Durante muitos anos desenvolvi a prática de leitura do I Ching com varetas, estudando textos de C. G. Jung. A partir desta prática e dos estudos, preparei uma oficina de "Leitura do I Ching com varetas".
Meto-me dentro de mim mesmo e acho aí um mundo! (Goethe in Os sofrimentos do jovem Werther)
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terça-feira, 2 de abril de 2019
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
Independência ou dívida?
O
Brasil de fato conquistou a sua Independência pagando milhões de
libras esterlinas a Portugal numa negociação mediada pelo
Excelentíssimo Cavaleiro de Sua Majestade Britânica Sir Charles
Stuard, Grão Cruz da Ordem da Torre e Espada, em 1825.
O
Brasil comprou a sua Independência. O tratado que oficializou o ato,
chamado de reconhecimento, foi publicado em vários jornais
brasileiros, inclusive em Salvador. O Correio
da Bahia
publicou a íntegra do documento, em setembro de 1825; não fala em
valores e para isso usa do eufemismo “aceitando a mediação de sua
majestade britânica para o ajuste de toda a questão incidente à
separação dos dois estados”. A “questão incidente” era de 2
milhões de libras esterlinas, valor pago a título de indenização.
Pelo
tratado publicado no jornal baiano, em setembro de 1825, Portugal
reconhece o Brasil como país independente e “promete não aceitar
proposições de quaisquer colônias portuguesas para se reunirem ao
Império do Brasil”. O dinheiro foi tomado de empréstimo nos
bancos ingleses, mas não chegou na íntegra dos valores conveniados
aos cofres de Portugal. A operação bancária passou por Londres que
reteve 1,4 milhões de libras esterlinas, a título de pagamento da
dívida externa de Portugal para com os britânicos. Está explicado
o interesse dos britânicos em mediar o tratado.
Em 7
de setembro, D. Pedro proclamou a famosa frase: Independência
ou Morte.
Esse mote foi um impulso para a multiplicação de hinos,
representações e sentimento de amor à pátria. Porém, nesse
momento ainda não se tinha com precisão a data da independência.
Em junho havia tido a convocação da Assembleia
Constituinte
para o Reino do Brasil, em outubro se deu a aclamação
de D. Pedro I
no Rio de Janeiro e somente em dezembro é que ele foi oficialmente
coroado.
Assim, a firmação do 7
de setembro
como data oficial da Independência foi mais uma conveniência
simbólica
do processo todo.
sábado, 16 de junho de 2018
DA NECESSIDADE DE ESTUDAR HISTÓRIA
"... o estudo da história visa acima de tudo nos tornar cientes de possibilidades que talvez não levássemos em consideração. Historiadores estudam o passado não para poder repeti-lo, e sim para poder se libertar dele.
Cada um de nós e todos nós nascemos numa determinada realidade histórica, governada por normas e valores específicos e conduzida por um sistema econômico ímpar. Vemos essa realidade como fato consumado e a achamos natural, inevitável e imutável. Esquecemos que nosso mundo foi criado numa cadeia de eventos acidental e que a história configurou não apenas a tecnologia, a política e a sociedade, mas também nossos pensamentos, temores e sonhos. A mão fria do passado emerge na direção de um único futuro. Sentimos essa constrição desde o momento em que nascemos, e assim presumimos que ela é parte natural e inescapável do que somos. Portanto, raramente tentamos nos livrar dela para antever futuros alternativos.
O ESTUDO DA HISTÓRIA TEM O OBJETIVO DE NOS LIVRAR DESSA SUBMISSÃO AO PASSADO. ELE NOS PERMITE VOLTAR A CABEÇA PARA MAIS DE UMA DIREÇÃO E COMEÇAR A PERCEBER POSSIBILIDADES INIMAGINÁVEIS PARA NOSSOS ANTEPASSADOS. AO OBSERVAR A CADEIA ACIDENTAL DE EVENTOS QUE NOS TROUXE ATÉ AQUI, NOS DAMOS CONTA DE COMO NOSSOS PENSAMENTOS E SONHOS GANHARAM FORMA - E PODEMOS COMEÇAR A PENSAR E SONHAR DE MODO DIFERENTE. O ESTUDO DA HISTÓRIA NÃO DIRÁ QUAL DEVE SER NOSSA ESCOLHA, MAS AO MENOS NOS DARÁ MAIS OPÇÕES."
(HOMO DEUS, de Yuval Noah Harari, p 67)
domingo, 21 de agosto de 2016
O início de uma nova ditadura no Brasil (?)
Há algum tempo estou postando e comentando que está em curso um novo
golpe semelhante e duradouro ao que iniciou-se em 1964. É uma frase
simples e que provoca reflexão. Mas será verdadeira? Não estou
recorrendo à mesma estratégia da mídia manipuladora e dos
defensores acéfalos da elite medíocre e reacionária existente
em nosso país? Ou seja, não estou usando uma falácia poderosa para
convencer leitores menos aparelhados conceitualmente? Existe
realmente consistência crítica em minha afirmação?
Bem, como professor e estudioso de História, não posso me dar ao luxo de
garantir minha afirmação apenas baseado em minha pressuposta
experiência acadêmica e profissional. Portanto, me dispus a deixar
a preguiça de lado e comecei a ler a obra de Elio Gaspari sobre a
Ditadura Militar (seus quatro livros publicados até agora, A
Ditadura Envergonhada, A Ditadura Escancarada, A Ditadura Derrotada e a Ditadura Encurralada).
Comprei estes livros na época em que trabalhava na extinta Livraria Cultura
e tinha o privilégio de adquirir mais livros do que era capaz de ler
pois, sim, a leitura crítica exige esforço, o estudo sério exige
esforço intelectual. E vem daí a crítica aos comentaristas e
críticos sem consistência, sem formação e sem conteúdo. Repetir
frases feitas é fácil. Decorar versículos bíblicos e usá-los
como verdades absolutas é ainda mais fácil. Entender e compreender exige dedicação,
exige tempo, exige esforço.
Para minha satisfação, logo no primeiro volume, A
Ditadura Envergonhada – as ilusões armadas,
Elio Gaspari faz uma “Introdução” à sua extensa obra onde já se evidencia muito do que estou afirmando.
Não. Minha tarefa não se reduzirá à leitura de um único capítulo. Vou ler a obra toda. Se encontrar paradoxos ou
antagonismos, estou pronto a enfrentá-los, sem medo, sem preguiça.
Mas nesta pequena introdução (são apenas 20 páginas), Elio Gaspari destaca exatamente o aspecto de que comandar
uma ação não implica que o resultado esteja sob seu comando. Existir uma boa intenção ao se defender uma ideia não implica que
a realização desta ideia produza os efeitos esperados.
