim, cultura brasileira, para que cobrar um preço justo se eu tenho a oportunidade de ganhar mais dinheiro com isto? É assim que caminha o turismo no Brasil.

domingo, 15 de abril de 2012

Nós literários

ENCONTRO VITAL

Ontem, 14 de abril do ano 2012 da era cristão, tive o prazer de participar de uma ceia sagrada, um encontro de seres afins que compartilharam não apenas comida, mas suas próprias Vidas. Éramos nove pessoas: três crianças, três professor@s, tínhamos um líder, uma artista, e duas pessoas em um processo de busca. Bem, apenas apresentei as personagens presentes neste encontro. Mas vou desenvolver minha reflexão.

Três professor@s, começarei por nós, pois sou um deles: uma Professora de Geografia, um Professor de Português e um Professor de História, eu. Nosso líder, que estava com o olhar à nossa frente, quem promoveu o encontro, quem tinha um objetivo para o encontro, quem tinha um plano para a transcendência deste encontro. A artista, que não precisa de descrição, pois o próprio nome já a define. Três crianças lindas, os anjos do encontro: a Amelie, o Santiago e o Antônio, alegrando e tornando nosso encontro mais belo e agitado. E as duas pessoas em um processo de busca mais pontual, embora todos nós nos encontrássemos ali para desenvolver este processo.

Hoje estou preenchendo meus diários das minhas classes do Ensino Fundamental, e percebo os efeitos transcendentes de nosso encontro. Ganhei de presente da artista o conhecimento do Ho’oponopono, um processo de meditação e cura havaiano, e comecei meu dia estudando um pouco deste processo. A partir dele, minha visão do trabalho de preencher diários escolares mudou completamente. Não é mais uma atividade burocrática, mas espiritual. A cada marca nos diários acompanha um pensamento naquele ser vivo que está sob minha responsabilidade. Nunca antes havia percebido a profundidade deste momento. Aqui em minha gruta, ouvindo músicas clássicas da Rádio Cultura FM, vendo minhas anotações, relembrando minhas aulas e momentos em sala da aula, rememorando a vida e as relações com cada um destes alunos. O preenchimento dos diários se tornou um momento de reflexão, contemplação, meditação e oração. Mais do que um transferidor de conteúdos, sou alguém que “vela” por estes seres que compartilham do mesmo mundo que eu. Aloha, palavra havaina, significa “estar na presença” (Alo) do divino (Ha).

Este é um dos reflexos do encontro, mas um encontro entre seres vivos é sempre muito mais. Compartilhados alimentos deliciosos, uma mesa com abundância, sabores, delícias. Mas além do alimento físico, a troca de experiências, de planos, de histórias de nossas Vidas, de interrupções para a realidade lúdica que também estava ali em nosso convívio e exigia nossa atenção e cuidado.

Nosso líder tinha um plano, com seu olhar adiante: a constituição de um grupo de escritores para descrever experiências literárias. O grupo (blog) deverá se chamar nosliterarios, referindo-se a nós, pessoas ali presentes, referindo-se a nós, aquele nó que usamos para unir linhas, cordões, ideias, experiências, vidas. Não são linhas, cordões, ideias, experiências e vidas que simplesmente se cruzam, são linhas, cordões, ideias, experiências e vidas que se cruzam e cuja união não se desfaz. O encontro fica marcado de forma definitiva, unida, amarrada. As linhas, cordões, ideias, experiências e vidas seguem sua trajetória, mas o nó foi atado, não se desfaz.

Amém (assim seja, assim está feito)!

sábado, 10 de março de 2012

Elucubrações bêbadas!!!


Não me pergunte o que eu tenho a lhe dizer
Ouça Louça Louc@
o que você diz a si mesm@!
- Ninguém possui a resposta que te pertence.
Ao final, é ela que te pertence
pelo menos, ou, ao menos,
talvez seja tudo o que te/nos reste.
Papéis avulsos, paridos, párias
na mesa de qualquer
um
bar
qualquer.
só possível pela presença + pré-sensa + de todos em mim.
Pois, ao final, eu não quero falar sobre ou para obter, o que seja, sexo,
pois o desejo: realidade, mesmo, é fantasia
e meu grito é silêncio!
com ponto de ex-clama-ação
ou inter+roga+(qualquer)ação
e enfim, apenas um ponto. final
além dos nós em mim.

O artista não precisa,
e quando pode, vira mercadoria.

sábado, 26 de novembro de 2011

A verdadeira logo dos partidos:




Kassab, Alkmin e Anastasia... ou, como prefiro chamá-los: Kussab, Aikmin e Anestesia - autoritários e mentirosos - estão destruindo o sistema de ensino em São Paulo e Minas Gerais.
E o falecido Partido Comunista, utilizando a mesma tática de Hitler para ganhar eleições e "depois" aplicar o comunismo... lorota feita. Querem o Netinho como prefeito de São Paulo!!! SOCORRO!!!
São todos partidos neo-liberais peçonhentos, corruptos e que enganam a população para estabelecerem seus privilégios.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Entre amigos - um epílogo.

Entre amigos - um epílogo.
In: Humano, demasiado humano. p. 309.

1.
É belo guardar silêncio juntos
Ainda mais belo sorrir juntos -
Sob a tenda do céu de seda
Encostado ao musgo da faia
Dar boas risadas com os amigos
Os dentes brancos mostrando.

Se fiz bem, vamos manter silêncio
Se fiz mal - vamos rir então
E fazer sempre pior
Fazendo pior, rindo mais alto
Até descermos à cova.

Amigos! Assim deve ser? -
Amém! E até mais ver!

2.
Sem desculpas! Sem perdão!
Vocês contentes, de coração livre,
Queiram dar, a este livro irrazoável,
Ouvido, coração e abrigo!
Creiam, amigos, a minha desrazão
Não foi para mim uma maldição!

O que eu acho, o que eu busco -
Já se encontrou em algum livro?
Queiram honrar em mim os tolos!
E aprender, com este livro insano,
Como a razão chegou - "à razão"!

Então, amigos, assim deve ser?
Amém! e até mais ver!

domingo, 17 de julho de 2011

Tolstoi: Anarquista? Cristão!

Não pensem que abandonei meus estudos sobre Anarquia, muito pelo contrário, minhas ideias estão mais acraciadas do que nunca.

Quando falo sobre Clarice Lispector, não estou distante da anarquia. Clarice foi uma escritora que não se vinculou a qualquer tradição literária, embora muitos estudiosos tentem enquadrá-la através de suas críticas e análises. Eu prefiro sintetizar suas obras, acrescentar a elas minhas leituras e interpretações. Ao começar a tentar escrever um ensaio sobre ela encontrei mais de 430 trabalhos acadêmicos já “defendidos” no site da CAPES. Clarice foi analisada por estudiosos das mais diversas áreas, em seus aspectos não apenas literários, mas também filosóficos e místicos, ou qualquer outra faceta que se queira observar. Vale lembrar que o conto “O ovo e a galinha” foi apresentado pela própria autora no primeiro Congresso Mundial de Bruxaria. É preciso dizer algo mais?

Mas o assunto desta postagem é outro grande escritor: Leon Tolstoi.
Tolstoi é mundialmente famoso por seus romances: Guerra e Paz publicado em 1868 e Anna Karienina publicado em 1875. Mas vamos falar aqui do segundo período da vida deste escritor; após uma violenta crise espiritual pela qual passou ao completar 50 anos (1878) e que é apresentada no livro Minha Confissão de 1882. Poucas pessoas sabem sobre seus debates com filósofos e teólogos da época, e que é no meio do povo pobre que ele dá-se conta do que é na verdade a fé para essa gente; que a fé não é um assunto de conversas inconsequentes, mas uma questão vital, e é isso que provoca sua “conversão”.

O Reino de Deus está em Vós é considerada a obra máxima de Tolstoi deste período e lhe tomou três anos para completá-la (1890-1893), justamente no momento em que ele chegava ao cume de sua maturidade intelectual – 65 anos de idade. A dificuldade na execução desta obra não está apenas no tema abordado, mas também no fato de ter que andar por toda a parte organizando refeitórios populares para ajudar os pobres a vencer a terrível crise de 1891, o que mostra seu verdadeiro comprometimento com suas ideias.

