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sexta-feira, 5 de abril de 2013

QUATRO HORAS EM CHATILA de Jean Genet

[Ao ler a biografia de Jean Genet escrita por Edmund White tomei conhecimento da existência deste texto, escrito logo após o massacre que ocorreu em Chatila, um campo de refugiados palestino no Líbano, em 1982. Ao descobrir este texto resolvi traduzi-lo e disponibilizá-lo por sua pertinência com o recrudescimento do fundamentalismo cristão em nosso país, e pela universalidade que Jean Genet consegue imprimir a situações tão similares com as que temos assistido aqui, agora. Quem tem ouvidos, ouça.]
Esta é uma versão completa do texto de Jean Genet. As frases que foram vergonhosamente apagadas pelos editores covardes da Revue d'Etudes palestiniennes em Paris, no número 6 publicado em 1983, está recuperado neste texto. A tradução em inglês [que eu utilizei como base para esta tradução em português] foi realizada por Daniel R. Dupecher e Martha Perrigaud. [Textos entre chaves são comentários que eu considerei necessários para a tradução em português. Não sou tradutor profissional, portanto, qualquer comentário ou correção que possa melhorar o texto será muito bem-vinda! Utilizei também um texto em francês que encontrei na internet para melhorar a tradução, mas era um texto sem as frases citadas acima. Os links dos textos utilizados estão referenciados no final da tradução. Também elaborei um glossário de pessoas, povos e lugares para colaborar na compreensão do contexto.]



QUATRO HORAS EM CHATILA

”Gentis matam gentis, e eles virão para enforcar os judeus."
Menachem Begin (Knesset, setembro, 1982)