Assim, podemos aprender com um erro, ou repeti-lo até a morte. E o erro não
está apenas no grupo de pobres empregados que defendem a riqueza de
seus patrões. O erro está também em uma proposta de partido que se utiliza de concessões como
forma de barganha do poder para efetivar seus projetos. Junto a
forças maiores estão os interesses mesquinhos. No tabuleiro de
xadrez movimentam-se peões e rainhas, peças brancas e peças
pretas. E no tabuleiro da vida a diversidade das peças é tão
imensa quanto o número de pessoas que dela participam.
A diferença está basicamente na instituição utilizada para efetivar
o golpe nas diferentes épocas. Se em 1964 foi utilizado o poder
militar para garantir o golpe, nos dias atuais está sendo utilizado
o poder jurídico.
Enfim, não posso reproduzir aqui todas as vinte páginas da introdução da
obra, mas recortei alguns trechos que destacam a minha ideia. Se
alguém dispuser de tempo e disposição, poderá ler o capítulo
todo, até mesmo a obra toda, porque não?
(21) INTRODUÇÃO
...
(22) - Frota, nós não estamos mais nos entendendo. A sua administração no ministério não está seguindo o que combinamos. Além disso você é candidato a presidente e está em campanha. Eu não acho isso certo. Por isso preciso que você peça demissão.
(22) - Frota, nós não estamos mais nos entendendo. A sua administração no ministério não está seguindo o que combinamos. Além disso você é candidato a presidente e está em campanha. Eu não acho isso certo. Por isso preciso que você peça demissão.
- Eu não peço demissão – respondeu Frota.
- Bem, então vou demiti-lo. O cargo de ministro é meu, e não deposito
mais em você a confiança necessária para mantê-lo. Se você não
vai pedir demissão, vou exonerá-lo.
...
(33) No início da noite do dia 12 o presidente empossou o novo ministro
no palácio do Planalto, diante das principais autoridades do país.
Nessa cerimônia deu-se um rápido episódio. Durou apenas alguns
segundos, e, afora as pessoas nele envolvidas, ninguém o percebeu.
Logo que Bethlem assinou o termo de posse, o presidente da Câmara
dos Deputados, Marco Maciel, moveu-se na direção do general.
Geisel, que estava ao seu lado, supôs que o jovem deputado fosse
cumprimentar o ministro. Congelou a cena chamando Bethlem: “Ministro,
quero apresentá-lo ao presidente da Câmara”. Passaram-se anos sem
que Maciel desse importância ou buscasse explicação para a cena.
Para Geisel, tudo fora muito simples: “Não é o presidente da
Câmara quem se apresenta ao ministro (34) do Exército, mas o
ministro do Exército, um colaborador do presidente, que deve ser
apresentado ao presidente da Câmara”.
...
No dia 12 de outubro de 1977, com a demissão de Frota, dissolveu-se a
mais perversa das anomalias introduzidas pela ditadura na vida
política (35) brasileira, restabelecendo-se a autoridade
constitucional do presidente da República sobre as Forças Armadas.
Encerrou-se o ciclo aberto em 1964, no qual a figura do chefe do
governo se confundia com a de representante da vontade militar,
tornando-se ora seu delegado ora seu prisioneiro. A maioria dos
instrumentos jurídicos do regime ditatorial sobreviveria ainda por
alguns anos, mas a recuperação do poder republicano do presidente
significou a disponibilidade do caminho da redemocratização.
Paradoxalmente, essa restauração partiu não só de um presidente
militar, mas do mais marcial dos generais que ocuparam a Presidência.
Geisel restabeleceu o primado da Presidência por meio de uma crise
militar da qual manteve afastados os políticos, a imprensa e a
opinião pública. Podem-se contar nos dedos de uma só mão os civis
que tiveram algum tipo de relevo na jornada de 12 de outubro e 1977.
Nesse paradoxo, contudo, não está mais uma das charadas da vida
política do país, e sim a solução do enigma que acompanha tanto
os mecanismos pelos quais os militarem tomam o poder como aqueles
pelos quais o deixam.
...
Desde 1968, quando através da vigência do Ato Institucional nº 5 o
Brasil entrara no mais longo período ditatorial de sua história,
dois presidentes prometeram restaurar as franquias democráticas.
Geisel, o único a não fazer essa promessa, acabou com a ditadura.
Entre 1974, ao assumir o governo, e 1979, ao deixá-lo, transformou
uma Presidência inerte, entregue a um colegiado de superministros,
num governo imperial. Converteu uma ditadura amorfa, sujeita a
períodos de anarquia militar, num regime de poder pessoal, e quando
consolidou esse poder – ao longo de um processo que culmina no dia
12 de outubro de 1977 – desmantelou o regime. Quando assumiu, havia
uma ditadura sem ditador. No fim de seu governo, havia um ditador sem
ditadura. No dia 31 de dezembro de 1978, 74 dias antes da conclusão
de seu mandato, acabou-se o Ato Institucional (36) nº 5, o
instrumento jurídico que vigorava por dez anos, por meio do qual o
presidente podia fechar o Congresso, cassar mandatos parlamentares e
governar por decretos uma sociedade onde não havia direito a habeas
corpus em casos de crimes contra a segurança nacional. Antes,
acabara com a censura à imprensa e com a tortura de presos
políticos, pilares dor regime desde 1968.
O objetivo desta obra é contar por que e como Geisel e Golbery, dois
militares que estiveram na origem da conspiração de 1964 e no
centro do primeiro governo constituído após sua vitória,
retornaram ao poder dez anos depois, com o propósito de desmontar a
ditadura. Geisel era um moralista, defensor convicto de um Executivo
forte, adversário do sufrágio universal como forma de escolha de
governantes e crítico acerbo do Parlamento como instituição
eficaz. Golbery, que em 1956 – em pleno governo constitucional –
pedia a criação de um Serviço Nacional de Informações, fundou-o
em 64 e dirigiu-o até 67. Conviveu com ele a partir de 1974, ajudou
a transformar o seu chefe, general João Baptista Figueiredo, em
presidente da República e, em 81, chamou sua criatura de “monstro”.
Deixou o governo amaldiçoando o que se denominava Comunidade de
Informações: “Vocês pensam que vão controlar o país cometendo
crimes e encobrindo seus autores, mas estão muito enganados. Vão
ser postos daqui para fora, com um pé na bunda”, disse Golbery ao
general Octavio Aguiar de Medeiros, chefe do SNI, no dia em que saiu
do palácio do Planalto, em agosto de 1981.
