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sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Os Sete Gatinhos de Joana Medeiros

Ao chegar no Vale da Lua, Jaceguai, encontramos o espetáculo também chegando pelas ruas do Bixiga. Ouvimos o som da bateria, distante, se aproximando, trazendo as memórias do antigo Bexigão, com seus atores mirins que fazem história no Teatro e no Cinema.

A Bateria Mirim da Vai-Vai, dirigida por Danilo Alves, chega e sincroniza o compasso de nossos corações, nos preparando para a visita à casa do seu Noronha. A bateria aguarda conosco, na porta do Teatro, abre as portas e perpassa todo o Teatro para energizar o ambiente com seu ritmo e vitalidade e, com seu último toque, estamos preparados. O espetáculo pode continuar.

Joana Medeiros traz aquilo que o Zé Celso nos dava de mais gostoso, no Teatro; a surpresa, o inusitado, o inesperado. O palco deixa de ser um lugar, o palco é o próprio Teatro, inteiro, e além. A platéia não assiste. A platéia está presente, na sala da casa do seu Noronha.

As atrizes: Ana Clara Cantanhede, Bianca Terraza, Gii Lisboa, Henrique Maria, Larissa Silva, Marina Wisnik, Raphael Calheiros, Sellma Paiva, Victor Rosa, Zizi Yndio do Brasil; todes, sem exceção, chegam com sua potência vital, além de seus personagens, trazem a profundidade espiritual, algo que está além dos gestos e atos, trajando figurinos incorporados em carne e sangue e secreções, suor, saliva, lágrimas.

Silene, em muitos momentos, talvez todos, é São Sebastião, é a Virgem Imaculada, é um anjo barroco. Saul é o velho safado mais puro entre nós. Bibelô sobe aos céus, mais um anjo morto, como tantas crianças inocentes assassinadas neste planeta.  Eu gostaria de falar de cada uma, mas o texto ficaria imenso. Cada atriz, todas, merecem um parágrafo neste texto vagabundo.

O trabalho da Viradas da Encruza, junto à Joana Medeiros, Gil Lisboa e Larissa SIlva é surpreendente. Não existe variação de intensidade entre as atrizes, todas são, sem adjetivos, estão, potencialmente, não existem cenas fracas, atrizes em formação. Todas as atrizes, todas as cenas, estão plenas. Algumas cenas literalmente explodem, num big bang cênico que nos deixa atônitas.

Até mesmo as cenas fora de cena. Outra característica que o Zé sempre nos oferecia. Em algum canto, iluminado discretamente, o espetáculo acontece. Muitas vezes ninguém está olhando. Mas ele existe, ele está, lá. Invisível?

Joana Medeiros é um monstro. Assim como seu mestre, Zé Celso, dirige e atua, atua dirigindo o espetáculo, é a força motriz da vida além do que a vida é. Joana traz todo o legado de Zé Celso em seu corpo, em seu ato. Evoé. Zé Celso Vive!

  A banda! Ah, eu amo as trilhas sonoras do Teatro Oficina. Quem não ama que se afaste de mim. E com Sete Gatinhos existe uma mudança estratégica que funcionou maravilhosamente. A banda se esconde e o som domina. A trilha sonora, as músicas, os sons, estão tão incorporados nas cenas que a banda não precisa aparecer, ela está. Novamente, a presença cênica em potência plena. Adriano Salhab, André Santana, Fefê Camilo, Lufe Bollini, Victor Rosa, Jup do Bairro.

E o ponto, Artur Medeiros, que detalhe lindo, necessário, que chega sem ser notado, anotado, participa sem se intrometer. Uma solução genial.

A cinegrafia sempre foi um aspecto importante, sempre ajudou a compor as cenas, a expor aquilo que não se vê em um espaço multidimensional como o Teatro Oficina. Em Sete Gatinhos eu, pela primeira vez - talvez isso já tenha ocorrido em outros espetáculos, mas eu não observei - percebi a cinegrafia como uma composição cênica do espetáculo. As cenas gravadas estão meticulosamente coreografadas. O foco móvel não está vagando, ele está marcado. Felipe Soares, Victória Pedrosa, Afonso Costa, Diego Arvate, Lufe Bollini, Aleph Antialeph, Luz Barbosa.

O Teatro Oficina exige muito de quem escreve sobre ele. São tantos aspectos que demandam atenção. É possível escrever sobre cada item da ficha técnica. Por exemplo, como não escrever sobre a contrarregragem. João Estevão, Rafael Castilho, Sellma Paiva. Como não, ao menos, citar figurinos, objetos de cena, maquiagem. Arianne Vitale, Mandy Justo, Arianne Vitale, Erica Gabriela. E se eu esquecer de agradecer a Amanda Aguiar, a bombeira, eu posso ser proibido de entrar no Teatro Oficina novamente.