Ninguém, nada, nenhuma narrativa técnica, é capaz de colocar em palavras os seis meses, e especialmente as primeiras semanas, em que os fedayin passaram nas montanhas de Jerash e Ajloun na Jordânia. Dar conta de relatar os acontecimentos, estabelecendo uma cronologia, os sucessos e fracassos da OLP, outros já o fizeram. O sentimento no ar, a cor do céu, da terra, das árvores, isto pode ser descrito; mas nunca a intoxicação sutil, a leveza das pegadas tocando suavemente a terra, o brilho dos olhos, a franqueza nas relações não apenas entre os fedayin mas também entre eles e seus líderes. Debaixo da sombra das árvores, tudo, todos estavam excitados, rindo, repletos de admiração pela vida, tão nova para todos, e nesta vibração havia algo estranhamente estático, alerta, reservado, protegido como alguém que estivesse fazendo uma oração silenciosa. Tudo pertencia a todos. E todos estavam sozinhos consigo mesmos. Talvez não. No final de tudo, sorrindo e abatidos. A região na Jordânia de onde eles haviam se retirado por razões políticas se estendia desde a fronteira da Síria até Salt (uma pequena cidade próxima à fronteira da Síria), e era limitada pelo Rio Jordão e por uma rodovia que liga Jerash a Irbid. Com 60 quilômetros de extensão e 20 de largura, esta região montanhosa era coberta por azinheiras, pequenas aldeias jordanianas e plantações esparsas. Sob as árvores e tendas camufladas os fedayin estabeleceram unidades de combate e instalaram luzes e armas semipesadas. A artilharia estava direcionada principalmente contra possíveis operações jordanianas, os jovens soldados cuidavam de suas armas, desmontando-as para limpá-las e lubrificá-las, remontando-as rapidamente em seguida. Alguns soldados conseguiam desmontar e remontar suas armas com os olhos vendados para que assim fossem capaz de realizar esta tarefa à noite. Entre cada soldado e sua arma se desenvolvia um vinculo de amor e de encantamento. Como os fedayin haviam deixado a adolescência para trás recentemente, o rifle, sua arma, era o sinal de uma virilidade triunfante que lhe dava a garantia de existência. A agressividade desaparecia: e os dentes apareciam através do sorriso. No resto do tempo, os fedayin bebiam chá, criticavam seus líderes e pessoas ricas, palestinos e outros, insultavam Israel, e acima de tudo, falavam sobre a revolução, esta em que eles estavam envolvidos e aquela na qual eles estavam prestes a ingressar. Para mim, a palavra "palestinos"; estivesse em uma manchete, no conteúdo de um artigo ou em um comunicado; leva a minha mente imediatamente para os fedayin de um ponto específico – Jordânia – e para uma data facilmente determinada: outubro, novembro, dezembro de 1970, janeiro, fevereiro, março, abril de 1971. Foi onde e quando descobri a Revolução Palestina. A evidência extraordinária do que estava acontecendo, a intensidade desta alegria de se estar vivo é também chamada de beleza. Dez anos se passaram, e eu não ouvi nada sobre eles, exceto que os fedayin estavam no Líbano. A imprensa europeia citava esporadicamente, até mesmo com desdém, a respeito do povo palestino. Então, de repente, Beirute Ocidental.
* * *
Uma fotografia tem duas dimensões, assim como a tela da televisão; ninguém pode caminhar através da imagem. De uma parede da rua até a outra, dobrado ou arqueado, com seus pés apoiados contra uma parede e suas cabeças pressionando a outra, os corpos pretos e inchados sobre os quais eu tinha que passar era todos de palestinos e libaneses. Para mim, como para o que restou da população, caminhar através de Chatila e Sabra se assemelhava a um jogo de amarelinha. Algumas vezes uma criança morta bloqueava as ruas: elas eram tão pequenas, tão magras, e os mortos tão numerosos. Provavelmente o cheiro é familiar para as pessoas mais velhas; ele não me incomodava. Mas havia tantas moscas. Se eu levantasse o lenço ou o jornal árabe colocado sobre uma cabeça, eu as perturbaria. Enfurecidas por minha ação, elas cobririam a costa de minha mão tentando se alimentar.
O primeiro cadáver que eu vi era o de um homem entre cinquenta e sessenta anos de idade. Ele teria cabelos brancos iluminados se uma ferida (feita por um machado, me pareceu) não tivesse rachado seu crânio em dois. Parte de seu cérebro enegrecido estava espalhado pelo chão, próximo à cabeça. O corpo estava estendido sobre uma poça de sangue escuro coagulado. O cinto estava aberto, um único botão segurava sua calça. As pernas e os pés do homem morto estavam à mostra, enegrecidos, roxo e azul; talvez ele tenha sido pego de surpresa durante a noite ou na madrugada. Ele estaria fugindo? Ele estava caído em uma viela logo à direta da entrada para o campo de Shatfla que fica no caminho da Embaixada do Kuwait. Será que o massacre de Chatila foi feito sorrateiramente ou em total silêncio, já que os israelenses, tanto soldados quanto oficiais, afirmam não ter ouvido nada, não ter suspeitado de nada enquanto ocupavam este edifício desde a tarde de quarta-feira? Uma fotografia não mostra as moscas nem o cheiro branco e denso da morte. Nem mesmo mostra como se deve saltar sobre os cadáveres enquanto você caminha entre um corpo e outro. Se você olhar com cuidado para um cadáver, ocorre um fenômeno estranho: a ausência de vida no corpo corresponde à total ausência do próprio corpo, especialmente se você recuar continuamente. Você sente que mesmo chegando bem perto do corpo você nunca conseguirá tocá-lo. Isto acontece quando você os olha com atenção. Mas se você caminha em sua direção, se abaixa próximo a ele, move um braço ou um dedo, de repente perceberá que ele está lá, quase amigavelmente. Amor e morte. Estas duas palavras são rapidamente associadas quando um deles é descrito. Eu tive que ir até Chatila para entender a obscenidade do amor e a obscenidade da morte. Nos dois casos um corpo não tem nada mais a esconder: posições, contorções, gestos, sinais, até mesmo silêncios pertencem a um mundo e ao outro. O corpo de um homem de trinta a trinta e cinco estava deitado de bruços. Como se o corpo todo não fosse nada além de uma bexiga no formado de um homem, ele ficou tão inchado com o sol e com as substâncias da decomposição que suas calças estavam justas como se elas estivessem prestes a se rasgar nas nádegas e nas coxas. O único pedaço do rosto que eu consegui ver estava roxo e preto. Logo acima do joelho podia se ver um ferimento profundo embaixo do tecido rasgado. A causa do ferimento: uma baioneta, uma faca, um facão? Moscas sobre a ferida e ao redor dela. Sua cabeça estava maior do que uma melancia, uma melancia preta. Eu perguntei seu nome; ele era um muçulmano.
– "Quem é este?" "Um palestino", respondeu em francês um homem de uns quarenta anos. "Veja o que eles fizeram". Ele puxou o cobertor que cobria os pés e parte das pernas. As panturrilhas estavam nuas, pretas e inchadas. Os pés, em botas de exército preta desamarradas, e os tornozelos dos dois pés estavam fortemente amarrados juntos por um nó com uma corda forte – sua resistência era evidente – de uns 3 metros de comprimento, que eu arrumei para que a Sra. S. (uma americana) pudesse tirar uma boa foto dele. Eu perguntei para o homem de quarenta anos seu eu poderia ver o rosto do homem morto.
– "Se você quiser, mas olhe você mesmo."
– "Você me ajudaria a virar a cabeça dele?"
– "Não."
– "Eles arrastaram este homem pela rua com esta corda?"
– "Eu não sei, senhor."
– "Quem o amarrou?"
– "Eu não sei, senhor."
– "Um dos homens do Haddad?"
– "Eu não sei."
– "Os israelenses?"
– "Eu não sei."
– "Os Kataeb?"
– "Eu não sei."
– "Você o conhecia?"
– "Sim."
– "Você o viu morrer?"
– "Sim."
– "Quem o matou?"
– "Eu não sei."
Ele caminhava rapidamente entre o homem morto e eu. Foi até mais adiante, olhou para trás e desapareceu em uma rua lateral. Por qual viela eu iria agora? Eu fiquei indeciso entre um homem de cinquenta anos de idade, um jovem de vinte, duas senhoras árabes, eu me senti como se fosse o centro de um compasso cujos quadrantes continham centenas de mortos. Eu fiz estas anotações, sem saber exatamente o porquê, neste ponto da minha narrativa: "Os franceses tem o hábito de usar a expressão sem graça 'trabalho sujo'. Bem, assim como o exército israelense ordenou aos Kataeb ou aos Haddaists para fazerem seu 'trabalho sujo', o Partido dos Trabalhadores teve seu 'trabalho sujo' feito por Likud, Begin, Sharon, Shamir". Eu apenas contatei R., um jornalista palestino que ainda estava em Beirute no domingo, dia 19 de setembro. No meio de tudo, próximo a eles, de todas estas vítimas torturadas, minha mente não conseguia se livrar desta "visão imperceptível": como seria o torturador? Quem foi ele? Eu o vi e eu não o vi. Ele é tão grande quanto a vida e a única forma que ele terá é a composta pelas posturas, posições e gestos grotescos dos corpos fermentando no sol debaixo de nuvens de moscas. Se os fuzileiros americanos, os paraquedistas franceses, e os bersagliere italianos inventaram uma intervenção de força no Líbano e foram embora rapidamente (os italianos, que chegaram de navio dois dias atrasados, mas voltaram em aviões Hercules!) um dia ou trinta e seis horas antes da data oficial de sua saída, como se estivessem fugindo, e um dia antes do assassinato de Bashir Gemayel, os palestinos estão realmente errados ao questionarem se americanos, franceses e italianos não foram avisados para saírem imediatamente para não se misturarem ao bombardeio dos quarteis generais dos Kataeb?
Eles saíram rapidamente e muito cedo. Israel vangloria-se e ostenta sua eficácia em combate, sua preparação para batalhas, sua habilidade em transformar as circunstâncias a sua favor, em criar circunstâncias. Vejamos; a OLP deixa Beirute em triunfo, em um navio grego, com uma escolta naval. Bashir, escondendo-se tão bem quanto pode, visita Begin em Israel. A intervenção dos três exércitos (americano, francês, italiano) e encerrada na segunda-feira. Na terça-feira, Bashir é assassinado. Tsahal entra em Beirute Ocidental na manhã de quarta-feira. Como se estivessem vindo do cais, os soldados israelenses avançaram sobre Beirute na manhã do funeral de Bashir. Com binóculos, do oitavo andar do edifício onde eu estava, eu os vi chegando em fila indiana: uma coluna. Eu fiquei surpreso que nada mais tivesse acontecido, porque com um bom rifle com mira eles poderiam ter sido alvejados um a um. A brutalidade deles os antecedeu. Os tanques vieram logo depois. E depois os carros. Cansado por uma marcha matinal tão longa, eles pararam próximos à embaixada francesa, deixando os tanques seguirem à frente deles, indo entrando diretamente pela Hamra. Os soldados se sentaram em intervalos de 10 metros encostados nas paredes da embaixada, com seus rifles apontados para a frente. Com seus ombros largos eles pareciam serpentes com as duas pernas esticadas à frente deles. "Israel havia prometido ao representante americano de Habib que não poria os pés em Beirute Ocidental e especialmente que respeitaria a população civil dos campos palestinos. Arafat ainda possui a carta na qual Reagan fez a mesma promessa. Habib supostamente prometeu a Arafat que novecentos prisioneiros em Israel seriam libertados. Na quinta-feira o massacre em Chatila e Sabra começa. O 'banho de sangue' que Israel alegou que impediria por restaurar a ordem nos campos..." um escritor libanês me disse.