...
(37) O Sacerdote e o Feiticeiro acreditavam no Brasil e nele mandaram como poucas pessoas o fizeram.
Suas trajetórias ensinam como é fácil chegar a uma ditadura e como
é difícil sair dela.
(38) … No poder, os generais raramente contam as maquinações políticas
de que participam. …
O mais caudaloso dos generais que tomaram o poder no século XX,
Charles de Gaulle, escreveu cinco volumes de memórias… Quando se
trata de procurar os mecanismos políticos a que recorreu para
desmontar a associação dos militares com a extrema direita, a
repressão política e o colonialismo na Argélia, tudo somado não
junta dez páginas.
É possível arriscar uma explicação para esse fenômeno. Os militares
procuram preservar a própria mística segundo a qual, em quase todos
os idiomas, as Forças Armadas, por suas virtudes, colocam-se acima
dos partidos e da política civis. …
Se há uma grande diferença entre a política dos civis e a dos
militares, ela está no fato de que esta envolve uma corporação
burocrática fechada que precisa acima de tudo preservar alguma forma
de coesão. … (39) Prefeitos e médicos podem brigar abertamente.
Ambos podem mudar de partido, de hospital e, até mesmo, deixar a
política ou a medicina. Os militares não podem fazer isso com a
mesma facilidade, pois um capitão-de-fragata não pode trocar de
Marinha nem um major de cavalaria, de Exército. Permanecendo na
corporação, convivem com a mesma geração de colegas, respeitando
praticamente a mesma hierarquia ao longo de todas as suas vidas. …
Jamais se esquecem, por exemplo, os apelidos da juventude, ganhos no
tempo das escolas militares. Para um aspirante dos anos 30, o Brasil
foi presidido de 1964 a 1985 por Tamanco, Português, Milito, Alemão e Figa.
O silêncio dos generais foi compensado pela utilização maciça de
conceitos teóricos. Com isso, frequentemente misturaram-se ideias
brilhantes e preconceitos, dando-se força de dogma a algumas
racionalizações que, no máximo, seriam bons instrumentos de
especulação. Para explicar a brutalização da política,
recorreu-se demais ao que se chama de Doutrina da Segurança Nacional
ou, na sua denominação crítica, Ideologia da Segurança Nacional. …
...
(41) Para quem quiser cortar caminho na busca do motivo por que Geisel e
Golbery desmontaram a ditadura, a resposta é simples: porque o
regime militar, outorgando-se o monopólio da ordem, era uma grande
bagunça.
Como ela tomou conta do país e como a desmancharam é uma história mais
comprida. Começa na noite de 30 de março de 1964, quando a
democracia brasileira tomou o caminho da breca.
Gaspari, Elio. A Ditadura Envergonhada – as ilusões armadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
domingo, 7 de agosto de 2016
Quando a emenda saiu pior que o soneto
Diz-se
que a expressão “a emenda saiu pior que o soneto” envolve um jovem
aspirante a escritor e Bocage. Em uma ocasião, o jovem solicitou a
Bocage que fizesse anotações em um de seus sonetos, assinalando os
erros. Futuramente, Bocage devolveu o soneto sem nenhuma anotação sob a
justificativa de que seriam tantas as correções que “ e emenda ficaria
pior que o soneto”, consolidando a expressão que se transformou em
ditado popular.
Todos
já tivemos nossos sonetos. Aqueles em que as emendas se tornam bola de
neve e que nos mostram que o quanto antes voltarmos atrás melhor será.
Não é verdade?
Hoje
nosso principal soneto ruim é o intento golpista de Temer e que
sabemos, ele não pretende abandoná-lo. Sabemos que mesmo que um surto de
grandeza ocorresse, isso não seria possível pela quantidade de acordos
escusos com o qual já se comprometera
Assumir
a peripécia antidemocrática mesmo que sem volta é, contudo, ainda
melhor que qualquer tentativa de reparação ou legitimação como as que
vem ocorrendo de maneira descarada. As tentativas de esconder seu nome
em eventos, bloqueios de perfil no facebook, e a massiva tentativa de
conter vaias e manifestações contrárias são exemplos de emendas que
tornam seu péssimo soneto muitas vezes pior que o original.
As
respostas são piadas das mais diversas, memes de internet, vídeos
documentando a truculência da polícia retirando inofensivos cartazes de
“FORA TEMER” e o aumento do número de descontentes documentados com uma
riqueza sem precedentes na história.
Assim,
o soneto do jovem escritor e a tentativa de golpe tem algo em comum:
ambos tomarão o mundo e continuarão marcados na história. A diferença
reside no fato do jovem escritor ter ficado anônimo e de que Temer
carregará a alcunha de golpista por toda a sua vida e futuras gerações.
por Alexandre Carrasco (https://medium.com/@alexandrecarrasco/quando-a-emenda-saiu-pior-que-o-soneto-652ba1c74ff4#.xq0dhvgzo)
Bolsonaro não é homofóbico (?)
*Arquivo de provas*
Estímulo à violência contra homossexuais
"Não vou combater nem discriminar, mas, se eu vir dois homens se
beijando na rua, vou bater", disse Bolsonaro depois que FHC posou com a
bandeira gay em 2002. (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1905200210.htm)
Bater em filho gay
Em um debate na TV Câmara, em 2010, ele sugeriu que a melhor forma de
corrigir a homossexualidade seria através da violência. “O filho começa a
ficar assim, meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento dele.
Olha, eu vejo muita gente por aí dizendo: ainda bem que eu levei umas
palmadas, meu pai me ensinou a ser homem. A gente precisa agir”, afirmou
ele que repetiu a declaração várias vezes. Foi baseada nessa declaração
que Ellen Page o questionou na entrevista. (https://www.youtube.com/watch?v=JZtaYvzzeTQ e https://www.youtube.com/watch?v=YVq4qYWnOZY)
Pouca vergonha
Em entrevista ao programa de humoristas do CQC, ele deu diversas
declarações homofóbicas e racistas. Inclusive, foi condenado a pagar
R$150 mil reais por essas declarações. Ele declarou que seus filhos
nunca seriam gays porque foram bem educados, sugerindo que a
homossexualidade é um comportamento ruim e um mau costume." (https://www.youtube.com/watch?v=HyaqwdYOzQk)
Parente gay não frequentaria a sua casa
“Gostaria de saber qual seria a sua reação se alguém de sua família
decidisse abertamente pela homossexualidade”, sugeriu a pergunta um
internauta... Jair Bolsonaro respondeu: “Seria problema dele. Se essa
fosse sua opção para ser feliz não estaria (nem poderia) ser proibido
por mim mas, certamente, não iria me convencer a frequentar minha casa”.
http://revistaepoca.globo.com/…/…/0,,EMI245890-15223,00.htmlO valor do gay na sociedade?