Apesar de atualmente esta obra ser praticamente ignorada, logo após sua publicação ela foi traduzida nas principais línguas europeias e um de seus leitores mais notórios foi Gandhi, que leu o trabalho em inglês em 1894. Gandhi se encontrava então em uma crise de ceticismo e dúvida e, como ele mesmo conta; “a leitura do livro me curou do ceticismo e fez de mim um firme seguidor da ahimsa”.
A-himsa é o pensamento puro da Índia, inspirado pelo amor universal. Himsa significa querer matar, querer prejudicar. A-himsa é a renúncia de toda intenção de morte ou dano ocasionado pela violência. Gandhi leva este livro consigo para a prisão em 1908 e declara que Tolstoi era o “maior apóstolo da não-violência” e o homem “mais autêntico de seu tempo”.
Depois das primeiras reações contraditórias – aplausos de um lado e vetado pelo regime czarista, além de seu autor ter sido excomungado pela igreja ortodoxa, pois Tolstoi recusa radicalmente as ideias de Estado e de Igreja, considerando estas duas instituições como essencialmente opressoras do povo – a opinião pública internacional relegou esta obra ao esquecimento. Entre nós, mais que de esquecimento, devemos falar mesmo de falta de conhecimento, pois conhecemos apenas o Tolstoi romancista, contista ou novelista.

O que Tolstoi sustenta em todo o livro é a validade social do preceito de Cristo no Sermão da Montanha: “Não resistais ao mal” (Mateus 5:39). O sentido que Tolstoi defende é: não resistais ao mal com o mal, ou seja, não responder à violência com a violência, ele não aceita a máxima jurídica comumente aceita: vim vi repellere (repelir violência com violência). A violência jamais pode ser legitimada apelando para o direito de “legitima defesa”, porque a violência é sempre um mal, e não se pode responder ao mal com o mal, e isso vale tanto para o cristão como para um cidadão qualquer.

Mas também não se trata de o indivíduo permanecer passivo frente ao mal ou à violência, mas de responder a ela pela não-violência: a bondade, a mansidão e a caridade. Os preceitos do Sermão da Montanha, no caso a não-violência, são realmente imperativos. Não se trata de leis morais ou regras jurídicas fixas que devam ser aplicadas mecanicamente. São indicações de um ideal, apelos éticos, “via de perfeição infinita”. São exigências morais absolutas, que têm a força de pôr em movimento a relatividade do agir humano concreto. Têm um caráter assintótico: aproximam da perfeição divina, sem nunca chegar a atingi-la, mas movem a vontade naquela direção. Manifestam a essência da alma humana, e por isso vale para cada um e para toda sociedade. Tolstoi usa uma bela comparação com um barqueiro, que, para chegar à outra margem de um rio rápido, não pode se dirigir em linha reta, mas deve remar contra a corrente.

A não-violência tolstoiana se exprime na não-cooperação, na desobediência civil e particularmente no repúdio ativo a toda a servilidade. Tolstoi sabe que o poder se alimenta da aceitação e do consenso; pior: da obediência cega e da submissão. A ética de Tolstoi é radicalmente libertária; a liberdade é um atributo inalienável e definitório do ser humano. Para isso apresenta no frontispício do livro, uma citação de Paulo na I carta aos Coríntios 7:23: “Não vos torneis servos dos homens”. Também não acredita nos efeitos libertadores de uma revolução violenta, mesmo de tipo popular. Considera politicamente inviável devido à complexidade e a potência do Estado moderno; e ineficaz, pois instaura uma opressão mais cruel que a anterior, como se verificou no regime de Goulag.

Pode-se afirmar um amadurecimento da consciência moral da humanidade, porque a violência se mostra cada vez mais ineficaz para resolver os conflitos sociais, tanto no interior das nações como nas relações internacionais. Retomando uma distinção de Kant, é possível constatar certo progresso em termos de legalidade (no nível dos princípios), embora não necessariamente em termos da moralidade (no nível das práticas). Frente à complexidade dos Estados e das sociedades modernas, a violência não funciona mais.

A defesa intransigente da não-violência vai junto com a deslegitimização do Estado, que para Tolstoi é a violência encarnada; não só um Estado autocrático, mas todo Estado, inclusive o democrático, onde a violência apenas deixaria de ser concentrada para ser mais difusa.
Para Tolstoi o exército existe para subjugar o povo em benefício de uma minoria, é o sustentáculo da tirania, sua função é matar. Sendo a vida um valor absoluto, não existem mortes legítimas, por isso, mandando matar, o exército transforma o soldado em um carrasco. Assim, o serviço militar deve ser condenado sem remissão pois trata-se nada menos do que uma preparação ou exercício para o assassinato, é uma forma especiosa de autotirania. Tolstoi chega a prever profeticamente o horror de um conflito mundial, que efetivamente irrompeu com a Primeira Grande Guerra.

A igreja é outro sustentáculo da violência paraTolstoi, não apenas esta ou aquela igreja concreta, mas a ideia mesma de igreja. As igrejas seriam fundamentalmente anticristãs, e se nelas se encontram pessoas boas, isso se deveria à própria virtude dessas pessoas e não à sua pertença à igreja. Todo o rico sistema simbólico da igreja é atacado como meio para “hipnotizar”, impressionar e adormecer a consciência do povo. As igrejas têm que escolher entre o Evangelho e o Dogma. Está convencido de que chegou a hora de entender e assimilar o cristianismo em sua forma pura, porque até hoje os cristãos não teriam compreendido sua verdadeira essência.

Tolstoi seria, por tudo isso, um anarquista? Ele confessa: “Não sou anarquista, sou cristão.” Acrescenta que os adeptos da não-violência são muito mais perigosos para o Estado do que quaisquer pretensos revolucionários, sejam socialistas, comunistas ou anarquistas. Pois o Estado sabe muito bem tratar com estes, que jogam pelas mesmas regras, mas já não sabe como se haver com os adeptos da não-violência, que se situam num campo onde o Estado já está de antemão derrotado.

Infelizmente, até mesmo as ideias de Tolstoi foram transformadas em dogmas e utilizadas de forma humana para exercício de controle e poder por seus seguidores; nada de novo na história do homem sobre a Terra. Para os que não gostam de ler, existe um excelente filme: A Última Estação, que traça os últimos momentos da vida deste grande escritor e filósofo, ilustrando não apenas suas ideias, mas também os conflitos e sofrimentos gerados por seus seguidores.

Pode-se então perguntar se esta visão é realista, se não é meramente utópica. Existem conflitos na sociedade e é preciso manter certa ordem social. Tolstoi acha que para isso não se precisa de um Estado, mas de uma sociedade civil madura, acredita na força da consciência moral, que chama de “opinião pública”. Mesmo assim, pode-se perguntar se e possível algum dia na sociedade prescindir de um órgão central de coordenação e direção, especialmente para as nossas sociedades complexas. Todavia, da provocação de Tolstoi podemos extrair seu núcleo positivo: Não se trata de o Estado se ocupar cada vez mais da “administração das coisas” e cada vez menos do “governo dos homens”? A função “política” do Estado não deve se reduzir aos limites mínimos possíveis? Nessa linha não seria perfeitamente pensável e desejável a superação gradual do sistema repressivo-defensivo?

Enfim, segue firme meus nossos sonhos e anseios por um mundo de paz, com menos miséria e injustiça.


(PS.: este texto é um resumo da apresentação feita pelo Fr. Clodovis Boff na segunda edição de O Reino de Deus está em Vós editado pela Rosa dos Tempos em 1994.)

Para comprar: O Reino de Deus está em Vós. (edição de bolso). Best Bolso, 2011.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Encontros e devaneios

O melhor no mundo da pesquisa é quando encontramos aquilo que não estamos procurando.