"Será muito fácil para Israel se livrar de todas as acusações. Jornalistas de toda a imprensa europeia já estão trabalhando para livrá-los: nenhum dirá que nas noites de quinta para sexta-feira e de sexta para sábado o hebraico foi falado em Chatila". Isto foi o que outro libanês me disse. Uma mulher palestina – pois eu não poderia deixar Chatila passando de um cadáver para outro neste jeu de l'oie (jogo de tabuleiro em espiral com perguntas e respostas) que inevitavelmente terminaria neste milagre: Chatila e Sabra arrasados e a batalha para reconstruir os edifícios sobre este cemitério – a mulher palestina era provavelmente idosa pois seus cabelos eram grisalhos. Ela estava deitada de costas, colocada ou deixada sobre os entulhos, os tijolos, as barras de ferro retorcidos, sem conforto. Primeiramente eu fiquei surpreso com as tranças estranhas feitas de cordas e roupas que iam de um ombro ao outro, mantendo os dois braços abertos horizontalmente, como se estivesse crucificada. Seu rosto preto e inchado, voltado para o céu, mostrava uma boca aberta, escurecida pelas moscas, e dentes que pareciam muito brancos para mim, um rosto que parecia, sem mover um músculo sequer, forçar um riso ou sorrindo ou mesmo gritando em um gemido silencioso e contínuo. Suas meias eram de lã preta, e seu vestido de flores rosa e cinza, um pouco levantado ou muito curto, eu não sei bem, revelavam a parte superior das panturrilhas pretas e inchadas, novamente com um colorido roxo delicado com um violeta e roxo parecido nas bochechas. Seriam contusões ou o resultado natural do apodrecimento no sol?  – "Eles bateram nela com a coronha do rifle?" – "Veja, senhor, olhe as mãos dela." Eu não tinha notado. Os dedos das duas mãos estavam espalhados, os dez dedos haviam sido cortados com uma tesoura de jardinagem. Soldados, rindo como crianças e cantando alegremente, provavelmente haviam se divertido ao descobrirem e usarem estas tesouras. – "Veja senhor". As pontas dos dedos, as últimas articulações, com as unhas, jogadas na poeira. O jovem, que estava simples e naturalmente me mostrando como a morta havia sido torturada, calmamente colocou o tecido de volta sobre o rosto e as mãos da mulher palestina, e um pedaço de papelão ondulado sobre suas pernas. Tudo o que eu conseguia distinguir agora era um monte de tecido rosa e cinza, com uma nuvem de moscas pairando sobre ele. Três jovens me acompanharam para dentro de um beco. – "Entre ai, sente-se, nós esperaremos você lá fora." A primeira sala era o que restava de uma casa de dois andares. O espaço dava uma impressão de serenidade e simpatia, de quase alegria; talvez uma alegria real que havia sido criada pelos objetos abandonados por outras pessoas, objetos que haviam sobrevivido naquele pedaço de paredes destruídas, onde eu primeiramente pensei que fossem três poltronas, na realidade três bancos de carro (talvez uma Mercedes de algum ferro-velho), um sofá com almofadas cobertas com um material florido berrante com desenhos estilizados, um rádio pequeno e silencioso, dois candelabros apagados. Uma sala bastante calma, apesar do tapete de conchas gastas. A porta balançou, como se houvesse um vento forte. Eu caminhei sobre as conchas gastas e empurrei a porta que se abriu em direção à outra sala, mas eu tive que empurrar com força: o salto de uma bota bloqueava o caminho, o calcanhar de um corpo deitado de costas, próximo a dois outros corpos de homens deitados de bruços, todos eles descansando sobre outro tapete de conchas gastas. Eu quase cai várias vezes por causa deles. Atrás desta sala outra porta estava aberta, sem travas ou cadeado. Eu caminhei sobre os corpos como alguém que cruza um abismo. A sala guardava os corpos de quatro homens, empilhados um por cima do outro sobre uma cama de solteiro, como se cada um tivesse tido o cuidado de proteger o que estava embaixo de si, ou como se eles tivessem sido pegos em uma cópula orgiástica decadente. Esta pilha de escudos tinham um cheiro forte, mas não cheiravam mal. O cheiro e as moscas tinham, me parecia, se acostumado comigo. Eu não perturbava mais nada nestas ruinas, nesta quietude.
Durante a noite de quinta para sexta-feira, e durante as de sexta para sábado e sábado para domingo ninguém manteve vigília sobre eles, eu pensei. Ainda assim, me parecia que alguém havia visitado estes homens mortos antes de mim e após a morte deles. Os três jovens estavam esperando bem longe da casa com lenços sobre seus narizes. Foi então, enquanto eu estava saindo da casa, que eu tive um ataque súbito de uma leve loucura que quase me fez sorrir. Eu pensei comigo mesmo que nunca haveria madeira ou carpinteiros suficientes para fazer os caixões. Mas também, porque eles precisariam de caixões? Os homens e mulheres mortos eram todos muçulmanos, que são costurados em mortalhas. Quantos metros seriam necessários para embalar tantos corpos? E quantos padres? O que mais estava faltando aqui, eu dei por mim, era a harmonia das rezas. – "Vamos, senhor, rápido". Era o instante de notar que esta súbita e silenciosa loucura momentânea que me fez contar metros de tecido branco deu aos meus passos uma quase vitalidade refrescante, e isto deve ter sido causado por um comentário que eu ouvi de uma amiga palestina no dia anterior. – "Eu estava esperando que eles me trouxessem minhas chaves (quais chaves: do carro dela, de sua casa, tudo o que eu sei agora é da palavra chaves) quando um velho entrou correndo. 'Para onde você está indo?' 'Conseguir ajuda. Eu sou o coveiro. Eles bombardearam o cemitério. Todos os ossos estão descobertos. Eu preciso de ajuda para recolher os ossos'". Esta amiga é cristã, eu acho. Ela continuou: – "Quando a bomba de vácuo, chamada de bomba de implosão, matou duzentas e cinquenta pessoas, nós tínhamos apenas uma caixa. Os homens cavaram uma vala coletiva no cemitério da Igreja Ortodoxa. Nós enchíamos a caixa, e a levávamos para esvaziá-la. Nós fomos e voltamos sob o bombardeio, recolhendo os corpos e membros o melhor que pudemos".
Nos três meses seguintes, as mãos tiveram uma função dupla: durante o dia para pegar e tocar, à noite, para ver. Cortes de eletricidade fizeram esta "escola para cegos" necessária, como fazíamos a escalada, duas ou três vezes ao dia, daquele penhasco de mármore branco, a escada de oito andares. Nós tínhamos que encher todos os recipientes da casa com água. O telefone foi cortado quando os soldados israelenses entraram em Beirute Ocidental junto com suas inscrições em hebraico. Assim estavam as estradas ao redor de Beirute. Os tanques Merkava que nunca paravam mostravam que eles estavam mantendo os olhos sobre toda a cidade, e ao mesmo tempo alguém podia imaginar o medo de quem estava lá dentro de tornar-se um alvo fixo. Eles sem sombra de dúvida temiam a atividade dos Murabitoun e dos fedayin que poderiam continuar nas seções de Beirute Ocidental. No dia seguinte à entrada do exército israelense nós estávamos prisioneiros, mas me parecia que os invasores eram menos temidos do que desdenhados, eles causavam menos medo do que repulsa. Nenhum soldado ficava rindo ou sorrindo. Nenhum jogou arroz ou flores. O pai de Bashir Gemayel apareceu na televisão libanesa, rosto fino com sobrancelhas arqueadas e cheia de sombras, e lábios muito finos. A única expressão: crueldade nua. Desde que as estradas foram bloqueadas e o telefone estava mudo, desprovido de contato com o resto do mundo, pela primeira vez na minha vida, eu senti como se tivesse me tornado um palestino e odiei Israel. No Estádio de Esportes, próximo à rodovia Beirute-Damasco, que já estava quase completamente destruída pelo bombardeio aéreo, os libaneses abandonavam pilhas de armamentos, todos supostamente destruídos voluntariamente, para oficiais israelenses. No apartamento em que eu estava hospedado, todos tinham um rádio. Nós ouvíamos a Radio-Kataeb, Radio-Murabitoun, Radio-Amman, Radio-Jerusalém (em francês), Radio-Líbano. Provavelmente todos estavam fazendo a mesma coisa em cada apartamento. "Nós estamos ligados a Israel por muitos vínculos que nos trazem bombas, tanques, soldados, frutas, vegetais; eles levam nossos soldados embora, nossas crianças para a Palestina, em um contínuo e incessante ir e vir, pois de acordo com eles, nos estamos ligados a eles desde Abraão, em sua linhagem, em sua linguagem, nas mesmas origens..." (Um fedai palestino). "Em resumo," ele acrescenta, "eles nos invadem, eles nos entulham, nos sufocam e gostariam de nos abraçar. Eles dizem que são nossos primos. Eles estão muito tristes por nos ver mantendo distância deles. Eles devem estar furiosos conosco e com eles mesmos".
* * *