“O que esse pessoal tem para oferecer para a sociedade? Casamento gay?
Adoção de filhos? Dizer que se seus jovens, um dia, forem ter um filho,
que se for gay é legal? Esse pessoal não tem nada a oferecer.” (http://g1.globo.com/…/n…/2011/03/estou-me-lixando-para-esse-...)
Não sou homofóbico
"Não tenho nada a ver. Cada um faz o que quer com seu corpinho cabeludo
entre quatro paredes. O que eles têm para me oferecer não interessa.
Agora, eu não quero que o público LGBT crie currículo para as escolas
públicas de primeiro grau." http://g1.globo.com/…/n…/2011/03/estou-me-lixando-para-esse-...
Direito da maioria
Em entrevista, ele compara gays a pedófilos e diz que a minoria deve
ser calar. “Que respeitar homossexual. Eles que tem que nos respeitar”. (https://www.youtube.com/watch?v=mdUSEQw-SxI e https://www.youtube.com/watch?v=HGhLceaxCjE)
Sangue gay
Bolsonaro polemizou em 2011 sobre doação de sangue dizendo que
hospitais deveriam separar sangues de gays e homos para transfusões.
Para ele, sangue de gays tem 17 vezes mais risco de transmitir a Aids,
mas deu a entender que não queria receber sangue de um homossexual.
Usando os riscos acrescidos de gays se infectarem com o HIV sexualmente,
ele deturpou a informação e abriu uma campanha por uma lei para separar
os sangues, que acabou abandonada. "O sangue de um homossexual pode
contaminar o sangue de um heterossexual". (https://www.youtube.com/watch?v=Z1oGuNkGV2g)
Órgão excretor
O Deputado Federal usou sua boca para vomitar baboseiras em resposta
contra o projeto de lei que defende punições contra ações homofóbicas.
Ele diz que não dá para saber que uma pessoa é gay, transexual, lésbica
ou travesti antes de agredi-la e que só porque uma pessoa faz sexo com o
órgão excretor (antes mesmo de Levy Fidelix usar o termo e chocar o
país no debate eleitoral de 2014), não merece uma lei de proteção. (https://www.youtube.com/watch?v=adtWbjpjjeg)
Preconceituoso com Orgulho
Em uma entrevista concedida aos leitores da Revista Época, Bolsonaro afirmou: “Sou preconceituoso, com muito orgulho”.
Gays são pedófilos
No programa do Danillo Gentile, ele fala, a partir dos 17m10, sobre seu
posicionamento contra os homossexuais. “90% dos adotados vão ser
homossexuais e vão ser garotos de programa deste casal” (referindo-se
aos filhos adotados de casais homossexuais). (https://www.youtube.com/watch?v=3yxvUIp8GnY)
Morte de um filho gay
“Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de
hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que
apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”
disse em 2011, quando deu entrevista à Playboy. (http://noticias.terra.com.br/…/bolsonaro-prefiro-filho-mort…...)
Bolsonaro diz que vizinhos gays desvalorizam um imóvel
Ainda na entrevista de Playboy em 2011: "Se um casal homossexual vier
morar do meu lado, isso vai desvalorizar a minha casa ! Se eles andarem
de mão dada e derem beijinho, desvaloriza" (http://noticias.terra.com.br/…/bolsonaro-prefiro-filho-mort…...)
União gay
“O próximo passo será a adoção de crianças por casais homossexuais e a
legalização da pedofilia”. “O Supremo extrapolou. Quem tem de decidir
isso é o Legislativo, com a sanção do Executivo. Agiu por pressão da
comunidade homossexual e do governo. Unidade familiar é homem e mulher.”
(http://www.fabiocampana.com.br/…/proximo-passo-sera-a-legal…...)
Direito de discriminar
O deputado afirma ainda que quer garantir o direito de não querer
alugar um imóvel ou contratar se a pessoa for LGBT, e acusa gays de
quererem direitos especiais. E diz que vai lutar contra o casamento gay.
“Primeiro que eles não tem na testa escrito que é homossexual. Eu alugo
o meu apartamento para quem eu quiser... Agora se dá o azar deste cara
ser homossexual, e ele vai em uma delegacia e registra uma queixa... e
eu vou ser preso em flagrante só porque esse cara faz sexo com o seu
aparelho excretor?... Se eu for contratar um motorista para levar o meu
filho em uma escola e descobrir que ele é gay... eu vou contratar?” (https://www.youtube.com/watch?v=TcOpf2d9mNM)
Beijo gay – Família gay
“A sociedade é ofendida, a família é ofendida...” “A sociedade é
conservadora. Eu considero agressivo”. “Lógico que me incomoda”.
“Família gay não existe”. (https://www.youtube.com/watch?v=KL-eiuRZrDE)
Não é normal
“Ensinar para a criança que ser gay é normal? Não!” “Eu não deixaria
meu filho de 5 anos de idade brincar com o filho da mesma idade filho de
um casal gay”. (https://www.youtube.com/watch?v=7ftFLFcQTQg)
Dissimulado
“Não sei porque tanta discriminação. Minhas melhores professoras foram
as prostitutas. Eu queria saber se isso também vale pro outro lado, se
isso também vale para ele ser um bom professor ser gay”, provocou ele na
Comissão de Direitos Humanos e foi censurado pelos colegas. (https://www.youtube.com/watch?v=S5Apq5CAdDw)
Kit Gay
“Dá nojo. Esses gays e lésbicas querem que nós a maioria entubemos como
exemplo de comportamento a sua promiscuidade... Nós não podemos nos
submeter aos escárnio da sociedade”. ( https://www.youtube.com/watch?v=gNJKJLCPrT4)
Não existe homofobia
“Não existe homofobia no Brasil” e “a sociedade brasileira não gosta de
homossexuais”. Em entrevista ao apresentador Stephen Fry, Bolsonaro diz
que pais não tem filhos de orgulho gay e defende a passeata de orgulho
hétero. “Bolsonaro é o típico homofóbico que eu encontrei por todo o
mundo, com seu mantra de que gays querem dominar a sociedade, recrutar
ou abusar das crianças. Mesmo em países progressistas como o Brasil,
suas mentiras criam histeria coletiva entre os ignorantes, de onde a
violência pode surgir e acabar em ataques brutais como o que matou
Alexandre Ivo”. (https://www.youtube.com/watch?v=Hxh_laUnt3I)
Organizado por André Felipe de Souza
segunda-feira, 25 de abril de 2016
CANTO AO SONO - Thomas Mann
Há escritorxs e textos que veem ao nosso encontro e
se casam conosco.