É assim que, pesquisando sobre “anarquia”, me defrontei com um anarquista cristão, Tolstói, que influenciou Gandi, e cujas ideias, ao serem usadas como dogma, deixaram de ser anárquicas para serem conservadoras, ou outra coisa qualquer – vide o filme A última estação, que nos brinda com os últimos dias na vida deste grande escritor e filósofo e também com os conflitos gerados pelas pessoas que usaram suas ideias transformadas em dogma. É por essas e outras histórias que afirmo que a anarquia está apenas no mundo das ideias, ela não existe no mundo dos homens. A única forma essencialmente anárquica que existe é o pensamento.
Mas não abandono minha intenção de criar zonas autônomas temporárias em minha vida, sempre que a vida me permite.
Foi assim que, estudando filosofia, passei a ler Clarice Lispector com outro olhar, ou melhor, outro entendimento. É incrível os elos que conseguimos estabelecer entre obras de Clarice e ideias filosóficas. É difícil afirmar se estas ideias derivaram da leitura de textos filosóficos ou se são fruto do próprio exercício da escrita de Clarice, obviamente, sem ignorar toda a sua formação, influências e vida.
Em um passo seguinte começei a pesquisar mais a obra desta escritora, textos que analisam sua obra e vida e me defrontei com mais uma descoberta inesperada: Clarice, - uma biografia de Clarice Lispector, escrita por Benjamin Moser. A grande descoberta não está na narrativa de uma vida, da vida de uma escritora, da vida de Clarice Lispector; a grande descoberta está no excelente livro de História que Benjamin Moser produziu, tendo como eixo, a vida de Clarice Lispector. Esta é uma leitura altamente recomendável, a quem gosta de Clarice, a quem nunca leu suas obras, a qualquer pessoa que goste de uma leitura agradável e consistente.
Obrigado Benjamin Moser!


(Veja também o livro Clarice, em uma edição de bolso, mais barata. Porém, para os amantes, recomendo a edição em capa dura, com link no texto acima.)

sábado, 9 de julho de 2011

Clarice Filósofa

Em setembro devo apresentar uma comunicação oral sobre Clarice Lispector no VII Colóquio 'As Margens da Filosofia', em uma mesa conduzida pela Profª Marília Mello Pisani sobre mulheres na filosofia. O Colóquio é promovido pela Universidade São Judas Tadeu, em São Paulo. Ainda aguardo a aceitação de meu trabalho, mas segue aqui um resumo para quem se interessar.

Seguindo a afirmação de Friedrich Nietzsche que nos diz que o filósofo está mais próximo do poeta, mas pretende ser um cientista, queremos aproximar um texto da escritora Clarice Lispector a um texto do filósofo Jean-Jacques Rousseau. O texto de Clarice A menor mulher do mundo apresenta inúmeras referências subjetivas ao Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens de Jean-Jacques Rousseau. Podemos começar com a personagem do explorador francês Marcel Prete que assume um papel cético, sem dogmatismo ou opinião; "sentindo necessidade imediata de ordem, e de dar nome ao que existe"; "pelo menos ocupou-se em tomar notas". Temos a descrição literária da tribo de pigmeus existente "nas profundezas da África Equatorial", "que, não fosse o sonso perigo da África, seria povo alastrado", "mesmo a linguagem que a criança aprende é breve e simples, apenas essencial" e "como avanço espiritual, têm um tambor", para os quais "não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida" - muito próxima da descrição do homem selvagem do filósofo. Mais rico ainda é analisarmos os devaneios de senso comum, quando pessoas civilizadas tem contato com a descoberta da menor mulher do mundo através do "suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural", como por exemplo; a mãe que "enrolando os cabelos em frente ao espelho do banheiro", "olhou para o filho esperto como se olhasse para um perigoso estranho" e "sabia que este seria um domingo em que teria de disfarçar de si mesma a ansiedade, o sonho, e milênios perdidos". Não podemos deixar de citar a análise sobre "um velho equívoco sobre a palavra amor", "que exige que seja de mim, de mim!, que se goste, e não de meu dinheiro. Mas na umidade da floresta não há desses refinamentos cruéis, e amor é não ser comido, amor é achar bonito uma bota, amor é gostar da cor rara de um homem que não é negro, amor é rir de amor a um anel que brilha". E no final do texto a escritora nos dá aquela resposta sempre aceita, arduamente questionada: "Deus sabe o que faz.".
O texto da escritora é curto, muito menor em número de palavras que o discurso do filósofo, e provocamos: será ele menos claro e distinto, menos significativo, menos verdadeiro? Onde não existe ciência, não existe verdade? Sem seguir qualquer norma ABNT, será ele menos valioso para o conhecimento do homem? Ser ou não ser não é a única questão.
(E eu, com minha subjetividade, penso que a superação da bestialidade no ser humano depende mais da arte que da ciência. Albert Einstein concordaria comigo.)

domingo, 3 de abril de 2011

Grandes ações para pequenos grupos

"Há homens que lutam um dia e são bons.
Há outros que lutam um ano e são melhores.
Há os que lutam muitos anos e são muito bons.
Porém, há os que lutam toda a vida.
Esses são os imprescindíveis."
Bertold Brecht

Hoje estive em um protesto contra a mediocridade de Jair Bolsanaro.
Foi legal! Poucas pessoas, não mais que 30, outros tantos que ficaram um pouco e se foram e mais outro tanto que esteve só de passagem.
Apesar do número pequeno dos que ficaram, foi lindo perceber a grandeza de cada uma das pessoas que estavam ali, mesmo com chuva, dispostos a fazer sua parte.
É pensando neles e aproveitando o que conheço de Hakim Bey (Zona Autônoma Temporária), do Teatro Invisível de Augusto Boal e do trabalho de minha imprescincível amiga Nina Caetano (www.obscenica.blogspot.com) que resolvi propor possíveis ações para grupos pequenos (10 a 50, ou menos):
1. Pequenas Paradas. No lugar das grandes e festivas paradas gays, pode-se, com um pequeno grupo, fazer uma caminhada com "pequenas paradas". Por exemplo: caminhando pela Av. Paulista, uma primeira parada no Conjunto Nacional, um manifesto, um apitaço, uma intervenção cênica, uma ciranda...; caminha-se mais um pouco, até o vão do MASP, outra parada, repete-se o manifesto; caminha-se um pouco mais, até a Casa das Rosas, nova parada, novo manifesto... Centro Cultural São Paulo, nova parada, novo manifesto. Em outro momento a caminhada com paradas pode ser no centro da cidade, shoppings, outros bairros, em qualquer cidade.
1a. Parada com ciranda: levar um aparelho de som, tipo hip-hop, colocar uma ciranda e cirandar. Adereços, camisetas, cartazes e faixas são necessários para explicitar a ideia. A ciranda permite que pessoas que estejam passando pelo local participem da festa e demonstrem seu apoio, sem a necessidade de compromisso com a continuidade do evento.
1b. Parada com ciranda e beijaço no centro da roda: a mesma proposta, mas no centro da ciranda pode-se estar 3 casais; um hetero, um de meninos, um de meninas; misturando cores: negros, mulatos, brancos, índios, orientais, transexuais; um círculo ying, yang, yamp!!!
1c. Parada com ciranda e cena de intervenção: a mesma proposta, mas aproveita-se o centro da ciranda para a apresentação de uma cena rápida, um fato ocorrido, uma cena de violência. Por exemplo, uma cena de agressão onde o agredido retribua com uma rosa... sei lá, criatividade e inspiração não nos faltam! Uma poema, uma notícia, qualquer cena.
Mas as paradas devem ser rápidas, não mais de 15 minutos. Chega, faz, acontece, marca presença e dispersa. A força virá com a repetição e multiplicação da ação com diferentes grupos, em diferentes locais.
EVOÉ!

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Um shabat, e não outro dia, qualquer.