A afirmação de que existe uma beleza peculiar aos revolucionários levanta muitos problemas. Todo mundo sabe, todo mundo suspeita, que crianças pequenas ou adolescentes vivendo em ambientes velhos e rudes tem um rosto bonito, corpo, movimente e olhar semelhante à de um fedayin. Talvez isto possa ser explicado da seguinte maneira: ao romper com estruturas tradicionais, um nova liberdade surge através da pele morta, e pais e avôs terão dificuldade para extinguir o brilho nos olhos, a pulsação nos templos, o prazer do sangue fluindo pelas veias. Na primavera de 1971, nas bases palestinas, esta beleza sutilmente impregnou uma floresta trazida à vida pela liberdade dos fedayin. Nos campos, uma beleza diferente, mais tranquila prevaleceu por causa da presença de mulheres e crianças. Os campos receberam uma certa iluminação das bases de combate, e também para as mulheres, isto levaria a uma discussão longa e complexa que explicasse este brilho. Mais do que os homens, mais do que os fedayin em combate, as mulheres palestinas pareciam ser fortes o suficiente para sustentar a resistência e aceitar as mudanças que vieram junto com a revolução. Elas já haviam desobedecido os costumes: elas olhavam os homens diretamente nos olhos, elas se recusavam a usar o véu, seus cabelos eram visíveis, algumas vezes completamente descobertos, suas vozes eram firmes. A mais simples e mais cotidiana de suas tarefas era bem mais que um pequeno passo em sua jornada de auto-afirmação em direção a uma nova, e no entanto desconhecida, ordem, a qual lhes dava a pista de uma liberação purificadora para elas mesmas, e um orgulho crescente para os homens. Elas estavam prontas para se tornarem tanto as esposas quanto as mães de heróis, assim como elas já eram para seus homens. Na floresta de Ajloun, os fedayin talvez estivessem sonhando com garotas como estas, especialmente, cada um invocava ou imaginava uma garota deitada a seu lado, a partir de então a graciosidade particular, a força – com seu riso divertido – de um fedayin armado. Nós não estávamos apenas no amanhecer da pré-revolução mas em um marasmo sensual. Uma camada fina cristalizava-se dando uma gentileza a cada ação.
Constantemente, e todos os dias por um mês, sempre em Ajloun, eu via uma mulher magra porém forte agachada no frio, agachada como os indígenas andinos ou certos africanos negros, os intocáveis de Tóquio, os Tziganes do mercado, pronta para uma retirada rápida em caso de perigo, embaixo das árvores em frente ao quartel dos soldados, uma pequena e permanente estrutura erguida rapidamente. Ela esperava descalça em seu vestido preto enfeitado com fitas na bainha e na borda das mangas. Seu rosto era sério mas não mal-humorado, cansado mas não esgotado. O líder dos soldados estaria se preparando um quarto vazio ali perto, e então ele lhe daria um sinal. Ela entraria no quarto, fechando a porta, mas sem trancá-la. Então ela sairia, sem uma palavra sequer ou um sorriso, e descalça e imponente, retornaria para Jerash e para o campo em Baq. Eu descobri que no quarto reservado para ela no quartel dos soldados ela tirava suas duas saias pretas, removia os envelopes e as cartas costuradas dentro delas, fazia um maço com elas e batia uma vez na porta. Entregando as cartas para o líder ela sairia e iria embora sem dizer uma palavra sequer. Ela voltaria no dia seguinte.
Outras mulheres velhas soltaram uma gargalhada por causa de uma casa que tinha apenas três pedras enegrecidas as quais, em Jebel Hussein (Amman), elas alegremente se referiam como “nossa casa”. Elas me mostraram as três pedras, e algumas vezes com brasas ardentes, e com vozes infantis, rindo e dizendo: "darna". Estas mulheres idosas não pertenciam nem à revolução nem à resistência palestina: era um riso de quem havia perdido toda esperança. A sol acima delas continuava sua jornada. Um braço ou um dedo estendido criava uma sombra cada vez mais fina. Mas e a terra? Jordânia, em parte uma ficção administrativa e política criada pela França, Inglaterra, Turquia, América... Um riso que perdeu toda a esperança, "mais alegre pois é o mais desesperado”. Elas ainda viram uma Palestina que não mais existia quando elas tinham dezesseis anos, mas então eles tinham uma terra. Elas não estavam nem abaixo nem acima dela, mas em um espaço incômodo onde qualquer movimento estava errado. Abaixo dos pés descalços destas octogenárias e soberbamente elegantes tragediennes estava a terra sólida? Isto era cada vez menos verdade. Depois de terem escapado de Hebron sob a ameaça israelense a terra aqui parecia sólida, todos estavam alegres e se moviam sensualmente no idioma árabe. Com o passar do tempo a terra pareceu experimentar isto: os palestinos eram cada vez menos suportáveis ao mesmo tempo que estes mesmos palestinos, estes fazendeiros ignorantes, estavam descobrindo o movimento, caminhando, correndo, o prazer de ideias compartilhadas quase todos dias como cartas de baralho, as armas montadas, desmontadas e usadas. Cada uma das mulheres tinha a sua vez de falar. Elas estavam rindo. Uma delas relatou: – "Heróis! Que piada! Eu pari e bati em cinco ou seis deles que estão em Jebel. Eu limpei suas bundas. Eu sei do que eles são feitos, e eu posso fazer mais alguns". No céu ainda azul o sol continuava sua jornada, mas ainda estava quente. Estas atrizes trágicas lembravam-se e imaginavam ao mesmo tempo. Para enfatizar o que elas diziam elas apontavam o dedo no fim da sentença e tencionavam as consoantes enfaticamente. Se um soldado jordaniano aparecesse ele ficaria encantado: com o ritmo das sentenças ele redescobriria o ritmo das danças dos beduínos. Sem as sentenças, um soldado israelense, ao ver estas deusas, esvaziaria seu rifle automático em seus crânios.
* * *
Aqui nas ruínas de Chatila nada foi deixado. Algumas poucas velhas silenciosas escondendo-se apressadamente atrás de uma porta onde um tecido branco está pregado. Quanto aos fedayin bem jovens, eu encontrarei alguns em Damasco. Você pode escolher uma comunidade particular que não seja a de seu nascimento, entretanto você nasceu no meio de um povo; esta escolha está baseada em uma afinidade irracional, o que não quer dizer que a justiça não tenha nenhum papel nisto, mas esta justiça e toda a defesa desta comunidade existe por uma questão emocional – talvez intuitiva, sensual – uma atração; eu sou francês, mas eu defendo os palestinos com todo o meu coração e automaticamente. Eles estão certos porque eu os amo. Mas eu os amaria se a injustiça não os tivesse transformado em um povo errante?
Quase todos os edifícios em Beirute foram atingidos, no que eles ainda chamam de Beirute Ocidental. Eles se desfazem de diferentes formas: como uma massa espremida entre os dedos de um King Kong gigante, indiferente e voraz; outras vezes três ou quatro andares se inclinam deliciosamente em uma curva elegante, dando ao edifício um tipo de aspecto libanês. Se uma fachada está intacta, dê a volta na casa; as outras paredes estarão em pedaços. Se as quatro paredes estiverem de pé sem rachaduras, a bomba lançada pelo avião caiu no centro da casa e fez um buraco onde estava a escadaria ou o elevador. Em Beirute Ocidental, depois da chegada dos israelenses, S. me disse: – "Já era noite; devia ser umas sete horas. De repente ouviu-se um som alto clank, clank, clank. Todo mundo, minha irmã, meu cunhado e eu corremos para a sacada. A noite estava muito escura. E de vez em quando via-se como que raios de luz a menos de 100 metros adiante. Você sabe que logo em frente à nossa casa existe uma espécie de posto de comando israelense: quatro tanques, uma casa ocupada por soldados, oficiais e policiais. Noite. E o barulho metálico se aproximando. Os raios de luz; algumas tochas acesas. E quarenta ou cinquenta garotos entre doze e treze anos batendo ritmicamente em pequenas canecas, com uma pedra ou martelos ou algo assim. Eles estavam gritando, entoando: La ilah illa Allah, la Kataeb wa la yahoud (Não há nenhum deus além de Alá; nem para os Kataeb; nem para os Judeus.)"
H. me disse: – "Quando você veio para Beirute e Damasco em 1928, Damasco estava destruída. O General Gouraud e suas tropas, as artilharias marroquina e tunisiana, estavam atirando e limpando Damasco. A quem os sírios acusaram?" Eu respondi: – "Os sírios acusaram a França pelo massacre e destruição de Damasco". Ele disse: – "Nós culpamos Israel pelos massacres em Chatila e Sabra. Não culpamos apenas os Kataeb que os substituiram. Israel é o culpado por permitir duas companhias de Kataeb a entrarem nos campos, e dar-lhes as ordens e encorajá-los por três dias e noites, de trazer-lhes comida e bebida, por iluminarem os campos à noite." H. novamente, professor de História: – "Em 1917 o golpe de Abraão foi atualizado, se você preferir, deus já era a prefiguração de Lord Balfour. Os judeus costumavam dizer e ainda dizem que deus prometeu a Abraão e seus descendentes uma terra de leite e mel. Mas esta terra, que não pertence ao deus dos judeus (esta terra era repleta de deuses), esta terra era habitada pelos cananeus, que tinham seus próprios deuses, os quais lutaram contra as tropas de Josué e acabaram roubando a famosa Arca da Aliança, sem a qual os judeus nunca teriam vencido. A Inglaterra, em 1917, ainda não governava a Palestina (esta terra de leite e mel) pois o tratado que lhe dava este mandato ainda não havia sido assinado". – "Begin alega que ele veio ao país…" – "Este é o nome do filme: The Long Absence [A Longa Ausência]. Você vê este polaco como o herdeiro de Salomão?"
Nos campos, após vinte anos de exílio, os refugiados sonhavam com sua Palestina, e ninguém teve a coragem de pensar ou dizer que Israel a destruiu de uma ponta a outra, que onde havia um campo de cevada surgiu um banco, e uma estação de energia onde uma vinheira havia crescido. – "Devemos trocar o portão pelo campo?" – "Nós temos que reconstruir a parede próxima à figueira". – "Todas as panelas estão enferrujadas: compre uma esponja". – "Talvez devéssemos levar eletricidade até o celeiro". – "Não, não mais vestidos artesanais: você pode ter uma máquina de costura e uma para bordados". Os velhos nos campos são miseráveis; talvez também o fossem na Palestina mas lá a nostalgia desempenhava um papel mágico. Eles podem continuar prisioneiros da maldição infeliz dos campos. Não se tem certeza de que este grupo de palestinos se lamentará por deixar os campos. Neste sentido, a pobreza extrema os faz sentir saudade do passado. O homem que sabe disto, junto com a amargura conheceu uma alegria extrema, solitária e impossível de ser expressada. Os campos jordanianos que se amontoam nas encostas rochosas são desertos, mas ao redor deles existe um deserto ainda mais desolador: cabanas, tendas com buracos nas quais habitam famílias cujo orgulho brilha. Qualquer um que negue que os homens podem encontrar prazer e orgulho em sua própria privação não entende nada do coração humano; eles podem se orgulhar pois sua privação aparente se contrapõe a uma glória escondida.
A solidão dos mortos no campo de Chatila era ainda mais palpável pelo fato de eles terem gestos e poses que eles não haviam planejado. Mortos de qualquer maneira. Mortos deixados ao abandono. Ainda assim ao nosso redor, no campo, todo o carinho, a ternura e amor flutuavam na procura de palestinos que jamais irão responder. – "O que podemos dizer a suas famílias que foram embora com Arafat, acreditando nas promessas de Reagan, Mitterrand e Perini, que lhes asseguraram que a população civil dos campos estaria a salvo? Como nós podemos explicar que nós permitimos que crianças, velhos e mulheres fossem massacrados, e que nós abandonamos seus corpos sem orações? Como podemos lhes dizer que nós não sabemos onde eles foram enterrados?"