Eu guardo
muitos deles em mim, em minha alma, em minha mente.
Clarice eu
precisei corporificar. Clarice fala tão alto e claro dentro de mim que precisei
dar-lhe voz, dar-lhe corpo! É.
Hermann Hesse é
quase eu mesmo. Knulp é minha morte!
Não vou falar
de Pessoa, pois ele me define, define meu amar, para mim, verbo transitivo
direto… contrariando o Poeta.
Thomas Mann me
transporta a outras vidas e dimensões. Ler “A Montanha Mágica” foi uma viagem
que durou sete meses. Durante a leitura realizei, de fato, muitas viagens. As
últimas páginas foram lidas dentro de um ônibus e simplesmente não continha as
lágrimas. Eram necessárias pausas para controlar a emoção e chegar aos últimos
parágrafos. Foi o meu mais profundo adeus.
A
sincronicidade dos textos que se aproximam de mim me surpreende. Hoje, em minha
angústia, “Canto ao Sono” apropriou-se de mim. Quase escrevi-o eu mesmo. Pensei
em recortar-lhe e enxertar-lhe palavras minhas… mas não ousei profanar este
texto sagrado. Resolvi, mera a mente, digitar, cada letra, cada palavra, como
um ator da escrita:
“Que a noite
caia a cada dia; que a graça do sono estenda-se todas as noites, apaziguadora,
trazendo o esquecimento sobre os tormentos e as misérias, o sofrimento e a
angústia; que ainda uma vez esta bebida de consolo e letargia distribua-se aos
nossos lábios ressecados; que ainda uma vez, após a luta, este banho morno
acolha nosso corpo fremente, a fim de que, purificado do suor, da poeira e do
sangue, revigorado, renovado, remoçado inconscientemente, dele emerja com sua
vitalidade e prazer originais. Ah! Meu amigo! Sempre senti e considerei o sono
como o mais beneficente e emocionante dos grandes fenômenos criadores do
impulso cego. Saímos da noite sem sofrimentos, para penetrar no dia, e
caminhamos. O sol é calcinante, andamos sobre espinhos e seixos cortantes.
Sentimos nosso peito sufocar. Que assustador seria se a ardente estrada da fadiga
se estendesse diante de nós sem fim provisório, sob uma luz cruz, a perder-se
de vista. Quem teria forças de percorrê-la até o fim? Quem não se prostraria
pelo desencorajamento e desgosto?
Mas eis a noite
materna que surge novamente, sempre novamente, sobre o caminho de Paixão da
vida. Cada dia tem um fim. Um bosque espera-nos, num murmúrio de fonte e numa
verde penumbra, onde um maravilhoso frescor recobrará sobre nossa fronte a paz
de nossa terra natal, então os braços estreitados num abraço, a cabeça tombada
para trás, os lábios entreabertos e os olhos afortunadamente revoltos,
penetramos numa sombra deliciosa.
Dizem que fui
criança tranquila, nem barulhenta nem agitada, mas inclinada ao torpor e à
sonolência, de um modo agradável para as mulheres que cuidavam de mim.
Acredito, pois lembro-me de amar o sono e o esquecimento numa época em que não
tinha nada a esquecer; e até me sinto capacitado para dizer que choque
espiritual provocou nesta silenciosa inclinação natural a transformação em
afeição consciente. Deu-se após eu ter ouvido o conto “O Homem Sem Sono”, a
história desse homem preso ao tempo e às suas próprias ações, com ardor tão
insensato, que maldizia o sono. Então, um anjo concedeu-lhe a realização de seu
desejo, tirando a sua necessidade física de dormir, soprou sobre seus olhos
para que eles se tornassem semelhantes a cinzentas pedras em suas órbitas e não
se fechassem jamais.
Como esse homem
lamentou seu pedido; o que então suportou, só, privado do sono entre todos os
homens; como o triste condenado arrastou sua vida, até o dia em que a morte o
libertou e quando a noite, que pairava inacessível diante de seus olhos de
pedra, atraiu-o até ela e para ela. Não poderia contá-lo com maiores detalhes,
todavia sei que durante aquela noite, não me continha de impaciência para que
me deixassem só em meu leito a fim de lançar-me no seio do sono; nunca dormi
tão profundamente como naquela noite em que ouvi essa história.
Desde então
sempre fiz distinção entre os livros que poderiam dizer algo em louvor ao sono;
e Mesmer, por exemplo, exprimiu-se bem de acordo comigo, quando sublinhou a
possibilidade de que o sono (que forma a base da vida vegetal, e do qual a
criança, em suas primeiras semanas de vida, sai apenas para alimentar-se) seja
talvez o estado natural, original do homem, aquele que corresponde mais
diretamente à finalidade do fenômeno de vegetação. “Não se poderia dizer,
propõe o genial charlatão, que apenas despertamos para dormir?” Julgo isso
extremamente bem pensado. Seguramente o estado de vigília é apenas uma luta
para preservar o sono. Darwin também não pensa que o espírito se desenvolveu
somente como uma arma na luta pela vida? Arma perigosa! Uma arma que, se nenhum
perigo ameaça nossa segurança, vira-se frequentemente contra nós. Felicitemo-nos
quando ela repousa, quando a chama crua e consumidora da consciência que temos
do mundo ao nosso redor e em nós próprios reduz satisfatoriamente sua
atividade, quando podemos, então, abandonarmo-nos novamente à nossa verdadeira
e feliz natureza.
Contudo, se a
angústia desperta-nos, não é ela que afinal nos afasta do sono. Acreditarias em
mim, se te dissesse que não conheço insônia causada por desgosto ou
preocupação? Só experimentei verdadeiro fervor pelo sono após ter passado a
primeira fase de liberdade, de intangibilidade, quando os desgostos da vida sob
a forma da escola começaram a turvar meus dias. Nunca mais formi tão
deliciosamente quanto durante algumas noites de domingo para segunda-feira,
quando após um dia protegido, pertencendo aos meus e a mim mesmo, a manhã
seguinte ameaçava-me novamente com dificuldades duras e estranhas. E isso
sempre acontece. Nunca durmo tão profundamente, sem experimento um retorno mais
doce ao seio da noite, que quando estou infeliz, quando o meu trabalho não foi bem
sucedido, quando o desespero me oprime, quando desgostoso dos homens encontro
refúgio nas trevas…; e como, pergunto, poderia ser de outro modo, já que é
naturalmente impossível que a inquietação e o sofrimento reforcem nossa afeição
ao dia e ao tempo?