Foi um dia longo...
Começei com o retorno a meu curso de LIBRAS na DERDIC, e como o mundo é grande, mas gira, gira, gira; encontrei uma amiga do interior, de Araras, que eu não encontrava há mais de 30 anos, que também está fazendo o curso. Reforçando meu conceito dos elos sutis que unem as pessoas!
Depois, um passeio delicioso pela ÁGUA - a exposição que está na OCA. Contemplação, reflexão, preocupação, descanso, oração... para que nós, seres humanos, tenhamos a capacidade de parar a degradação do meio ambiente.
Almoço, pois o esqueleto precisa manter-se em pé.
Então: O filme O Discurso do Rei! Neste ano estamos com uma série de filmes incríveis. Já me extasiei com Cisne Negro. Agora, um exemplo de superação em um momento tão delicado e importante não só na história das personagens, mas na história do nosso mundo. Não é apenas Colin Firth e Geoffrey Rush que estão estupendos (para Geoffrey, este comentário é pleonasmo), mas todo o elenco; destaco Timothy Spall como Winston Churchill.
Ufa. Depois de uma pausa para banho e descanso, fui ver o espetáculo Justine no Teatro Sátyros II; sem comentários. E finalizei a noite com o melhor deste dia tão intenso, no Sátyros I, à meia-noite:
HIPÓSTESES PARA O AMOR E A VERDADE
No Sátyros eles trabalharam com o que denominaram de Teatro Expandido. O elenco não interpreta apenas personagens, mas são, em muitos momentos, os próprios personagens! É um facebook cênico... será?
No programa consta: "Com a evolução tecnológica, os recursos disponíveis para as experiências humanas tornam-se, a cada dia, mais provocadores e transformadores. Temas como o pós-homem e realidade expandida são hoje fundamentais para a compreensão dos caminhos que vamos traçar."
O elenco está magnífico, com Fedra de Córdoba em um papel chocante! Sua dança (em cadeira de rodas) está sublime (e não posso dizer mais). No elenco também estão quatro transexuais, alguns sem treinamento formal, mas com um poder cênico que apenas quem tem seu próprio corpo como figurino é capaz de usar.
Enfim... o corpo exige... uma noite de sonhos, na profundeza contida entre as paredes do meu quarto.
Como não deixar de agradecer a Deus... e às pessoas que compuseram mais este dia em minha Vida!
Como disse o poeta Gonzaguinha: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz!"

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Teresa Filósofa

Segue um trecho do livro "Teresa Filósofa", precisamente, o discurso do Abade T... sobre religiões, que na edição da L&PM Pocket está nas páginas 94 a 104.
Este livro foi um dos maiores best-sellers da Europa no século XVIII e sua autoria "anônima" é atribuida a Jean Baptiste Boyer (1704-1771), o marquês d'Argens.
É uma composição de libertinagem, luxúria e filosofia, cuja necessidade de discreção para a época em que foi escrito e para os tempos atuais é claramente perceptível em cada parágrafo que contém.
A quem quiser se aventurar pelas confissões de Teresa, boa leitura!

EXAME DAS RELIGIÕES PELAS LUZES NATURAIS

- Por que então eles não são inteiramento inocentes? - disse a Sra. C... - Pois vos esforçastes em dizer que eles não ferem absolutamente o interesse da sociedade, que somos levados a isso por uma necessidade tão natural a certos temperamentos, tão carente de alívio quanto as necessidades da fome e da sede... Vós me demonstrastes muito bem que agimos somente pela vontade de Deus, que a natureza não passa de uma palavra vazia de sentido e é somente o efeito, do qual Deus é a causa. Mas da religião, o que direis? Ela nos proíbe os prazeres concupiscentes fora do casamento. Será isto ainda uma palavra vazia de sentido?
- O quê, madame? respondeu o Abade -, não vos lembrais portanto que, absolutamente, não somos livres, que todas as nossas ações são necessariamente determinadas? E se não somos livres, como podemos pecar? Mas já que quereis, entremos seriamente em matéria sobre o capítulo das religiões. Conheço a vossa discrição, a vossa prudência, e temo tanto menos me explicar quanto protesto diante de Deus pela boa-fé com que procurei separar a verdade da ilusão. Eis o resumo de meus trabalhos e de minhas reflexões sobre essa importante matéria.
"Deus é bom, digo eu. Sua bondade me assegura que, se eu procurar ardorosamente saber se é um culto verdadeiro que ele exige de mim, ele não me enganará, evidentemente chegarei a conhecer esse culto, de outra forma Deus seria injusto. Ele me deu a razão para eu me servir dela. Em que poderia melhor empregá-la?
Se um cristão de bóa-fé não quiser examinar a sua religião, por que ele quererá (assim como o exige) que um maometano de boa-fé examine a sua? Tanto um quanto outro acreditam que sua religião lhes foi revelada por Deus, um por Jesus Cristo, o outro por Maomé.
A fé somente nos vem porque homens nos disseram que Deus fez a revelação de certas verdades. Mas, da mesma forma, outros homens o disseram aos sectários das outras religiões. Em quais acreditar? Para sabê-lo, é preciso portanto examinar, pois tudo o que nos vem dos homens deve ser submetido à nossa razão.
Todos os autores das diversas religiões espalhadas sobre a terra se vangloriaram de que Deus as tinha revelado para eles. Em quais acreditar? Examinemos qual é a verdadeira. Mas como tudo é preconceito da infância e da educação, para julgar de maneira sadia, é preciso sacrificar a Deus qualquer preconceito e, em seguida, examinar com a luz da razão uma coisa da qual depende a nossa felicidade ou a nossa desgraça durante nossa vida e durante a eternidade.
Primeiramente observo que há quatro partes no mundo, que no máximo a vigésima parte de uma dessas quatro partes é católica, que todos os habitantes das outras partes dizem que adoramos um homem, o pão, que multiplicamos a Divindade, que quase todos os padres se contradisseram em seus escritos, o que prova que não estavam inspirados por Deus.
Todas as mudanças de religião, desde Adão, feitas por Moisés, por Salomão, por Jesus Cristo e, em seguida pelos padres, demonstram que essas religiões não passam de obras dos homems. Deus jamais varia! Ele é imutável.
Deus está em todo lugar. Contudo a Sagrada Escritura diz que Deus buscou Adão no paraíso terrestre: Adam, ubi es, que Deus passeou ali, que falou sobre Jó com o diabo.
A razão me diz que Deus não está sujeito a nenhuma paixão. Entretanto, no Gênese, no capítulo VI, fazem Deus dizer que se arrependeu de ter criado o homem, que a sua cólera não foi ineficaz. Deus parece tão fraco, na religião cristã, que não pode reduzir o homem ao ponto que gostaria: ele o pune pela água, em seguida pelo fogo, o homem continua o mesmo; ele envia profetas, os homens ainda são os mesmos; ele tem somente um filho único, ele o envia, contudo os homens não mudam em nada. Quantas coisas ridículas a religião cristã atribui a Deus!
Todos estão de acordo que Deus sabe o que deve acontecer durante a eternidade. Mas Deus - diz-se - somente conhece o resultado de nossas ações depois de ter previsto que abusaríamos de sua misericórdia e que cometeríamos essas mesmas ações. Desse conhecimento, todavia, resulta o fato de que Deus, fazendo-se nascer, já sabia que estaríamos infalivelmente perdidos e eternamente infelizes.
Vemos na Sagrada Escritura que Deus enviou profetas para avisar os homens e exortá-los a mudar de conduta. Ora, Deus, que sabe tudo, não ignorava que os homens não mudariam, absolutamente, de conduta. Portanto a Sagrada Escritura supõe que Deus é um ser enganador. Podem essas ideias estar de acordo com a certeza que temos da bondade infinita de Deus?
Supõe-se que Deus, que é todo-poderoso, tenha um rival perigoso no diabo que, incessantemente, mesmo contra a sua vontade, lhe tira três quartos do pequeno número de homens que ele escolheu, pelos quais seus Filho se sacrificou, sem se preocupar com o resto do gênero humano. Que lastimáveis absurdos!
Segundo a religião cristã, pecamos somente pela tentação. É o diabo - dizem - que nos tenta. Deus tinha somente que aniquilar o diabo, estaríamos todos salvos: há muita injustiça ou impostência de sua parte.
Uma porção bastante grande dos ministros da religião católica pretende que Deus nos dá mandamentos, mas sustenta que não poderíamos cumpri-los sem a graça, que Deus dá a quem lhe agrada e que, contudo, Deus pune aqueles que não o observam! Que contradição! Que impiedade monstruosa!
Existe algo tão miserável quanto dizer que Deus é vingativo, ciumento, irado, quanto ver que os católicos dirigem as suas preces aos santos, como se esses santos estivessem em todo lugar assim como Deus, como se esses santos pudessem ler nos corações dos homens e ouvi-los?
Que ridículo dizer que devemos fazer tudo para a maior glória de Deus. será que a glória de Deus pode ser aumentada pela imaginação, pelas ações dos homens? Podem eles aumentar alguma coisa Nele? Ele não se basta a si mesmo?
Como homens puderam imaginar que a Divindade achava-se mais honrada, mais satisfeita, por vê-los comer um arenque e não uma calhandra, uma sopa de cebola e não uma sopa de toucinho, um linguado e não uma perdiz, e que essa mesma Divindade os condenaria para sempre se em certos dias eles dessem preferência à sopa de toucinho?
Fracos mortais! Acreditais poder ofender a Deus! Acaso poderíeis pelo menos ofender a um rei, um príncipe, que seriam razoáveis? Eles desprezariam vossa fraqueza e vossa impotência. Anunciam-vos um Deus vingador e vos dizem que a vingança é um crime. Que contradição! Asseguram-vos que perdoar uma ofensa é uma virtude e ousam vos dizer que Deus se vinga de uma ofensa involuntária por uma eternidade de suplícios!
Se existe um Deus, há um culto. Contudo, antes da criação do mundo, devemos convir, havia um Deus e nenhum culto. Aliás, desde a criação, existem animais que não prestam nenhum culto a Deus. Se não existisse nenhum homem, sempre haveria um Deus, criaturas e nenhum culto. A mania dos homens é a de julgar ações de Deus por aquelas que lhes são próprias.
A religião cristã dá uma falsa ideia de Deus, pois a justiça humana, segundo ela, é uma emanação divina. Ora, segundo a justiça humana, somente poderíamos censurar as ações de Deus para com seu Filho, para com Adão, para com os povos à quem nunca se fez pregações, para com as crianças que morrem antes do batismo.
Segundo a religião cristã, é preciso tender para a maior perfeição. O estado de virgindade, segundo ela, é mais perfeito do que o do casamento. Ora, é evidente que a perfeição da religião religião cristã tende à destruição do gênero humano. Se os esforços, os discursos dos padres tivessem sucesso, em sessenta ou oitenta anos o gênero humano estaria destruído. Pode essa religião ser de Deus?
Existe algo de mais absurdo do que mandar padres, moonges, outras pessoas orarem por si? Julga-se Deus como se julgam reis.
Que excesso de loucura acreditar que Deus nos fez nascer para somente fazermos o que é contranatural, o que pode nos tornar infelizes nesse mundo, exigindo que recusássemos tudo o que satisfaz os sentidos, os apetites que ele nos deu! O que mais poderia fazer um tirano obstinado em nos perseguir desde o instante do nascimento até o da nossa morte?
Para ser perfeito cristão é preciso ser ignorante, acreditar cegamente, renunciar a todos os prazeres, às honras, às riquezas, abandonar os seus pais, os seus amigos, guardar a sua virgindade, numa palavra, fazer tudo o que é contrário à natureza. Contudo, essa natureza, com certeza, opera somente pela vontade de Deus. Que contradição a religião supõe num ser infinitamente justo e bom!
Uma vez que Deus é o criador e o senhor de todas as coisas, devemos utilizá-las com a finalidade para a qual Ele as criou e nos servirmos delas segundo o fim que Ele se propôs ao criá-las. Tanto que, pela razão, pelos sentimentos interiores que Ele nos deu, podemos conhecer seus desígnios e os seus objetivos e conciliá-los com o interesse da sociedade estabelecida entre os homens no país que habitamos.
O homem não é feito para ser ocioso: é preciso que ele se ocupe com alguma coisa que tenha por fim o seu próprio benefício, conciliado com o bem geral. Deus não quis somente a felicidade de alguns em particular. Ele quer a felicidade de todos. Portanto devemos nos prestar mutuamente todos os serviços possíveis, contanto que esses serviços não destruam algumas ramificações da sociedade estabelecida: é este último ponto que deve dirigir as nossas ações. Conservando-o, no que fazemos, em nosso estado, cumprimos todos os nossos deveres. O resto não passa de quimera, ilusão, preconceitos."