Os massacres não foram realizados em silêncio e na escuridão. Iluminados pelos fogos israelenses, os israelenses estavam ouvindo Chatila já na quinta-feira à noite. Que festa, que festival se realizou lá onde os mortos pareciam participar das brincadeiras de soldados embriagados de vinho, de ódio, e provavelmente embriagados no prazer de entreterem o exército israelense que estava ouvindo, assistindo, encorajando, instigando-os a continuarem. Eu não vi este exército israelense ouvindo e assistindo. Eu vi o que eles fizeram. Para o argumento: O que Israel ganhou por assassinar Bashir: entrando em Beirute, reestabelecendo a ordem e prevenindo um banho de sangue. O que Israel ganhou com o massacre em Chatila? Resposta: o que Israel ganhou entrando no Líbano? O que Israel ganhou bombardeando a população civil por dois meses; caçando e eliminando palestinos? O que Israel ganhou em Chatila: a destruição dos palestinos. Israel mata homens, mata cadáveres. Israel arrasa Chatila. Israel não está indiferente à especulação imobiliária da terra reorganizada: esta terra vale cinco milhões de francos por metro quadrado mesmo em ruinas. Mas "limpa" ela terá valor... ? Eu estou escrevendo este texto em Beirute onde, talvez pelo fato de a morte estar bem perto, ainda estendida no chão, tudo é mais verdadeiro do que na França: tudo parece ter acontecido como se, esgotado e cansado de ser um exemplo, de ser intocável, de tirar vantagem do que ele acredita ter se tornado – o santo vingativo da inquisição – Israel decidiu permitir ser julgado friamente.
O povo judeu, longe de ser o mais miserável na terra – os indígenas dos Andes mergulham mais fundo em miséria e desprezo – finge ser uma vítima do genocídio, enquanto na América, judeus ricos e pobres mantém reservas de esperma para a procriação e continuidade do povo “escolhido”. Graças a uma habilidosa porém previsível metamorfose, temos agora o que há muito tempo tem sido preparado: um abominável, poder temporário, colonialista de uma forma que poucos ousaram imitar, tendo tornando-se o juiz definitivo o que se deve à sua antiga maldição tanto quanto ao fato de ter sido escolhido. Este poder abominável, mais uma vez em sua história, está pressionando tanto que merece uma condenação unânime; alguém pode mesmo perguntar se Israel não quer recuperar seu destino de povo nômade, humilhado, com poderes secretos. Desta vez, isto é exposto com a terrível luz de massacres que eles não mais sofrerão, mas que é infligido a outros; e quer recuperar sua imagem ancestral e tornar-se novamente o "sal da terra" – arrogando-se que já o tenha sido. Mas então, em resumo! A União Soviética e os estados árabes, covardes como foram ao se recusar a interferir nesta guerra, permitiram que Israel finalmente se mostrasse ao mundo sob uma luz tão forte quanto insana entre as nações.
Muitas questões permanecem: se os israelenses apenas iluminaram o campo, escutaram, ouviram os tiros disparados por tantas armas, cujas cápsulas eu chutei com meus pés (dezenas de milhares), quem realmente estava atirando? Quem estava arriscando sua própria pele para matar? Os falangistas? Os Haddadistas? Quem? E quantos?
O que aconteceu com o armamento responsável por todos aqueles cadáveres? E sobre o armamento daqueles que defendiam a si mesmos? Na parte do campo que eu visitei, eu vi apenas dois armamentos antitanque não utilizados. Como os assassinos entraram no campo? Os israelenses estavam em todas as saídas de Chatila? De qualquer forma, na quinta-feira eles já estavam no Hospital Akka, em frente a uma das entradas do campo. De acordo com os jornais, os israelenses entraram no campo de Chatila assim que ficaram sabendo do massacre, e pararam com o massacre imediatamente, isto é, no sábado. Mas o que eles fizeram com os assassinos e para onde eles foram levados?
Após o assassinato de Bashir Gemayel e vinte de seus amigos, após os massacres, a Sra. B., membro da classe alta de Beirute, veio me ver quando ela descobriu que eu estava voltando de Chatila. Ela subiu os oito andares do edifício – sem eletricidade; eu creio que ela seja idosa, elegante porém idosa.
– "Antes da morte de Bashir, antes dos massacres, você estava certo ao me dizer que o pior ainda estava por acontecer. Eu vi isto”.
– “Por favor, não me diga o que você viu em Chatila. Eu estou muito estressada, e eu tenho que manter minha força para encarar o pior que ainda está por vir." Ela vive sozinha com seu marido (de setenta anos de idade) e sua empregada em um apartamento grande em Ras Beirut. Ela é muito elegante. Muito refinada. A mobília de sua casa é antiga, Luis XVI, eu acho.
– "Nós sabíamos que Bashir tinha ido para Israel. Ele estava errado. Um chefe de estado eleito não deveria se associar com pessoas como aquelas. Eu estava certa de que alguma coisa terrível iria acontecer com ele. Mas eu não quero ouvir sobre isto. Eu tenho que preservar minha força para resistir aos terríveis golpes que ainda virão. Bashir ia devolver a carta onde o Sr. Begin o chama de caro amigo".
A classe alta, com seus serviçais silenciosos, tem sua própria maneira de resistência. A Sra. B. e seu marido "não acreditam em reencarnação da alma". O que acontecerá se eles reencarnarem como israelenses? O dia do enterro de Bashir é também o dia em que o exército israelense entrou em Beirute Ocidental. As explosões chegaram bem perto do edifício onde estávamos; finalmente todos foram até os abrigos no térreo. Embaixadores, doutores, suas esposas e filhas, um representante da ONU no Líbano, seus empregados. – "Carlos, me traga um travesseiro". – "Carlos, meus óculos". – "Carlos, um pouco de água". Os empregados, também, são aceitos no abrigo assim como eles também falam francês, isto pode ser necessário para o cuidado dos patrões, suas feridas, seu transporte ao hospital ou ao cemitério, que situação difícil!
Você tem que saber que os campos palestinos de Chatila e Sabra eram formados por quilômetros e quilômetros de pequenas ruelas estreitas – por aqui, até os becos são tão esqueléticos, tão finos que algumas vezes duas pessoas não conseguem caminhar juntas a menos que uma ande um pouco atrás – repletos de sujeira, blocos de cimento, tijolos, farrapos sujos multicoloridos, e naquela noite, sob a luz dos fogos israelenses que iluminaram o campo, mesmo quinze ou vinte combatentes bem armados seriam incapazes de realizar esta matança. Os matadores trabalharam e eles eram numerosos, e provavelmente acompanhados por equipes de tortura que rachavam os crânios, partiam as coxas, decepavam braços, mãos e dedos, e arrastavam os moribundos amarrados em cordas, homens e mulheres que ainda estava vivos pois o sangue jorrou de seus corpos por bastante tempo, tantos que eu era incapaz de determinar quem, no átrio de uma casa, havia deixado uma corrente de sangue seco, saindo canto do átrio onde havia uma poça tão funda quanto o degrau onde ela desaparecia na poeira. Era um homem palestino? Uma mulher? Um falangista cujo corpo havia sido removido? Em Paris, alguém pode alimentar dúvidas sobre esta história toda, especialmente se não conhecer nada sobre a topografia dos campos. Alguém pode permitir que Israel alegue que  os jornalistas de Jerusalém foram os primeiros a reportar o massacre. Como eles expressaram isto para os países árabes e em língua árabe? E em inglês e francês? E quando exatamente?
Apenas reflita sobre as precauções acerca de uma morte suspeita no ocidente, impressões digitais, relatórios de balística, autópsias, testemunhas e contra testemunhas! Em Beirute, assim que o massacre foi divulgado o exército libanês oficialmente tomou conta dos campos e eliminou imediatamente as ruinas das casas e o que restou dos corpos. Quem ordenou esta pressa? Especialmente depois que este relato correu o mundo, que cristãos e muçulmanos estão se matando uns aos outros, e mesmo depois de as câmeras terem gravado a brutalidade da matança. No Hospital Akka, ocupado pelos israelenses, e ao lado de uma das entradas de Chatila, que não está nem a duzentos metros do campo, mas a quarenta. Eles não viram nada, não ouviram nada, não entenderam nada? Porque isto é apenas o que Begin declarou ao Knesset: – "Gentis matam gentis, e eles virão para enforcar os judeus".
Mas devo concluir minha descrição de Chatila, que foi brevemente interrompida. Aqui estão os corpos que eu vi por último, no domingo, por volta das duas horas da tarde, quando a Cruz Vermelha Internacional entrou com suas escavadeiras. O cheiro da morte não estava vindo nem de uma casa nem de uma vítima: meu corpo, meu ser, parecia emanar este cheiro. Em uma rua estreita, na sombra de uma parede, eu pensei ter visto um boxeador negro sentado no chão, rindo, surpreso por ter sido nocauteado. Ninguém havia tido a sensibilidade de fechar suas pálpebras, seus olhos brancos como porcelana e saltando para fora, estavam olhando para mim. Ele parecia desapontado, com seus braços levantados, inclinados contra um canto da parede. Ele era um palestino que foi morto há dois ou três dias. Se eu o confundi à primeira vista com um boxeador negro foi porque sua cabeça estava enorme, inchada e preta, como todas as cabeças e todos os corpos, seja sob o sol ou na sombra das casas. Eu caminhei até perto de seus pés. Eu peguei a parte superior de uma dentadura que estava caída na poeira do chão e a coloquei no que restou do parapeito de uma janela. A palma de sua mão estava aberta em direção ao céu, sua boca aberta, a braguilha de sua calça aberta sem o cinto: uma colmeia onde as moscas se alimentavam. E dei um passo sobre um cadáver, depois outro. Ali na poeira, no espaço entre os dois corpos, havia pelo menos um objeto vivo, intacto na carnificina, um objeto rosa transparente que ainda poderia ser usado: uma perna artificial, aparentemente de plástico, e calçada com um sapato preto e uma meia cinza. Assim que eu olhei mais de perto, ficou claro que ela foi brutalmente arrancada de uma perna amputada, porque as correias que usualmente prende a perna à coxa estavam arrebentadas. Esta perna artificial pertencia ao segundo corpo, aquele no qual eu percebi que tinha apenas uma perna com um pé calçado com um sapato preto e uma meia cinza.
