
Eu era assim...
Meto-me dentro de mim mesmo e acho aí um mundo! (Goethe in Os sofrimentos do jovem Werther)

Quando falamos de “O Agente Secreto” não estamos falando do cinema nacional. Estamos falando de um filme, mas será que um filme representa o cinema nacional?
Ontem eu tive a oportunidade de assistir “Labirinto dos Garotos Perdidos”, direção de Matheus Marchetti, um filme que participou da 49º Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
É um filme lindo, cenas muito bem filmadas e elaboradas. O roteiro nos traz uma Alice no país dos aplicativos. Miguel faz uma jornada noite adentro passando por uma São Paulo fora das ruas, luzes e tráfego. É um filme muito bom, divertido e questionador. E um grande detalhe: qual foi o orçamento do filme?
Zero.
Exatamente. Matheus Marchetti realizou este filme com exatamente zero reais. Matheus, formado em Cinema pela FAAP, é diretor, roteirista e produtor de seu filme. Já realizou diversos curtas e médias, “O Beijo do Príncipe” (2015), “O Bosque dos Sonâmbulos” (2017), “O Solar dos Prazeres Noturnos” (2024), “As Núpcias de Drácula” (2018), e o longa “Verão Fantasma” (2022). “Labirinto dos Garotos Perdidos” é o seu segundo longa-metragem.
“O Bosque dos Sonâmbulos” também foi montado no teatro, e foi com o elenco do espetáculo que Matheus trouxe os atores que realizaram “Labirinto dos Garotos Perdidos”. É deste cinema nacional que eu quero falar. Um cinema que está além dos grandes financiamentos e patrocinadores.
Para a realização deste filme foram necessárias diversas concessões gratuitas, como a permissão para filmagem no Aquário de São Paulo. Os equipamentos pertencem ao próprio Matheus. Os atores cederam seus finais de semana para as gravações.
Será que este Cinema Nacional é lembrado nas mídias corporativas? Não. Nunca. Mesmo nas mídias chamadas progressistas, não os vejo falar deste cinema nacional, nunca vi.
E apesar da invisibilidade, este Cinema existe e resiste. “Labirinto dos Garotos Perdidos” entrará em cartaz em junho e está na plataforma Filmicca.
No próximo ano Matheus Marchetti vai lançar “O Retrato de Dorian Gray”, já gravado, passando pelas etapas de finalização de sua produção.
E Viva o Cinema Nacional, não apenas as grandes produções, mas o cinema que se faz apesar da falta de financiamento e apoio. Que tal batalharmos para mudar essa realidade?
Ao chegar no Vale da Lua, Jaceguai, encontramos o espetáculo também chegando pelas ruas do Bixiga. Ouvimos o som da bateria, distante, se aproximando, trazendo as memórias do antigo Bexigão, com seus atores mirins que fazem história no Teatro e no Cinema.
A Bateria Mirim da Vai-Vai, dirigida por Danilo Alves, chega e sincroniza o compasso de nossos corações, nos preparando para a visita à casa do seu Noronha. A bateria aguarda conosco, na porta do Teatro, abre as portas e perpassa todo o Teatro para energizar o ambiente com seu ritmo e vitalidade e, com seu último toque, estamos preparados. O espetáculo pode continuar.
Joana Medeiros traz aquilo que o Zé Celso nos dava de mais gostoso, no Teatro; a surpresa, o inusitado, o inesperado. O palco deixa de ser um lugar, o palco é o próprio Teatro, inteiro, e além. A platéia não assiste. A platéia está presente, na sala da casa do seu Noronha.
As atrizes: Ana Clara Cantanhede, Bianca Terraza, Gii Lisboa, Henrique Maria, Larissa Silva, Marina Wisnik, Raphael Calheiros, Sellma Paiva, Victor Rosa, Zizi Yndio do Brasil; todes, sem exceção, chegam com sua potência vital, além de seus personagens, trazem a profundidade espiritual, algo que está além dos gestos e atos, trajando figurinos incorporados em carne e sangue e secreções, suor, saliva, lágrimas.
Silene, em muitos momentos, talvez todos, é São Sebastião, é a Virgem Imaculada, é um anjo barroco. Saul é o velho safado mais puro entre nós. Bibelô sobe aos céus, mais um anjo morto, como tantas crianças inocentes assassinadas neste planeta. Eu gostaria de falar de cada uma, mas o texto ficaria imenso. Cada atriz, todas, merecem um parágrafo neste texto vagabundo.
O trabalho da Viradas da Encruza, junto à Joana Medeiros, Gil Lisboa e Larissa SIlva é surpreendente. Não existe variação de intensidade entre as atrizes, todas são, sem adjetivos, estão, potencialmente, não existem cenas fracas, atrizes em formação. Todas as atrizes, todas as cenas, estão plenas. Algumas cenas literalmente explodem, num big bang cênico que nos deixa atônitas.
Até mesmo as cenas fora de cena. Outra característica que o Zé sempre nos oferecia. Em algum canto, iluminado discretamente, o espetáculo acontece. Muitas vezes ninguém está olhando. Mas ele existe, ele está, lá. Invisível?
Joana Medeiros é um monstro. Assim como seu mestre, Zé Celso, dirige e atua, atua dirigindo o espetáculo, é a força motriz da vida além do que a vida é. Joana traz todo o legado de Zé Celso em seu corpo, em seu ato. Evoé. Zé Celso Vive!
A banda! Ah, eu amo as trilhas sonoras do Teatro Oficina. Quem não ama que se afaste de mim. E com Sete Gatinhos existe uma mudança estratégica que funcionou maravilhosamente. A banda se esconde e o som domina. A trilha sonora, as músicas, os sons, estão tão incorporados nas cenas que a banda não precisa aparecer, ela está. Novamente, a presença cênica em potência plena. Adriano Salhab, André Santana, Fefê Camilo, Lufe Bollini, Victor Rosa, Jup do Bairro.
E o ponto, Artur Medeiros, que detalhe lindo, necessário, que chega sem ser notado, anotado, participa sem se intrometer. Uma solução genial.
A cinegrafia sempre foi um aspecto importante, sempre ajudou a compor as cenas, a expor aquilo que não se vê em um espaço multidimensional como o Teatro Oficina. Em Sete Gatinhos eu, pela primeira vez - talvez isso já tenha ocorrido em outros espetáculos, mas eu não observei - percebi a cinegrafia como uma composição cênica do espetáculo. As cenas gravadas estão meticulosamente coreografadas. O foco móvel não está vagando, ele está marcado. Felipe Soares, Victória Pedrosa, Afonso Costa, Diego Arvate, Lufe Bollini, Aleph Antialeph, Luz Barbosa.
O Teatro Oficina exige muito de quem escreve sobre ele. São tantos aspectos que demandam atenção. É possível escrever sobre cada item da ficha técnica. Por exemplo, como não escrever sobre a contrarregragem. João Estevão, Rafael Castilho, Sellma Paiva. Como não, ao menos, citar figurinos, objetos de cena, maquiagem. Arianne Vitale, Mandy Justo, Arianne Vitale, Erica Gabriela. E se eu esquecer de agradecer a Amanda Aguiar, a bombeira, eu posso ser proibido de entrar no Teatro Oficina novamente.
A vida é como ela é. O texto fica limitado para expressar tanto espetáculo.
Joana Medeiros, gratidão. Vivenciar um espetáculo como Os Sete Gatinhos nos humaniza, me humaniza. Me faz respirar profundamente. Me faz olhar para o sol quando ele desponta no horizonte. Me faz caminhar, a cada passo, com medo, com coragem.
Evoé!