ORIGEM DAS RELIGIÕES

"Todas as religiões, sem nenhuma exceção, são obra dos homens. Não existe uma que não tenha tido os seus mártires, os seus pretensos milagres. O que provam mais os nossos, a mais do que os das outras religiões?
As religiões, inicialmente, foram estabelecidas pelo temor: o trovão, os temporais, os ventos, o granizo, destruíam os frutos, as sementes que alimentavam os primeiros homens espalhados na superfície da terra. A sua impotência em evitar esses acontecimentos obrigou-os a recorrer às preces para o que eles reconheciam ser mais poderoso do que eles e que acreditavam estar disposto a atormentá-los. Como consequência, homens ambiciosos, grandes gênios, políticos importantes, nascidos em séculos diferentes, em diversas regiões, tiraram partido da credulidade dos povos, anunciaram deuses, em geral estranhos, fantasiosos, tiranos, estabeleceram cultos, começaram a formar sociedades das quais pudessem se tornar os chefes, os legisladores. Eles reconheceram que, para manter essas sociedades, era necessário que cada um dos seus membros, em geral, sacrificasse as suas paixões, os seus prazeres particulares para a felicidade dos outros. Daí a necessidade de fazer considerar um equivalente de recompensas a serem esperadas e penas a serem temidas que determinassem a execução desses sacrifícios. Portanto, esses políticos imaginaram as religiões. Todas prometem recompensas e anunciam penas que levam uma grande parte dos homens a resistir à inclinação natural que têm de se apropriarem do bem, da mulher, da filha de outrem, de se vingarem, falarem mal, manchar a reputação do seu próximo a fim de tornar a sua mais proeminente."

ORIGEM DA HONRA

"Por consequência, a honra foi associada à religiões. Esse ser, tão quimérico quanto elas, tão útil à felicidade das sociedades e à de cada um em particular, foi imaginado para conter nos mesmos limites, e pelos mesmos princípios, um certo número de outros homens."

A VIDA DE UM HOMEM É COMPARADA A UM LANCE DE DADOS

"De forma alguma duvidemos disso: existe um Deus, criador e maior de tudo o que existe. Fazemos parte desse todo e somente agimos em consequência dos primeiros princípios do movimento que Deus lhe deu. Tudo é combinado e necessário, nada é produzido pelo acaso. Três dados, lançados por um jogador - levando-se em conta o arranjo de dados no seu copo, a força e o movimento dado - devem infalivelmente fazer este ou aquele ponto. O lance de dados é o quadro de todas as ações da nossa vida. Um dado empurra um outro, ao qual imprime um movimento necessário e, de movimento em movimento, fisicamente resulta um determinado ponto. Da mesma forma o homem, pelo seu primeiro movimento, por sua primeira ação, é determinado de forma invencível para uma segunda, uma terceira, etc. Pois, dizer que um homem quer uma coisa porque a quer é não dizer nada, é supor que o nada produz um efeito. É evidente que é um motivo, uma razão que o determina a querer essa coisa e, de razões em razões, que são determinadas umas pelas outras, a vontade do homem é invencivelmente obrigada a fazer estas ou aquelas ações durante o decorrer de toda a sua vida, cujo fim é o do lance de dados.
Amemos a Deus, não que ele o exija de nós, mas porque ele é soberanamente bom, e temamos somente os homens e as suas leis. Respeitemos essas leis porque elas são necessárias ao bem público, do qual cada um de nós faz parte.
Aí está, madame - acrescentou o Abade - o que minha amizade por vós me arrancou sobre o capítulo das religiões. É o fruto de vinte anos de trabalho, de vigilias e de meditações, durante os quais, de boa-fé, procurei distinguir a verdade da mentira.
Concluamos, portanto, minha cara amiga, que os prazeres que experimentamos, vós e eu, são puros, são inocentes, uma vez que não ferem nem Deus, nem os homens, pelo segredo e pela decência que empregamos em nossa conduta. Sem essas duas condições, concordo que causaríamos escândalo e que seríamos criminosos para com a sociedade: nosso exemplo poderia seduzir jovens corações, destinados por suas famílias, por suas origens, a empregos úteis ao bem público, que talvez eles negligenciassem ocupar para seguir somente a torrente dos prazeres."