Na rua perpendicular a esta onde eu deixei os três corpos, havia outro. Ele não estava bloqueando o caminho totalmente, mas ele estava deitado na entrada da rua de forma que eu tive que caminhar em volta dele e virar para ver sua aparência: sentado em uma cadeira, rodeado por homens e mulheres jovens e silenciosos, uma mulher – em um vestido árabe – estava chorando; ela devia ter dezesseis ou sessenta anos. Ela estava chorando sobre seu irmão cujo corpo quase bloqueava a passagem. Eu cheguei perto dela. Eu olhei com mais cuidado. Ela tinha um cachecol em volta de seu pescoço. Ela estava chorando, lamentando a morte de seu irmão junto dela. Seu rosto estava rosa, um rosa bebê, a mesma cor sobre tudo, bem suave, delicada, mas sem as pestanas ou as sobrancelhas, e o que eu pensei que fosse rosa não era a superfície de sua pele mas uma camada inferior de pele cinza. Todo o seu rosto havia sido queimado. Eu não sei pelo quê, mas eu entendi por quem.
Com os primeiros corpos, eu tentei contá-los. Quando eu cheguei a vinte ou quinze, rodeado pelo cheiro, pelo sol, tropeçando sobre cada ruína, isto era impossível; tudo se tornou confuso. Eu havia visto vários edifícios desmoronando e casas destruídas com cobertores para fora que não haviam sido removidos, mas quando eu olhei para aquelas em Beirute Ocidental e Chatila eu vi pavor. Geralmente os mortos se tornam bastante familiares, até mesmo amigáveis a mim, mas quando eu vi aqueles corpos nos campos e percebi apenas o ódio e o prazer daqueles que os haviam matado. Uma festa bárbara foi realizada lá: raiva, bebedeira, danças, canções, maldições, lamentos, gemidos, em honra dos voyeurs que estava rindo no terraço do Hospital Akka.
Na França, antes da Guerra na Argélia, os árabes não eram bonitos, seu andar era desajeitado, arrastado, eles tinham caras feias, e assim de repente a vitória os tornou belos; mas um pouco antes que a vitória estivesse garantida, enquanto mais de meio milhão de soldados franceses estavam esforçando-se e morrendo nos Aures e por toda a Argélia, uma coisa curiosa aconteceu com os rostos e corpos dos trabalhadores árabes: algo como a aproximação, o pressentimento de uma beleza ainda frágil que iria nos cegar quando as escamas finalmente caíram de sua pele e de nossos olhos. Nós tínhamos que admitir: eles haviam alcançado a liberdade política a fim de serem vistos como eles eram: muito bonitos. Da mesma maneira, uma vez que eles haviam escapado dos campos de refugiados, da moralidade e das regras dos campos, de uma moralidade imposta pela necessidade de sobreviver, uma vez que eles tinham ao mesmo tempo escapado da vergonha, os fedayin se tornaram muito bonitos; e como esta beleza era nova, podemos mesmo dizer primitiva, ingênua, ela era saudável, tão viva que revelou de uma vez o que a conectava com todas as belezas do mundo, libertando-os da vergonha. Muitos michês algerianos que caminhavam pela Pigalle à noite usavam seu charme a serviço da revolução na Argélia. A virtude também esta lá. É Hannah Arendt, acredito eu, que diferenciou as revoluções de acordo com o fato de elas buscarem liberdade ou virtude – e portanto, trabalho. Talvez devêssemos também reconhecer que revoluções ou objetivos de libertação – obscuramente – ao descobrir ou redescobrir a beleza, que é o intangível, inominável, exceto por esta palavra. Mas não, por outro lado: vamos traduzir a beleza como um riso insolente estimulado por um passado infeliz, sistemas e homens responsáveis por tristeza e vergonha, e acima de tudo um riso insolente que nos conscientiza de que, livre da vergonha, o desenvolvimento é fácil. Mas nesta página nós devemos também abordar a seguinte questão: a revolução é uma revolução quando ela não remove dos rostos e corpos a pele morta que os tornava feios? Eu não estou falando da beleza acadêmica, mas sobre a intangível – inominável – alegria de corpos, rostos, gritos, palavras que não mais estão tristes, eu me refiro à alegria sensual tão forte que persegue todo erotismo.
* * *
Aqui estou eu novamente em Ajloun, na Jordânia, em seguida em Irbid. Remover o que eu acredito é como tirar um fio de cabelo branco de meu suéter e colocá-lo sobre as pernas de Hamza, sentado próximo a mim. Ele retira o fio com seu polegar e dedo indicador, olha para ele, sorri, o coloca dentro do bolso de sua jaqueta preta, e lhe dá um tapinha dizendo: – "Um cabelo da barba do profeta vale menos do que este". Ele respira profundamente e recomeça: – "Um cabelo da barba do profeta não vale mais do que este". Ele tinha apenas vinte e dois anos de idade, mas seus pensamentos superavam facilmente o de palestinos de quarenta, mas ele já carregava os sinais – em si mesmo, em seu corpo, em suas ações – que estavam ligados aos mais velhos.
Nos tempos antigos os fazendeiros costumavam limpar o nariz com seus dedos. Depois eles atiravam a meleca com o polegar no meio de espinheiros. Eles limpavam o nariz em suas luvas de veludo, que ao final de um mês estava coberta com um verniz perolado. Assim também faziam os fedayin. Eles limpavam o nariz do mesmo jeito que os nobres e clérigos cheiravam rapé: levemente encurvados para a frente. Eu fiz a mesma coisa, assim eles me ensinaram sem se dar conta.
E as mulheres? Noite e dia elas bordavam as sete vestes (um para cada dia da semana) do enxoval de noivado oferecido por um marido geralmente mais velho escolhido pela família, despertar doloroso. As garotas palestinas ficam lindas quando elas se revoltam contra seus pais e quebram as agulhas e tesouras de bordar. Isto acontecia nas montanhas de Ajloun, Salt e Irbid, nas mesmas florestas em que a sensualidade havia descido, liberta pela revolução e pelas armas, não nos esqueçamos das armas. Isto era suficiente, todos estavam felizes. Sem se darem conta, os fedayin – seria verdade? – estavam aperfeiçoando uma nova beleza: a vivacidade de suas ações e sua clara fadiga, a rapidez e o brilho de seus olhos, o som claro de uma voz harmonizada com a agilidade e brevidade da resposta. Com sua precisão também. Eles acabaram com as frases longas, retórica aprendida e improvisada.
Muitos morreram em Chatila, e minha amizade, meu afeto por seus corpos apodrecidos também era imenso, porque eu os havia conhecido. Inchaço negro, apodrecido pelo sol e pela morte, eles ainda eram fedayin.
Por volta das duas horas da tarde no domingo três soldados do exército libanês me levaram, sob a mira de armas, até um carro onde um oficial estava cochilando. Eu lhe perguntei: – "Você fala francês?" – "Inglês". A voz era seca, talvez pelo fato de eu tê-lo acordado para começar. Ele olhou meu passaporte, e me disse, em francês:
– "Você só esteve lá?" Ele apontou para Chatila.
– "Sim".
– "E você viu?"
– "Sim".
– "Você vai escrever sobre isto?"
– "Sim".
Ele me devolveu o passaporte. Ele deu um sinal para me deixarem ir. Os três rifles se abaixaram.
Eu havia passado quatro horas em Chatila. Cerca de quarenta corpos permaneciam em minha memória. Todos eles – e eu quero dizer todos – haviam sido torturados, provavelmente com um pano de fundo de embriaguez, música, riso, o cheiro de pólvora e de carne começando a apodrecer. Provavelmente eu estava sozinho, eu quero dizer o único europeu (com algumas poucas velhas palestinas que ainda apegavam-se a rasgar panos brancos; com alguns fedayin jovens desarmados), mas se estes cinco ou seis seres humanos não estivessem lá e eu tivesses descoberto esta cidade massacrada, com palestinos negros e inchados estendidos por lá, eu teria ficado louco. Teria?
Esta cidade feita em pedaços que eu vi ou pensei ter visto, pela qual eu caminhei, cai, e cujo cheiro de morte eu vesti, tudo isto havia acontecido? Eu havia explorado, muito pouco, apenas um vigésimo de Chatila e Sabra, nada de Bir Hassan, nada de Bourj al-Barajneh. E não era por causa das minhas inclinações pelo período que passei minha vida na Jordânia como se fosse um conto de fadas. Europeus e árabes norte-africanos me disseram sobre um feitiço que os mantinha lá. Como eu vivi durante este espaço longo de seis meses, pobremente colorido por noites de doze ou treze horas, eu descobri o aspecto etéreo do que estava acontecendo, a qualidade excepcional dos fedayin, mas eu tinha a premonição da fragilidade desta estrutura. Por todos os lugares na Jordânia onde o exército palestino se amontoava, próximo ao Rio Jordão, existia barreiras onde os fedayin estavam tão certos de seus direitos e de seu poder que a chegada de um visitante, fosse noite ou fosse dia, em uma das barreiras, era um pretexto para um chá, para uma conversa misturada com explosões de riso e de beijos fraternos (alguém que eles abraçavam estaria partindo à noite, atravessando o Rio Jordão para instalar bombas na Palestina e frequentemente não retornaria). As únicas ilhas de silêncio eram as vilas jordanianas; elas mantinham suas bocas fechadas. Todos os fedayin pareciam caminhar levemente acima do solo, com o efeito leve de um copo de vinho ou levados por um pouco de haxixe. O que era isto? Juventude, esquecimento da morte e com armas tchecas e chinesas para dar tiros para o ar. Protegidos por armas que falavam alto, os fedayin não tinham medo de nada.
Qualquer leitor que tenha visto um mapa da Palestina e da Jordânia sabe que a terra não é como uma folha de papel. Ao longo do Rio Jordão a terra é em alto relevo. Esta aventura toda deveria ter sido intitulada de Sonho de uma noite de verão apesar das discussões entre líderes de quarenta anos de idade. Tudo isto era possível por causa da juventude, o prazer de estar sob as árvores, de brincar com as armas, de estar distante das mulheres, em outras palavras, de conjurar um problema para longe, de ser o mais brilhante e o mais avançado ponto da revolução, de ter a aprovação da população dos campos, ou ser fotogênico sem se importar para que, e talvez por prever que este conto de fadas revolucionário pode ser contaminado em breve: os fedayin não querem poder; eles possuem liberdade.
No aeroporto de Damasco em minha viagem voltando de Beirute eu encontrei alguns jovens fedayin que haviam escapado do inferno israelense. Eles tinham dezesseis ou dezessete anos. Eles estavam rindo; eles eram como aqueles em Ajloun. Eles irão morrer assim como aqueles. A luta por um país pode preencher uma vida muito rica, porém curta. Esta era a escolha, como podemos nos lembrar, de Aquiles na Ilíada.