Sorrirás se eu
te disse que preservo uma recordação precisa e reconhecida de cada leito no
qual dormi durante algum tempo, de cada um deles, desde a pequena cama de
grades com cortinas verdes, que foi o primeiro, até o imponente leito de acaju
onde nasci e que durante sucessivos anos reinou em meus apartamentos de jovem
celibatário? Atualmente possuo um leito mais leve, inglês, laqueado de branco.
Por cima está suspenso, numa moldura branca, este quadro francês intitulado
“Rumo à estrela”, o qual, com a sua atmosfera azul esmaecida, imprecisa e
musical, é o mais belo ornamento de alcova que posso imaginar… Sorrirás,
repito, contudo, que lugar insigne ocupa o leito em nosso mobiliário, este
móvel metafísico, onde os mistérios do nascimento e da morte se cumprem, este
habitáculo de linho perfumado, onde inconscientes, com os joelhos dobrados como
antigamente nas trevas do ventre materno, reatamos de alguma forma o cordão
umbilical da natureza, atraímos o sustento e a renovação por vias misteriosas…
Não seria como um barquinho mágico, posto de lado num canto, velado e discreto
durante o dia, e no qual, a cada noite, vagamos sobre o mar do inconsciente e
do infinito?
O mar! O
infinito! Meu amor pelo mar, que sempre preferi pela imensa uniformidade à
ambiciosa variedade de aspectos da montanha, é tão antigo quanto meu amor pelo
sono e sei perfeitamente onde essas duas simpatias encontram sua raiz comum.
Tenho em mim muito hinduísmo, muita nostalgia indolente e profunda, por esta
forma ou não-forma de perfeição chamada Nirvana ou o nada; e, ainda que
artista, tenho uma inclinação bem pouco artística pelo eterno, que se traduz
por uma aversão à articulação e à medida. O que contrabalança essa inclinação,
creia-me, é a correção e a disciplina; é, para empregar a palavra mais séria, a
moral… Ora o que é a moral? O que é a moral do artista?
A moral tem
duas faces, concentração e abandono, e uma sem a outra nunca é legítima. A
“concentração”, esta fecunda antítese da distração (a propósito da qual
Grillparzer cria seu sacerdote uma magnífica linguagem), é necessário havê-la
sentido para compreendê-la, não sendo raro que uma imagem particular provoque
em mim, sempre de novo, a impressão mais profunda dessa palavra: a imagem do
feto no ventre de sua mãe. Nossa cabeça, imagine, não se encontra redonda e
acabada de uma só vez, de modo a ter apenas que se desenvolver como um todo… A
princípio o rosto está aberto na frente, ele cresce pouco a pouco dos dois
lados para juntar-se no meio, fecha-se lenta e firmemente a fim de transformar-se
no rosto simétrico, dotado de visão, de vontade, individualmente condensado do
nosso “eu”… É este processo de junção, de acabamento, de formação para
tornar-se uma figura determinada, saído do mundo das possibilidades, é essa
imagem que me faz pressentir aquilo que afinal se consuma além da aparência.
Sinto, então, que toda existência individual deve ser compreendida como a
consequência de um ato de vontade supra-sensorial, de uma decisão de
concentrar-se fora do nada, de renunciar à liberdade, ao infinito, a dormitar e
a mover-se na noite imaterial e intemporal, uma decisão moral de existir e
sofrer. Sim tornar-se é, em si, um ato moral. De outra forma qual seria o
significado destas palavras proféticas: “Nosso maior pecado é o de ter
nascido?”… Só um boçal considera pecado e moralidade como conceitos opostos.
Eles formam apenas um. Sem o conhecimento do pecado, sem o abandono ao que é
funesto e nos consome, toda moral é uma afetação de virtude. Não são a pureza e
a ingenuidade que constituem o estado desejável no sentido moral, não são a
prudência egoísta e a arte desprezível de preservar a consciência tranquila que
formam o elemento moral, mas a luta e o desgosto, a paixão e o sofrimento.
“Aquele”, escreveu, em alguma parte, Heinrich von Kleist, “que ama a vida com
prudência já está moralmente morto, pois sua mais intensa força vital, que é de
podê-la sacrificar, atrofia-se, quando ele cerca-se de cuidados.” A palavra de
maior sentido moral do Evangelho é: “Não resista ao mal!”
A moral do
artista é a concentração, a força de concentrar-se egoisticamente, a decisão de
dar forma, de modelar, circunscrever, renunciar à liberdade, ao infinito, à
sonolência e ao movimento no domínio ilimitado da sensação. Enfim, a vontade de
criar uma obra. Mas quando desprovida de nobreza e moral, exangue e repulsiva,
é a obra nascida de uma arte fechada em si, prudente e virtuosa! A moral do
artista é abandono, afastamento e perda de si próprio, é luta e tormento,
aventura, conhecimento e paixão.
A moral é sem
dúvida o maior encargo da vida, é a própria vontade de viver, todavia se o fato
de se dizer que a vida é o bem supremo é mais que uma frase de teatro, então
deve existir algo maior e mais definitivo que essa vontade: assim como a moral
consiste em corrigir e disciplinar o que é livre e possível, para reconduzi-lo
ao limitado e ao real, por sua vez requer um corretivo, uma explicação, uma
exortação incessante (que não se pode deixar de ouvir) uma incitação ao
recolhimento e à renúncia… Dá a esse corretivo o nome de sabedoria e seu
contrário será a loucura do homem preso ao tempo e ao instante com tão cega
paixão que chega a maldizer o sono. Dá-lhe o nome de religiosidade, seu
contrário será a bestialidade ligada aos instintos pagãos e cuja fuça permanece
presa ao chão sem ver a grande paz estelar acima. Chama-lhe nobreza, seu
contrário será a vulgaridade que se encontra à vontade, inteiramente e sem
nostalgia, na vida e na realidade, que não conhece pátria superior; apesar de
que existem pessoas tão grosseiras, tão inabalavelmente eficientes que não se
pode imaginar sua morte, sua consagração à morte.