A SRA. C... TENTA PERSUADIR O ABADE T... DE QUE, PARA A FELICIDADE DA SOCIEDADE, ELE DEVE COMUNICAR O SEU SABER AO PÚBLICO

- Mas - replicou a Sra. C... -, se os nossos prazeres são inocentes, como agora compreendo, por que, pelo contrário, não instruir todo mundo sobre a maneira de experimentar do mesmo gênero? Por que não comunicar o fruto que tirastes de vossas meditações metafísicas aos nossos amigos, aos nossos concidadãos, já que nada poderia contribuir mais para a sua tranquilidade e para a sua felicidade? Não me dissestes cem vezes que não há maior prazer que o de pessoas felizes?

RAZÃO QUE O ABADE T... APRESENTA PARA NÃO FAZÊ-LO

- Eu vos disse a verdade, madame - retomou o Abade. - Mas tomemos muito cuidado para não revelar aos tolos verdades que eles não sentiriam ou das quais abusariam. Elas devem ser conhecidas somente por pessoas que sabem pensar e cujas paixões estão de tal forma equilibradas entre si que eles não são subjugados por nenhuma. Essa espécie de homem e de mulheres é muito rara: de cem mil pessoas, não existem vinte que se acostumam a pensar, e dessas vinte, mal encontrareis quatro que, de fato, pensam por si mesmas ou que não sejam levadas por alguma paixão dominante. Por isso é preciso ser extremamente circunspecto sobre o gênero de verdades que hoje examinamos. Como poucas pessoas percebem a necessidade que existe de nos ocuparmos da felicidade dos nossos vizinhos para assegurar aquela que nós mesmos buscamos, devemos dar a poucas pessoas provas claras da insuficiência das religiões, que não impedem de fazer agir e de conter um grande número de homens em seus deveres e na observação das regras que, no fundo, somente são úteis ao bem da sociedade sob o véu da religião, pelo temor das penas e pela esperança das recompensas eternas que ela lhes anuncia. são esse temor e essa esperança que guiam os fracos: o número deles é grande. São a honra, o interesse público, as leis humanas que guiam as pessoas que pensam: na verdade, o seu número é bem pequeno.
Logo que o Sr. Abade T... acabou de falar, à Sra. C... agradeceu com termos que demonstravam toda a sua satisfação:
- És adorável, meu caro amigo - disse-lhe, saltando em seu pescoço. - Como estou feliz em conhecer, amar um homem que pensa de maneira tão sadia quanto tu! Esteja certo de que jamais abusarei da tua confiança e de que seguirei exatamente a solidez dos teus princípios.
...

Este texto não é um texto sobre anarquismo. Não? Não. O anarquismo vai apenas se definir no século XIX. Mas sem dúvida, aqui já se começa a enfraquecer os guilhões das tradições e, principalmente, da religião.
Apesar de seu caráter subversivo, Teresa é quase uma santa, pois só vai entregar sua virgindade ao Conde após o casamento... Bem, não há um casamento, teoricamente, mas Teresa e o Conde se isolam do mundo em um castelo; faltou apenas a frase: "E viveram felizes para sempre!". Mas foi quase isto (p 162, 163):

ELA FAZ UM RESUMO DE TUDO O QUE ELE ENCERRA

Eu vos repito, portanto, censores atrabiliários, não pensamos como queremos. A alma somente tem vontade e é determinada pelas sensações, pela matéria. ... Enfim, os reis, os príncipes, os magistrados, todos os diversos superiores, por gradações, que cumprem os deveres do seu estado, devem ser amados e respeitados porque cada um deles age para contribuir para o bem de todos.

Ou seja, um final feliz, conservador. É um texto tão conservador que todas as cenas de sexo são protagonizadas por outras personagens. Teresa apenas pratica o onanismo (maturbação, siririca, e tantos outros termos; para não ficarmos no palavriado erudito). Existem até trechos que beiram a homofobia (p 141, 142):

DISSERTAÇÃO SOBRE O GOSTO DOS AMADORES DO PECADO ANTIFÍSICO, ONDE SE PROVA QUE ELES NÃO DEVEM SER NEM LASTIMADOS, NEM CENSURADOS

Após esse belo relado, que nos provocou uma grande risada, a Bois-Laurier continuou mais ou menos nestes termos:
"Nem te falo do gosto desses monstros que o têm somente para o prazer antifísico, seja como agentes, seja como pacientes. Destes, a Itália hoje produz menos do que a França. Não sabemos que um senhor amável, rico, obstinado por esse frenesi, não pôde chegar a consumar o seu casamento com uma esposa encantadora, na primeira noite, a não ser por meio de seu criado a quem ordenou mesmo, no auge do ato, que lhe enfiasse por trás, da mesma forma que o fazia em sua mulher pela frente?
Observo, contudo, que os Senhores Antifísicos zombam de nossos insultos e defendem arduamente o seu gosto, sustentando que os seus antagonistas se conduzem somente pelos mesmos princípios que eles. 'Todos buscamos o prazer - dizem esses heréticos - pela via em que acreditamos encontrá-lo.' É o gosto que guia os nossos adversários, assim como nós. Ora, estareis de acordo que não somos senhores de ter este ou aquele gosto. Mas - dizem - quando os gostos são criminosos, quando ultrajam a natureza, é preciso rejeitá-los. Nada disso: Não existe nenhum culpado. Aliás, é falso que o antifísico seja contranatura, pois é essa mesma natureza que nos dá a inclinação para esse prazer. Mas - dizem ainda - não se pode procriar no seu semelhante. Que raciocínio lastimável! Onde estão os homens, de um gosto e do outro, que usufruem do prazer da carne visando fazer filhos?"
Enfim, continuou a Bois-Laurier, os Senhores Antifísicos alegam mil boas razões para fazerem acreditar que não deve ser censurados. De qualquer forma, eu os detesto e preciso te contar uma brincadeira bastante engraçada que fiz uma vez na minha vida com um desses execráveis inimigos de nosso sexo.

Bem; "eu os detesto", "execráveis inimigos" e a "brincadeira bastante engraçada" - que eu não achei graça alguma... - se não for o primeiro texto homofóbico na literatura, deve ser um exemplo de seus primórdios.
Mas, como o próprio livro apresenta na página 159: "Estes são os efeitos do preconceito: eles são os nossos tiranos."
São ideias, no geral, deístas (garantem a existência de Deus) e deterministas, como aparenta o trecho que escolhi para encerrar este tópico. Mas, repito, vejo nele um bom início para as ideias libertárias que se definirão no século seguinte (p 155, 156).

DEMONSTRAÇÃO SOBRE A IMPOTÊNCIA EM QUE SE ENCONTRA A ALMA PARA AGIR OU PENSAR DESTA OU DAQUELA MANEIRA

Outras vezes me explicáveis, desenvolvíeis as curtas lições que eu recebera do Sr. Abade T...:
- Ele vos ensinou - vós me dizíeis - que não somos mais senhores de pensar desta ou daquela maneira, de ter esta ou aquela vontade, do que somos senhores de ter ou não febre. De fato - acrescentáveis -, por observações claras e simples, vemos que a alma não é senhora de nada, que ela age somente em consequência das sensações e das faculdades do corpo, que as causas que podem produzir desordens nos órgãos perturbam a alma, alteram a mente; que um vaso, uma fibra, afetados no cérebro podem tornar imbecil o homem mais inteligente do mundo. Sabemos que a natureza age somente pelos caminhos mais simples, por um princípio uniforme. Ora, já que é evidente que não somos livres em certas ações, não o somos em nenhuma.
"Acrescentemos a isso que, se as almas fossem puramente espirituais, seriam todas as mesmas. Sendo todas as mesmas, se tivessem a faculdade de pensar e de querer por si mesmas, pensariam e decidiriam todas da mesma maneira em casos iguais. Ora, é exatamente o que não acontece. Portanto, elas são determinadas por alguma outra coisa, e essa alguma outra coisa somente pode ser a matéria, pois os mais crédulos conhecem somente o espírito e a matéria."

Teresa Filósofa.