Texto em inglês: http://www.abbc.net/solus/JGchatilaEngl.html em 31 de março de 2013.
Texto em francês: http://www.legrandsoir.info/quatre-heures-a-chatila.html em 1 de abril de 2013.




Glossário das pessoas, povos, e lugares citados no texto:

Abraão: é o primeiro patriarca bíblico. Sobre sua história se desenvolveram três vertentes religiosas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo; que são responsáveis por disputas religiosas milenares. É com Abraão que se estabelece o mito do “povo escolhido”. Abraão, segundo a Bíblia, teve um filho, Isaque, aos 100 anos de idade, cuja vida é pedida por Deus em holocausto como prova de sua fé. Abraão não relutou em sacar uma adaga para provar que sua fé estava acima da vida de seu próprio filho. Mas Deus o poupou de tal barbaridade. No último instante ordenou que um anjo segura-se sua mão, e como recompensa por sua obediência cega prometeu-lhe uma linhagem numerosa que governaria toda a terra, em detrimento de todo o resto de sua criação. [Me desculpem, não resisti ao crime da parcialidade na descrição deste verbete. Prometo não cometer o mesmo crime nos demais.]
Ajloun: cidade montanhosa no norte da Jordânia.
Akka: nome de um hospital localizado próximo a uma das entradas do campo de Chatila. O termo Akka significa “irmã mais velha” e é usado como um título honorífico.
Amman: capital da Jordânia.
Arafat, Yasser: líder palestino, foi presidente da OLP e da Fatah (maior facção dentro da OLP).
Argélia: país no norte da África. Começou a ser dominado pela França em 1830. Depois de 1947 começou uma luta por sua independência que vai culminar em uma guerra até que sua independência seja reconhecida em 1962.
Aures: um grande território montanhoso no leste da Argélia.
Balfour, Arthur (Lord): primeiro-ministro do Reino Unido em 1902-1905, e ministro das Relações Exteriores em 1916-1919.
Baq: nome de um campo de refugiados ao lado de Jerash, não encontrei um significado para esta palavra.
Bashir Gemayel (Bashir): presidente do Líbano, eleito em 1982 e assassinado dias antes de assumir o poder.
Beirute (Ocidental): capital do Líbano.
Bir Hassan: um dos vários campos de refugiados existentes no Líbano neste momento.
Bourj al-Barajneh: outro campo de refugiados no sul de Beirute, considerado o mais antigo.
Chatila: é o campo de refugiados criado pela ONU em Beirute, no qual Jean Genet conseguiu entrar logo após o massacre ocorrido em 1982.
Damasco: capital da Síria, conhecida como “cidade do jardim”.
Darna: não consegui encontrar o motivo pelo qual as mulheres palestinas diziam esta palavra. Apenas descobri que este é também o nome é uma super-heroína, que lembra muito a Mulher Maravilha, criada pelo filipino Mars Ravelo. Mas mesmo na origem do nome desta super-heroína eu não encontrei um motivo para o nome. Mas deve existir. Se alguém conhecer, por favor, agradeço se puder contribuir com a informação.
Falangistas: também chama de Kataeb, foi a mais poderosa milícia cristã da guerra do Líbano, liderada por Bahir Gemayel.
Fedayin: no ocidente esta palavra é usada tanto para designar um único indivíduo como um grupo [no texto de Genet aparece o termo fedai para um único indivíduo]. Em uma tradução livre pode ser “devoto”, “mártir”, ou “aquele que se redime pelo sacrifício”. É usado para designar diversos grupos no mundo árabe em diferentes momentos históricos.
Gouraud, Henri: general francês, serviu como representante do governo francês no Oriente Médio. Sob seu comando o exército francês derrubou diversos movimentos revolucionários, ocupou Damasco e acabou com as forças da Revolução Síria em 1920, cujos territórios foram reorganizados diversas vezes através de seus decretos. Atribuem a ele a cena de subir no túmulo de Saladino (o maior líder árabe das cruzadas, que governou Jerusalém) e dito: “As Cruzadas acabam agora! Acorde Saladino, nós voltamos! Minha presença aqui consagra a vitória da Cruz sobre a Lua Crescente.”
Haddad (haddadaistas): Major Saad Haddad, comandante de um batalhão do exército no sul do Líbano, rompeu com o exército e criou um grupo conhecido como Exército Líbano do Líbano, constituído essencialmente por cristãos. Em 1980 o grupo foi renomeado como Exército do Sul do Líbano (ESL).
Hamra: uma das ruas principais de Beirute.
Hebron: cidade histórica na Cisjordânia, sob ocupação de Israel. Situada na antiga Judeia, abriga os túmulos de Abraão, Isaac e Jacó. Foi a cidade onde Davi fui ungido rei dos judeus e onde reinou por mais de sete anos.
Irbid: cidade que era conhecida antigamente como Arabella ou Arbela, é a segunda maior cidade na Jordânia, depois de Amman. Nesta cidade estão localizadas diversas faculdades e universidades.
Jebel Hussein (Jebel): bairro de Amman, capital da Jordânia.
Jerash: cidade no norte da Jordânia, onde se encontra os sítios arqueológicos de Gerasa, cidade greco-romana.
Jordânia: é um país no meio do Oriente Médio, limitado ao norte pela Síria, a leste pelo Iraque, a leste e ao sul pela Arábia Saudita, e a oeste por Israel e pelo território palestino da Cisjordânia, e também pelo Golfo de Aqaba através do qual faz fronteira marítima com o Egito.
Josué: sucessor do profeta Moisés. Foi ajudante de Moisés durante a fuga dos judeus do Egito e durante sua peregrinação de 40 anos pelo deserto. Foi Josué que conduziu os judeus à “terra prometida”, e liderou a luta pela conquista das cidades-estados da terra de Canaã.
Kataeb: ver “falangistas”.
Knesset: parlamento de Israel.
Kuwait: é um emirado árabe soberano situado no nordeste da Península Arábica, a noroeste do Golfo Pérsico. Este nome significa “fortaleza construída perto da água”.
Líbano: oficialmente República do Líbano, é um país na costa oriental do Mar Mediterrâneo. Faz fronteira ao norte e a leste com a Síria e ao sul com Israel.
Likud: partido político de Israel que congrega a direita conservadora. Seu significado em hebraico é “união”. Ariel Sharon e Benjamin Netanyahu foram primeiro-ministros de Israel membros deste partido.
Menachem Begin (Begin): foi o sexto primeiro-ministro de Israel. Chegou a dividir o Prêmio Nobel da Paz em 1978 com o presidente do Egito Muhammad Anwar al-Sadat por terem negociado os Acordos de Camp David, pelo qual Egito e Israel se comprometiam a negociar e assinar um tratado de paz. Mas também foi responsável por várias atrocidades, entre elas o atentado do Hotel King David que fez 91 mortos em Jerusalém. Fundou o partido político Herut que mais tarde se tornaria o partido dominante na coligação Likud, o qual foi acusado por Einstein e Hannah Arendt de ter “um parentesco muito estreito com os partidos nazi e fascistas”. Em 1982 decidiu a invasão do sul do Líbano conforme citado no texto de Genet.
Merkava: principal tanque das Forças de Defesa de Israel. Com blindagem pesada e com a possibilidade de transportar um pequeno grupo de infantaria, com um acesso ao veículo através de uma porta traseira pois seu motor fica na parte da frente do veículo, não sendo necessário utilizar os acessos da torre onde ficariam mais expostos.
Mitterrand, François: foi presidente da França por 14 anos (1981-1995), oriundo do Partido Socialista.
Murabitoun: membros do movimento independente nasserista, referente ao presidente egípcio Nasser.
OLP: Organização para Libertação da Palestina, organização política e paramilitar [que possui as características de uma força militar, mas não subordinada a forças militares ou policiais de um país] tida pela Liga Árabe como a “única representante legítima do povo palestino”.
Perini: não consegui identificar quem é este Perini que Genet cita. É um sobrenome muito comum. Quem saiba de quem se trata, aceito contribuição para complementar esta informação. Acredito ser algum representante italiano entre os que asseguraram que a população civil nos campos estaria a salvo, mas diferente da França e dos Estados Unidos, citados na frase, este era o presidente italiano.
Pigalle: é uma região de prostituição em Paris, onde estão localizados os cabarés mais famosos, como o Moulin Rouge.
Ras Beirut: região rica de Beirute.
Reagan, Ronald: presidente dos Estados Unidos em 1981-1989.
Sabra: o outro campo de refugiados que foi alvo do massacre junto com o campo de Chatila. Seu nome refere-se a um cacto conhecido como pêra espinhosa, de pele grossa mas que possui uma polpa doce e suave.
Shatfla: outro campo de refugiados.
Síria: oficialmente República Árabe Síria, faz fronteira com o Líbano e o Mar Mediterrâneo a oeste, Israel no sudoeste, Jordânia no sul, Iraque ao leste e Turquia ao norte. Tem uma história muito antiga, mas o estado moderno foi criado como um mandato francês, e teve sua independência em 1946, como uma república parlamentar.
Shamir, Yitzhak: influente político israelense, foi primeiro-ministro em 1983-1984 e 1986-1992, ativista sionista (movimento que apoia a criação do Estado Nacional Judeu) e atuou no Mossad (serviço de inteligência israelense) em 1955-1965.
Sharon, Ariel: considerado o maior general de campo na história de Israel, era Ministro da Defesa durante a Guerra do Líbano em 1982. Depois que se aposentou do exército, ingressou no Linkud e foi primeiro-ministro de Israel em 2001-2006.
Tsahal: força de defesa israelense.
Tziganes: ciganos húngaros.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Entre amigos - um epílogo.