A vida é como ela é. O texto fica limitado para expressar tanto espetáculo.

Joana Medeiros, gratidão. Vivenciar um espetáculo como Os Sete Gatinhos nos humaniza, me humaniza. Me faz respirar profundamente. Me faz olhar para o sol quando ele desponta no horizonte. Me faz caminhar, a cada passo, com medo, com coragem.

Evoé!

sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Um grito fraco para uma samambaia surda


    Assistir ao espetáculo Filoctetes em Lemnos com Vinícius Torres Machado nos impõe um ato de persistência. A cena descrita no título é um bom momento para definir a peça e é também um bom momento para se levantar e sair da sala de espetáculo.

    Eu consegui, por teimosia, continuar sentado assistindo o transcorrer das cenas até o show bizarro e os agradecimentos, talvez um momento final do espetáculo, a partir do qual os guerreiros podem continuar sua odisseia. Mas não. Vinícius volta à cena, se senta, e espera, ele ainda espera seu resgate. A partir deste momento muitas pessoas fazem a leitura de fim, se levantam, saem da sala, sem aplausos, o ator continua em cena, continua sem dizer.

    Imagino o Vinícius ainda lá, sentado, esperando, as portas do teatro se fecharam, a equipe de manutenção organizou o espaço, os técnicos fizeram suas revisões, e ele permaneceu lá, sentado, esperando. Deve estar lá, agora. Nós sabemos que não.

    Filoctetes em Lemnos com Vinicius Torres Machado é um espetáculo que, quanto menos eu gosto, mais eu admiro.

    Como espectador, na escuta flutuante adequada a um espectador, eu saí da sala, na realidade, um galpão, incomodado, com vontade de preencher aquele vazio de palavras encobertas por camadas de signos elaborados por uma masturbação intelectual típica dos acadêmicos do Teatro.

    E, no meu direito a elaborar as minhas próprias masturbações intelectuais, atingi meu orgasmo.

    A frase que recebemos ao entrar no espaço nos informa sobre a espera de 10 anos, o período que durou a Guerra de Tróia, até que os gregos, através do oráculo Heleno; um oráculo de Tróia, capturado pelos gregos; recebem a informação de que, para vencer a guerra, eles precisam do arco de Héracles.

    Mas o arco de Héracles está com o Filoctetes, que os gregos abandonaram em uma ilha deserta na viagem até Tróia, pois ele havia sido picado por uma cobra e gritava muito com as dores causadas por esse acontecimento.

    E o cavalo? Para que serviria o cavalo se os gregos não tivessem resgatado o FIloctetes com seu arco?

    Vejam que a narrativa é complexa. Alcançar essa narrativa de forma cênica, sem palavras, não é uma tarefa simples para um relês expectador. E pior. Para que me serve essa narrativa no ano 2025 de nosso senhor Jesus Cristo?

    Aí me vem à mente outra guerra em curso, não uma guerra, um genocídio, o Estado de Israel matando o povo na Faixa de Gaza. Esse genocídio vai completar dois anos em 7 de outubro. Será que teremos que esperar 10 anos, até que algum Heleno nos diga para resgatar FIloctetes da ilha e acabar com esse massacre?

    Talvez. Enquanto isso nós seremos essa plateia apática, como a samambaia, da cena título desse texto.. Podemos sair da sala insatisfeitos, incomodados, iremos comer uma pizza na 1900, discutir o belo projeto de iluminação do espetáculo e seus enigmas simbólicos transcendentais e continuar contando os corpos, os corpos de mulheres e crianças palestinas, os corpos de jovens negros nas periferias do Brasil. Não nos faltam fontes e origens e opções de corpos para contar. Continuemos então, com tantos corpos para contar, esperando nosso resgate em nossas ilhas, cada um na sua.

    Cabe aqui trazer uma tradição da história do povo hebreu. Quando o Rei Davi estava em seu leito de morte, ele deu dois conselhos para seu filho, Salomão. O primeiro era que Salomão não deveria acreditar nos profetas. O segundo era que Salomão deveria matar seu meio-irmão, Adonias, filho primogênito de Davi, que teria direito ao trono. Portanto, no caso de Gaza, seguindo os princípios hebreus, o que Heleno disser não será ouvido, e o arco de Filoctetes não irá por um fim ao genocídio na Faixa de Gaza, pois o designío é matar o irmão que tem direito ao trono.

    Vejam só, quanta reflexão podemos extrair de um espetáculo que não disse nada.