- Porto Alegre: L&PM Pocket, 2010.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

ACRACIA


Acracia significa, em grego, sem governo; é sinônimo de anarquia.

Começo aqui uma série de postagens de minha pesquisa bibliográfica sobre Anarquismo, a história do Anarquismo, Anarquistas que me interessam, onde destacarei alguns textos.

Será um recorte bastante subjetivo, portanto, não me venham com críticas acadêmicas, afinal, pretendo simplesmente exercitar minha liberdade. Mas colaborações, observações e esclarecimentos serão muito bem aceitos.

Para início de conversa, começarei com alguém mais contemporâneo, cujo texto me inspira: HAKIM BEY.

Hakim Bey, o misterioso "Profeta do Caos", é citado por músicos, hackers, poetas, organizadores de raves e os chamados guerrilheiros da comunicação. E recebeu elogios entusiasmados de escritores e poetas como Allen Ginsberg e William Borroughs.

Não há fotos de Hakim Bey. Milhares de histórias a respeito de quem seria ele correm soltas pela internet. A mais frequente diz que Hakim Bey teria sido um poeta em algum lugar no norte da Índia, que por questões políticas teria sido obrigado a fugir para a Inglaterra e depois, por causa do envolvimento em uma ação terrorista, teria fugido para Nova York.

A informação mais segura diz que ele viveu muito tempo no Irã, mas fazendo o quê é um mistério. Quando a Time tentou entrevistá-lo, ele se recusou e passou um tempo desaparecido.

Cogita-se até que Hakim Bey seja Peter Lamborn Wilson (ou vice-versa).

Os conceitos lançados por Bey tornam-se cada vez mais difundidos no universo do ativismo radical de esquerda. Principalmente o conceito de 'Zona Autônoma Temporária - TAZ' (de Temporary Autonomous Zone) que é a ideia de combater o Poder criando espaços (virtuais ou não) de liberdade que surjam e desapareçam o tempo todo. Hakim Bey cruza as referências mais inesperadas; da filosofia sufi aos situacionistas franceses, de Nietzsche aos dadaístas. E vai buscar precedentes para a 'TAZ' entre os piratas dos séculos XVI e XVII, nos quilombos negros da América e nas efêmeras repúblicas libertárias do início do século XX.

Terrorismo Poético, Paganismo, Arte-Sabotagem, Misticismo, Pornografia, Crime. Estes são apenas alguns dos "pretextos" dos quais Bey parte para nos desafiar com sua linguagem delirante, brutal, absurda por vezes. "Dadaismo/Surrealismo linha-dura", como bem observou um crítico. A linguagem do desejo.

Segue abaixo os livros de Hakim Bey (e Peter Lamborn Wilson), publicados no Brasil, aos quais tive acesso.

TAZ - Zona Autônoma Temporária. É um clássico de nosso tempo e para muitos é o texto mais subversivo surgido no final do século XX.

- São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2001. Coleção Baderna.

CAOS - Terrorismo poético e outrao crimes. Não há como passar imune pela prosa/poesia deste livro. E não espere ideias prontas, lugares-comuns e ortodoxia de qualquer espécie. Não se pode pretender um manual de alívio de consciência de alguém que une coisas tão distintas como Artaud, Bakunin, Nietzsche, Situacionismo, Filosofia Sufi e heresias de todas as ordens. E aqueles que consideram Hakim Bey um filósofo político, um mero artífice de cartilhas doutrinárias, fujam deste livro: o autor se levanta contra aquilo que chama de masoquismo revolucionário e de auto-sacrifício idealista, além de atacar/perverter toda tradição da esquerda ocidental. Do Caos e para o Caos, ergue o que ele chama de Associação para a Anarquia Ontológica.

Definitivamente, este não é um livro para espíritos conservadores.

- São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2003. Coleção Baderna.

Utopias Piratas - mouros, hereges e renegados. Na primeira metade o século XVII, em prela costa da Barbária, no Marrocos, norte da África, a república pirata de Rabat-Salé forjou um sistema político e social estranho ao seu tempo. Próxima de portos corsários mais conhecidos, como Túnis, Trípoli e Argel, essa comunidade ensaiou, por cerca de cinquenta anos, uma forma de convivência oportunista, sensual, e bastante funcional.

Uma comunidade que seria descrita em relatos europeus como "domicílio de vilões, antro de ladrões, lar de piratas, ponto de encontro de renegados, matadouro de crueldade bárbara e barbárie selvagem, perdição e vergonha para frotas mercantes e mercadorias, e uma miserável masmorra sombria para cativos cristãos" - ou "democracia por assassinato".

A isso tudo, os estudos de Peter Lamborn Wilson (ou Hakim Bey?) indicam que talvez poderia ser acrescentado, em termos mais atuais, point gay e de maconheiros, além de refúgio para misticos sufis, "irresistíveis" mouras, rebeldes irlandeses, judeus hereges, náufragos, escravos fugitivos e espiões britânicos.

Enquanto os corsários muçulmanos devastavam as frotas européias e faziam milhares de escravos, do século XVI ao XIX, outros milhares de europeus também se convertiam voluntariamente ao Islã, e se juntavam ao surpreendente modo de vida pirata.

Teria sido essa utopia um acidente histórico, ou a própria semente da democracia, precursora do ímpeto insurrecional que, a partir de 1640, emergiu na Inglaterra, e depois na América e na França? Ou o elo perdido entre a república, tal como foi vislumbrada pelos gregos, e a moderna democracia? O que os marinheiros, o proletariado do século XVII, teriam invejado e aprendido com a liberdade dos corsários e renegados?

- São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2001.

Para livros usados, esgotados ou fora de catálogo, acesse:
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A cultura tiririca.

"A democracia tem que ser pluralista, sob pena de renegar-se a si própria. No entanto, a palavra "liberdade" não poderá ser usada onde só existe incoerência e impotência. Essa situação, na maioria dos casos, termina na mais humilhante das ditaduras, isto é, daquela que resulta do conformismo, da mediocridade dos produtos culturais, facilmente vendidos às massas, bastante instruídas para se interessarem por eles, mas insuficientemente educadas para poderem exigir uma melhor situação cultural no campo do divertimento e da informação."
in LAZER E CULTURA POPULAR, de Joffre Dumazedier. São Paulo: Editora Perspectiva, 2004. Debates, 82. p 283, 284.
Esta é também uma área de risco, onde os alicerces de nosso futuro podem nos levar a mais uma catástrofe.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Papai Noel não existe e não haverá nada de novo em 2011.

Mais uma vez nossa curtura tende a homogeneizar todos os seres humanos.
Não haverá nada de novo em 2011, nem mesmo o ano. Toda a rotina produtiva e escravagista continuará. Você vai acordar com ressaca no dia primeiro de janeiro extremamente frustrado, pois, se não for ignorante, vai perceber que as horas continuarão passando no mesmo ritmo.
A única coisa que muda são alguns números... e mesmo assim, para uma parcela do mundo:
Para os judeus, o ano novo começou no dia 9 de setembro, no Rosh Hashaná, e o ano continuará sendo 5771 por mais alguns meses. Para os chineses, o ano do Coelho só vai começar em 3 de fevereiro, e será o ano 4709 e para os incompreendidos muçulmanos, no dia 7 de dezembro já teve início o ano de 1432, no primerio dia do Muharram.
Tudo bem, é difícil encarar a realidade, amadurecer, e tomar consciência de que Papai Noel só dá brinquedos e eletrônicos para quem tem cartão de crédito. Os pobres apenas ganham brinquedos por causa da caridade, já que não possuem recursos para conquistar dignidade.
Então, aqui estamos nós, comemorando nossa sociedade cristã ocidental extremamente consumista, acreditando que algo se renova neste dia. Pura balela.
Se você acha que algo em sua vida tem que mudar, é você quem tem realizar a mudança, não o ano.
Se você quer algo novo na sua vida, é você quem tem que renovar, não adianta dizer que o ano é novo e seus dias continuarem os mesmos.
O que eu adoro nesta festa são os fogos de artifício. Adoro vê-los. Considero-os uma linda metáfora para o momento. Então, veja os fogos, mas não faça da sua vida um deles, que dá brilho por apenas alguns segundos e se extingue logo em seguida. Não espere por anos novos para ser feliz e fazer de sua Vida algo melhor para você, para nós, para todos, para este Mundo.
Seja Novo, todos os dias!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Com lágrimas e risos...