Entre amigos - um epílogo.
In: Humano, demasiado humano. p. 309.

1.
É belo guardar silêncio juntos
Ainda mais belo sorrir juntos -
Sob a tenda do céu de seda
Encostado ao musgo da faia
Dar boas risadas com os amigos
Os dentes brancos mostrando.

Se fiz bem, vamos manter silêncio
Se fiz mal - vamos rir então
E fazer sempre pior
Fazendo pior, rindo mais alto
Até descermos à cova.

Amigos! Assim deve ser? -
Amém! E até mais ver!

2.
Sem desculpas! Sem perdão!
Vocês contentes, de coração livre,
Queiram dar, a este livro irrazoável,
Ouvido, coração e abrigo!
Creiam, amigos, a minha desrazão
Não foi para mim uma maldição!

O que eu acho, o que eu busco -
Já se encontrou em algum livro?
Queiram honrar em mim os tolos!
E aprender, com este livro insano,
Como a razão chegou - "à razão"!

Então, amigos, assim deve ser?
Amém! e até mais ver!

domingo, 17 de julho de 2011

Tolstoi: Anarquista? Cristão!

Não pensem que abandonei meus estudos sobre Anarquia, muito pelo contrário, minhas ideias estão mais acraciadas do que nunca.

Quando falo sobre Clarice Lispector, não estou distante da anarquia. Clarice foi uma escritora que não se vinculou a qualquer tradição literária, embora muitos estudiosos tentem enquadrá-la através de suas críticas e análises. Eu prefiro sintetizar suas obras, acrescentar a elas minhas leituras e interpretações. Ao começar a tentar escrever um ensaio sobre ela encontrei mais de 430 trabalhos acadêmicos já “defendidos” no site da CAPES. Clarice foi analisada por estudiosos das mais diversas áreas, em seus aspectos não apenas literários, mas também filosóficos e místicos, ou qualquer outra faceta que se queira observar. Vale lembrar que o conto “O ovo e a galinha” foi apresentado pela própria autora no primeiro Congresso Mundial de Bruxaria. É preciso dizer algo mais?

Mas o assunto desta postagem é outro grande escritor: Leon Tolstoi.
Tolstoi é mundialmente famoso por seus romances: Guerra e Paz publicado em 1868 e Anna Karienina publicado em 1875. Mas vamos falar aqui do segundo período da vida deste escritor; após uma violenta crise espiritual pela qual passou ao completar 50 anos (1878) e que é apresentada no livro Minha Confissão de 1882. Poucas pessoas sabem sobre seus debates com filósofos e teólogos da época, e que é no meio do povo pobre que ele dá-se conta do que é na verdade a fé para essa gente; que a fé não é um assunto de conversas inconsequentes, mas uma questão vital, e é isso que provoca sua “conversão”.

O Reino de Deus está em Vós é considerada a obra máxima de Tolstoi deste período e lhe tomou três anos para completá-la (1890-1893), justamente no momento em que ele chegava ao cume de sua maturidade intelectual – 65 anos de idade. A dificuldade na execução desta obra não está apenas no tema abordado, mas também no fato de ter que andar por toda a parte organizando refeitórios populares para ajudar os pobres a vencer a terrível crise de 1891, o que mostra seu verdadeiro comprometimento com suas ideias.

Apesar de atualmente esta obra ser praticamente ignorada, logo após sua publicação ela foi traduzida nas principais línguas europeias e um de seus leitores mais notórios foi Gandhi, que leu o trabalho em inglês em 1894. Gandhi se encontrava então em uma crise de ceticismo e dúvida e, como ele mesmo conta; “a leitura do livro me curou do ceticismo e fez de mim um firme seguidor da ahimsa”.
A-himsa é o pensamento puro da Índia, inspirado pelo amor universal. Himsa significa querer matar, querer prejudicar. A-himsa é a renúncia de toda intenção de morte ou dano ocasionado pela violência. Gandhi leva este livro consigo para a prisão em 1908 e declara que Tolstoi era o “maior apóstolo da não-violência” e o homem “mais autêntico de seu tempo”.
Depois das primeiras reações contraditórias – aplausos de um lado e vetado pelo regime czarista, além de seu autor ter sido excomungado pela igreja ortodoxa, pois Tolstoi recusa radicalmente as ideias de Estado e de Igreja, considerando estas duas instituições como essencialmente opressoras do povo – a opinião pública internacional relegou esta obra ao esquecimento. Entre nós, mais que de esquecimento, devemos falar mesmo de falta de conhecimento, pois conhecemos apenas o Tolstoi romancista, contista ou novelista.

O que Tolstoi sustenta em todo o livro é a validade social do preceito de Cristo no Sermão da Montanha: “Não resistais ao mal” (Mateus 5:39). O sentido que Tolstoi defende é: não resistais ao mal com o mal, ou seja, não responder à violência com a violência, ele não aceita a máxima jurídica comumente aceita: vim vi repellere (repelir violência com violência). A violência jamais pode ser legitimada apelando para o direito de “legitima defesa”, porque a violência é sempre um mal, e não se pode responder ao mal com o mal, e isso vale tanto para o cristão como para um cidadão qualquer.

Mas também não se trata de o indivíduo permanecer passivo frente ao mal ou à violência, mas de responder a ela pela não-violência: a bondade, a mansidão e a caridade. Os preceitos do Sermão da Montanha, no caso a não-violência, são realmente imperativos. Não se trata de leis morais ou regras jurídicas fixas que devam ser aplicadas mecanicamente. São indicações de um ideal, apelos éticos, “via de perfeição infinita”. São exigências morais absolutas, que têm a força de pôr em movimento a relatividade do agir humano concreto. Têm um caráter assintótico: aproximam da perfeição divina, sem nunca chegar a atingi-la, mas movem a vontade naquela direção. Manifestam a essência da alma humana, e por isso vale para cada um e para toda sociedade. Tolstoi usa uma bela comparação com um barqueiro, que, para chegar à outra margem de um rio rápido, não pode se dirigir em linha reta, mas deve remar contra a corrente.

A não-violência tolstoiana se exprime na não-cooperação, na desobediência civil e particularmente no repúdio ativo a toda a servilidade. Tolstoi sabe que o poder se alimenta da aceitação e do consenso; pior: da obediência cega e da submissão. A ética de Tolstoi é radicalmente libertária; a liberdade é um atributo inalienável e definitório do ser humano. Para isso apresenta no frontispício do livro, uma citação de Paulo na I carta aos Coríntios 7:23: “Não vos torneis servos dos homens”. Também não acredita nos efeitos libertadores de uma revolução violenta, mesmo de tipo popular. Considera politicamente inviável devido à complexidade e a potência do Estado moderno; e ineficaz, pois instaura uma opressão mais cruel que a anterior, como se verificou no regime de Goulag.

Pode-se afirmar um amadurecimento da consciência moral da humanidade, porque a violência se mostra cada vez mais ineficaz para resolver os conflitos sociais, tanto no interior das nações como nas relações internacionais. Retomando uma distinção de Kant, é possível constatar certo progresso em termos de legalidade (no nível dos princípios), embora não necessariamente em termos da moralidade (no nível das práticas). Frente à complexidade dos Estados e das sociedades modernas, a violência não funciona mais.

A defesa intransigente da não-violência vai junto com a deslegitimização do Estado, que para Tolstoi é a violência encarnada; não só um Estado autocrático, mas todo Estado, inclusive o democrático, onde a violência apenas deixaria de ser concentrada para ser mais difusa.
Para Tolstoi o exército existe para subjugar o povo em benefício de uma minoria, é o sustentáculo da tirania, sua função é matar. Sendo a vida um valor absoluto, não existem mortes legítimas, por isso, mandando matar, o exército transforma o soldado em um carrasco. Assim, o serviço militar deve ser condenado sem remissão pois trata-se nada menos do que uma preparação ou exercício para o assassinato, é uma forma especiosa de autotirania. Tolstoi chega a prever profeticamente o horror de um conflito mundial, que efetivamente irrompeu com a Primeira Grande Guerra.

A igreja é outro sustentáculo da violência paraTolstoi, não apenas esta ou aquela igreja concreta, mas a ideia mesma de igreja. As igrejas seriam fundamentalmente anticristãs, e se nelas se encontram pessoas boas, isso se deveria à própria virtude dessas pessoas e não à sua pertença à igreja. Todo o rico sistema simbólico da igreja é atacado como meio para “hipnotizar”, impressionar e adormecer a consciência do povo. As igrejas têm que escolher entre o Evangelho e o Dogma. Está convencido de que chegou a hora de entender e assimilar o cristianismo em sua forma pura, porque até hoje os cristãos não teriam compreendido sua verdadeira essência.

Tolstoi seria, por tudo isso, um anarquista? Ele confessa: “Não sou anarquista, sou cristão.” Acrescenta que os adeptos da não-violência são muito mais perigosos para o Estado do que quaisquer pretensos revolucionários, sejam socialistas, comunistas ou anarquistas. Pois o Estado sabe muito bem tratar com estes, que jogam pelas mesmas regras, mas já não sabe como se haver com os adeptos da não-violência, que se situam num campo onde o Estado já está de antemão derrotado.

Infelizmente, até mesmo as ideias de Tolstoi foram transformadas em dogmas e utilizadas de forma humana para exercício de controle e poder por seus seguidores; nada de novo na história do homem sobre a Terra. Para os que não gostam de ler, existe um excelente filme: A Última Estação, que traça os últimos momentos da vida deste grande escritor e filósofo, ilustrando não apenas suas ideias, mas também os conflitos e sofrimentos gerados por seus seguidores.

Pode-se então perguntar se esta visão é realista, se não é meramente utópica. Existem conflitos na sociedade e é preciso manter certa ordem social. Tolstoi acha que para isso não se precisa de um Estado, mas de uma sociedade civil madura, acredita na força da consciência moral, que chama de “opinião pública”. Mesmo assim, pode-se perguntar se e possível algum dia na sociedade prescindir de um órgão central de coordenação e direção, especialmente para as nossas sociedades complexas. Todavia, da provocação de Tolstoi podemos extrair seu núcleo positivo: Não se trata de o Estado se ocupar cada vez mais da “administração das coisas” e cada vez menos do “governo dos homens”? A função “política” do Estado não deve se reduzir aos limites mínimos possíveis? Nessa linha não seria perfeitamente pensável e desejável a superação gradual do sistema repressivo-defensivo?

Enfim, segue firme meus nossos sonhos e anseios por um mundo de paz, com menos miséria e injustiça.


(PS.: este texto é um resumo da apresentação feita pelo Fr. Clodovis Boff na segunda edição de O Reino de Deus está em Vós editado pela Rosa dos Tempos em 1994.)

Para comprar: O Reino de Deus está em Vós. (edição de bolso). Best Bolso, 2011.