Se não é a
depressão que nos priva do sono, mas a paixão, chamada por Gotama Buda
“devoção”, a fervorosa ligação do nosso “eu” à atividade cotidiana, isso é
então mais que o sintoma de um estado nervoso. Significa que a nossa alma
perdeu sua pátria, que no seu ardor se afastou tanto que não consegue encontrar
o caminho do retorno; contudo, não é frequente termos a impressão que
precisamente os maiores e mais fortes homens de ação, os apaixonados, se
“reencontram” sempre com facilidade? Ouvi dizer que Napoleão podia adormecer
quando queria, em pleno dia, entre pessoas, no tumulto de uma batalha indecisa…
Enquanto penso
nisso, tenho sob os olhos esta imagem, sem grande valor artístico, cujo assunto
sempre exerceu sobre mim infinita fascinação. Intitula-se: “É Ele”. Representa
um pobre quarto de camponeses. Seus ocupantes, marido, mulher e filhos,
comprimem-se à beira da porta aberta, numa contemplação espantada. Pois lá, no
meio do cômodo, apoiado na modesta mesa, o Imperador está sentado e dorme. Está
sentado lá, este símbolo da paixão egoísta e exuberante, tirou sua espada, seu
punho descontraído repousa sobre a mesa, e com o queixo inclinado sobre o
peito, ele dorme. Não sente necessidade de silêncio, da obscuridade, nem mesmo
do travesseiro para esquecer o mundo. Sentou-se sobre a dura cadeira, a
primeira que surgiu, fechou os olhos, deixou tudo atrás de si e dorme.
Certamente, é
aquele que conserva pela noite mais fidelidade e nostalgia, aquele que todavia
durante o dia produz obras formidáveis. Eis por que prefiro a obra nascida da
“nostalgia da noite sagrada”, que, apesar de si mesma, volta-se para o
esplendor de sua vontade e embalo sonhador. Enquanto escrevo, ouço “Tristão” de
Richard Wagner. [Enquanto digito, ouço as suítes para violoncelo de J. S.
Bach.]
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Discurso proferido por Russell Means em julho de 1980.
Em um dia qualquer, encontrei este texto navegando pela Internet. Li e este texto respondeu inúmeras questões que habitavam minha mente... não encontrei este texto em português e minha mente inquietante me levou a traduzi-lo. Não sou um tradutor profissional, portanto, no final, existe um link para o original em inglês. Qualquer correção será muito bem recebida! Leiam, vivenciem... acho que não sou o único que se inquieta com estas questões.
A
Revolução e os Índios Americanos: “O Marxismo é tão estranho
para minha cultura quanto o Capitalismo”
por
Russell
Means
O
discurso a seguir foi proferido por Russell Means em julho de 1980,
antes do encontro de milhares de pessoas do mundo todo que se
reuniram para o Black Hills International Survival Gathering
(Encontro Internacional para a preservação das Colinas Negras),
em Black Hills na South Dakota (Colinas Negras em Dakota do Sul).
Este é o discurso mais famoso de Russell Means.
Membro
da tribo Oglala Lakota, ele talvez tenha sido a personalidade mais
destacada no Movimento Indígena Americano, começando com a
ocupação do Wounded Knee em 1973. Ele também teve uma carreira
artística atuando como Chingachgook no filme Last
of the Mohicans (O Último dos Moicanos).
Ele morreu em 22 de outubro de 2012 aos 72 anos de idade.
"A
única forma possível de iniciar uma declaração deste gênero é
dizendo que eu detesto escrever. O processo em si mesmo sintetiza o
conceito Europeu de pensamento “legitimado”; o quê está escrito
adquire uma importância que é negada ao que é dito. Minha cultura,
a cultura Lakota, possui uma tradição oral, portanto, em princípio,
eu renego a escrita. Esta é uma das maneiras que o mundo do homem
branco tem para destruir as culturas dos povos não-Europeus, a
imposição de uma abstração sobre a relação oral do povo.
Portanto,
o que você lê aqui não é o que eu escrevi. Isto é o que eu disse
e alguém escreveu minhas palavras ditas. Eu permitirei que seja
assim porque me parece que a única maneira de se comunicar com o
mundo branco é através das folhas secas e mortas de um livro. Eu
realmente não me importo se minhas palavras alcançarão os brancos
ou não. Eles já demonstraram através de sua história que não
conseguem ouvir, não conseguem ver; os brancos conseguem apenas ler
(é claro que existem exceções, mas as exceções apenas confirmam
a regra). Eu estou mais preocupado com o povo indígena americano,
estudantes e outras pessoas, que começam a ser absorvidos pelo mundo
branco através de universidades e outras instituições. Mas mesmo
assim isto é apenas uma preocupação periférica. É extremamente
possível que uma mente branca se desenvolva no interior de uma cara
vermelha; e se isto for uma escolha pessoal, então, que assim seja,
mas eu não vejo nenhuma utilidade para ela. Isto é parte do
processo de genocídio cultural sendo impetrado atualmente pelos
Europeus contra o povo Indígena Americano. Minha preocupação é
com os Indígenas Americanos que tem escolhido resistir a este
genocídio, mas que devem estar confusos sobre como agir.
Vocês
notaram que eu uso o termo Índio Americano e não Nativo Americano
ou Povo Indígena Nativo ou Ameríndios, quando estou me referindo a
meu povo. Tem havido alguma controvérsia em relação a tais termos,
e sinceramente, neste ponto, eu acho isto um absurdo. Primeiramente
parece que Índio Americano é um termo que tem sido rejeitado como
de origem Europeia – o que é verdade. Mas todos os termos acima
são de origem Europeia; a única maneira não-Europeia é falar dos
Lakota – ou, mais precisamente, dos Oglala, Brule, etc. – e dos
Dineh, dos Miccousukee, e todos os demais centenas de nomes corretos
de cada tribo.
Existe
também alguma confusão sobre a palavra Índio, uma crença errônea
de que se refere a alguém do país Índia. Quando Colombo se lavou
nas praias do Caribe, ele não estava procurando por um país chamado
Índia. Os Europeus chamavam aquele país de Industão (Hindustan) em
1492. Procure nos mapas antigos. Colombo chamou os povos tribais que
ele encontrou de "Indio" do italiano in
dio,
que significa "em Deus”.
É
necessário um grande esforço por parte de cada Índio Americano
para não se tornar Europeizado. E a força para este esforço só
pode vir dos caminhos da tradição, os valores tradicionais que os
mais velhos conservam. Deve vir da aliança, das quatro direções,
das relações: não deve vir das páginas de um livro ou de milhares
de livros. Nenhum Europeu será capaz de ensinar um Lakota a ser
Lakota, um Hopi a ser Hopi. Um doutor em "Estudos Indígenas"
ou em "educação" ou em outra matéria qualquer não é
capaz de transformar uma pessoa em um ser humano ou fornecer
conhecimento dentro das formas tradicionais. Ele é apenas capaz de
formar em você uma mente Europeia, um estrangeiro.
Eu
preciso ser claro sobre uma questão aqui, pois me parece que existe
alguma confusão sobre isto. Quando eu falo de Europeus ou de
mentalidade Europeia, eu não quero que existam falsas distinções.