Depois de um longo tempo sem postar nada, mas com mil novidades permeando minha vida; hoje eu tenho que parar para escrever mais um pouco sobre este ser que vive em mim.
Comprei e li, entre lágrimas e risos, "Em alguma parte alguma", de Ferreira Gullar.
No metrô devem ter me achado um louco (sem equívoco). Em algumas páginas lágrimas, na seguinte risos.
Há muito tempo que eu não lia poesias... minto, nem tanto tempo assim: "Dias de Colecionar Borboletas", de José Carlos Honório... outro momento de deliciosa fuga.
Enquanto "Dias de Colecionar Borboletas" ecoou neste coração vazio, "Em alguma parte alguma" tocou meu corpo todo; desde a rigidez de meus ossos até a mais tênue sinapse em meu cérebro.
Dois livros para se ter na cabeceira da cama, para se carregar na mochila. Livros necessários quando precisamos gritar para nós mesmos que sim, há vida!
Segue uma migalha para provocar desejos:

OFF PRICE (p 35)

Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado

e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado

domingo, 28 de março de 2010

Idade da Vergonha

Se a humanidade sobreviver a este período, é bem provável que ele fique conhecido como a Idade da Vergonha. Tomemos como ilustração o filme ganhador do Oscar neste ano de 2010, Guerra ao Terror... será que reconhecer que a guerra existe porque nos a desejamos pode sinalizar alguma possibilidade de mudança futura? Assim como Kant projetou alguma melhora ao ver as convulsões humanas durante a Revolução Francesa? Leso engano, creio eu. Ao vermos a miséria e ignorância impregnadas neste mundo, ao vermos toda a degeneração humana, toda a violência, todo o planeta convulsionando, tudo em nome de um pseudo progresso, de um processo econômico peçonhento... Repito, se a humanidade sobreviver a tudo isto e conseguir olhar este momento com o distanciamento necessário, sentirá a vergonha pela história que aqui se estabelece.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Apresentação do curso de Filosofia na USJT

Eu tentei ignorar, mas agora, como Filósofo, meu ser interior não me deixou em paz. Então, aqui vai a descrição e crítica de uma palestra de apresentação do curso de Filosofia da Universidade São Judas Tadeu.
Era a segunda semana de aula, ainda estávamos todos um pouco perdidos com tantas informações, disciplinas, textos, pessoas e professores. Ao chegar à sala de aula, o aviso: Palestra sobre o curso no Auditório da Reitoria. Depois de uma longa caminhada e entrar em alguns auditórios que não eram o da reitoria, encontrei o lugar. Como estava atrasado fui entrando mas ao ver quem estava no palco parei na porta e voltei. Perguntei ao garoto que estava em um balcão próximo: - É o Kid Vinil que está nesta sala?
Ele riu e disse que não, aquele era o reitor e estava falando sobre o curso de Filosofia para os alunos novos. - Você é aluno de Filosofia?
Depois de um aceno afirmativo voltei a entrar no auditório e demorei um pouco a atender o que estava acontecendo. O reitor falava sobre pensamento positivo, ser feliz apesar das dificuldades pois existem pessoas que são cegas e são felizes, e lorota afora.
Um colega de classe chegou a anotar oito razões pelas quais ele poderia sair da sala, mas manteve-se até o final pois determinou a si mesmo o limite de dez razões. O ápice do meu espanto foi quando ele citou o fundador do McDonald's como modelo para nós, contou toda a história de vitória e sucesso daquele vendedor de máquinas de sorvete. A partir deste momento passei a ver os estudantes da São Judas passeando pelo pátio de alimentação como vários BigMac's, Quarteirões com Queijo, Crispy Chicken's, tortas de maça, sundaes de chocolate etc.
Mas o pior ainda estava por vir.
Para ilustrar sua "mensagem" ele passou uma apresentação em powerpoint, daquelas que nós recebemos milhares todos os dias, de amigos e inimigos, de variações sobre o mesmo tema, com cachorrinhos, paisagens bucólicas, musiquinha zen no fundo e nos dizendo que o mundo é lindo se conseguirmos ignorar a realidade.
Putz. Eu apago este tipo de merda do meu e-mail todos os dias e o reitor me obriga a engolir uma.
E a apoteose final: mais uma animação em powerpoint com a propaganda daquele livro conhecido por todos: "O Segredo". Definitivamente, não era o Kid Vinil. O Kid Vinil não falaria tanta inutilidade. Suspiro.
Ao invés de nos falar sobre a importância da Filosofia para o mundo contemporâneo. A necessidade de crítica, de não sucumbirmos ao consumismo desenfreado, de refletirmos e provocarmos reflexão em todos os meios possíveis, de nos propor a lutar pelo fim da miséria e mediocridade humana...
Já tivemos a geração Coca-cola (eu me considero parte dela). Pelo menos havia alguma ideologia e protesto envolvido com esta marca. A União Soviética não permitia a entrada da Coca-cola, só podia ser Pepsi. Eu só tomava guaraná. rsrs.
Hoje nós temos a geração BigMac. O mesmo sabor em qualquer lugar do mundo. E todas as populações almejam ter em seu território pelo menos um McDonald's, ou estou enganado? E não foi o local com maior movimento no último Forum Social?
Na realidade o reitor esta certo. Trabalhe, produza, compre, jogue fora, compre novamente, produza mais, compre mais, recicle, compre novamente reciclado; siga o ritmo da vida, acorde cedo, vá trabalhar, sacrifique sua família para ser pró-ativo e ter sucesso, deixe a vida te levar! Afinal, este é o sentido da vida em um mundo McDonald's.
Estava esquecendo: tome sua dose diária de felicidade mágica! Mas saiba que a felicidade mágica é tão útil para a solução dos problemas da humanidade quanto a morfina é útil para a cura do câncer.

PS: Se queremos falar sobre felicidade, recomendo a leitura de Ética a Nicômaco de Aristóteles. Indico a tradução do grego pelo Professor Antonio de Castro Caeiro, publicada recentemente pela Editora Atlas. Aqui sim pode-se encontrar uma Felicidade que seja necessária a nosso mundo e a nós mesmos.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Iorgute ou iogurte? Eis uma questão...

Ufa! Após meses de vácuo eis que ressurjo entre cinzas como Angelus Novus do Paul Klle, a mesma imagem que Walter Benjamin usa em seu texto "Sobre o Conceito de História":

"Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso."

Tenho frequentado o curso de Filosofia na Universidade São Judas Tadeu e me sinto embriagado em idéias e palavras e luto para não perder completamente a lucidez.

Mas o mundo grita!

Em frente à minha casa vi um quadro anunciando os comes e bebes de um destes novos barzinhos da baixa Augusta. Me intrigou a grafia: "Yorgute batido".

Estranhamento. Riso.

Com a memória não plenamente esvanecida, eis que, na lanchonete da Universidade São Judas Tadeu ouço uma estudante (colega?) pedindo no balcão: - Iorgute com morango.

Pausa. Silêncio. Pensamento.

As pessoas são profundamente influenciadas e perdem a noção das coisas: o novo ioRgute é uma contaminação da palavra Orkut?

Até entendo as transformações da linguagem, mas, de iogurte para iorgute ou yorgute?

SOCORRO!!!

Vejo neste pequeno detalhe o sintoma da doença de nossa época... absorvemos, engolimos e defecamos. Processo contínuo e voraz.

O momento é agora! Temos que parar! Temos que nos opor a esta temporalidade da produção e do consumo capitalistas! Não somos marcas ou grifes, não somos mercadorias ou mercado!

O momento é agora, de buscarmos alguma identidade, antes que nada reste do que somos ou fomos um dia. Não quero 15 minutos de fama, mas preciso imensamente de 15 minutos de Vida!

Se alguém realmente quer salvar o mundo ou a humanidade, por favor, grite comigo: ABAIXO A ALIENAÇÃO!! E não me desculpem, mas dentre os alienados, os jovens fazem coro.