Eu não estou dizendo que de um lado existe os subprodutos de alguns
milhares de anos de genocídio, desenvolvimento intelectual Europeu
reacionário, que seja ruim; e de outro lado existe um
desenvolvimento intelectual revolucionário que seja bom. Eu estou me
referindo aqui à tal chamada teoria do Marxismo e anarquismo e
“esquerdismo” em geral. Eu não acredito que estas teorias possam
ser separadas do restante da tradição intelectual Europeia. Esta é
a mesma velha ladainha.
O
processo começou muito antes. Newton, por exemplo, "revolucionou"
a física e as chamadas ciências naturais reduzindo o universo
físico em uma equação matemática linear. Descartes fez a mesma
coisa com a cultura. John Locke com a política, e Adam Smith com a
economia. Cada um destes "pensadores" pegaram um pedaço da
espiritualidade da existência humana e a converteu em um código,
uma abstração. Eles continuaram onde o Cristianismo parou: eles
"secularizaram" a religião Cristã, como os "acadêmicos"
gostam de dizer – e desta forma eles conseguiram tornar a Europa
mais capaz e pronta para agir como uma cultura expansionista. Cada
uma das revoluções intelectuais serviram para abstrair a cultura
Europeia ainda mais, a remover a maravilhosa complexidade e
espiritualidade do universo e substituí-la por uma sequência
lógica: um, dois, três. Responda!
E
isto é a chamada "eficiência" na mente Europeia. Qualquer
coisa que seja mecânica é perfeita; qualquer coisa que pareça
funcionar no momento – isto é, prova que o modelo mecânico está
correto – é considerada certa, mesmo quando seja claramente falsa.
Este é o motivo pelo qual a "verdade" muda tão
rapidamente na mentalidade Europeia; as respostas que resultam de tal
processo são apenas tapa-buracos, apenas temporários, e devem ser
continuamente descartados em função de novos tapa-buracos que
garantam os modelos mecânicos e os mantenham (os modelos) vivos.
Hegel
e Marx são herdeiros do pensamento de Newton, Descartes, Locke e
Smith. Hegel finalizou o processo de secularização da teologia –
e isto é posto em seus próprios termos – ele secularizou o
pensamento religioso com o que a Europa entende como o universo. E
então Marx adaptou a filosofia de Hegel aos termos de "materialismo"
que é o mesmo que dizer que Marx e Hegel trabalharam junto neste
processo de desespiritualização. Novamente, nas palavras do próprio
Marx. E agora isto é visto como o potencial futuro revolucionário
da Europa. Europeus podem ver isto como revolucionário, mas os
Índios Americanos veem isto simplesmente como ainda mais do mesmo
conflito Europeu entre o ser e o obter. As raízes da nova forma
Marxista do imperialismo Europeu baseados em Marx – e seus
seguidores – está ligado à tradição de Newton, Hegel e outros.
O
Ser é uma proposição espiritual. Obter é um ato material.
Tradicionalmente, Índios Americanos sempre tentaram ser o melhor
povo que podiam. Parte deste processo espiritual era e é abandonar a
riqueza, descartar a riqueza afim de não obter. O ganho material é
um indicador de um status falso entre povos tradicionais, enquanto é
a "prova de que o sistema funciona" para Europeus.
Claramente, existem dois pontos de vista completamente opostos em
questão aqui, e o Marxismo está bem distante ao da visão do Índio
Americano. Mas vamos olhar para uma implicação maior disto; este
não é um debate meramente intelectual.
A
tradição Europeia materialista de desespiritualização do universo
é muito semelhante ao processo mental que passa pela desumanização
do outro. E quem parece ser o mais hábil em desumanizar outra
pessoa? E por que? Soldados tem um longo aprendizado sobre combate ao
inimigo antes de entrar em combate. Assassinos fazem o mesmo antes de
saírem para cometer o assassinato. Soldados nazistas da SS agiram
assim com os prisioneiros dos campos de concentração. Policiais
fazem isto. Líderes de corporações agem assim com trabalhadores
quando os envia para minas de urânio e siderúrgicas. Políticos
agem assim com todo mundo. E a parte do processo que é comum para
cada grupo que desumaniza o outro é que está tubo bem matar ou
destruir outra pessoa. Um dos mandamentos Cristãos diz, "Não
matarás", pelo menos não matarás seres humanos, portanto o
truque é converter mentalmente as vítimas em seres não humanos.
Assim você pode declarar a violação de seu próprio mandamento
como uma virtude.
Nos
termos da desespiritualização do universo, o processo mental
funciona de maneira que torna uma virtude destruir o planeta. Termos
omo progresso e desenvolvimento são usados para encobrir palavras
aqui, as maneiras como vitória e liberdade são usadas para
justificar a carnificina no processo de desumanização. Por exemplo,
um especulador imobiliário se refere como "desenvolvimento"
um pedaço de terra arrasado para abrir uma pedreira de cascalho;
desenvolvimento neste caso significa uma destruição total e
permanente, quando a própria terra é removida. Mas a lógica
Europeia é de obter umas poucas toneladas de cascalho com a qual
mais terras podem ser “desenvolvidas” com a construção de
estradas de rodagem. Em última análise, o universo inteiro está
pronto – na visão Europeia – para este tipo de insanidade.
O
mais importante aqui, talvez, é que os Europeus não sentem nenhum
senso de perda nisto tudo. Afinal, seus filósofos
desespiritualizaram a realidade, portanto não há nenhuma satisfação
(para eles) a ser obtida em simplesmente observar a maravilha de uma
montanha ou lago ou de um ser humano. Não, a satisfação é medida
em termos de ganho material. Portanto a montanha se transforma em
cascalho, o lago serve para refrigerar uma fábrica, e as pessoas são
adaptadas para este processo através das moendas de doutrinação
que os Europeus gostam de chamar de escolas.
Mas
cada nova peça deste “progresso” aposta em algo fora do mundo
real. Retirar combustível para uma máquina mecânica é um exemplo.
A pouco mais de dois séculos atrás, quase todo mundo usava carvão
– um item natural, renovável – como combustível para as
necessidades humanas de aquecimento e alimentação. Junto veio a
Revolução Industrial e o carvão se tornou um combustível, assim
como a produção se tornou um imperativo social para a Europa. A
poluição começou a se tornar um problema nas cidades, e a terra
foi dilacerada a fim de fornecer carvão visto que a madeira sempre
havia sido obtida ou colhida sem grandes prejuízos para o ambiente.
Mais tarde, o petróleo se tornou o combustível mais importante,
assim que a tecnologia de produção se aperfeiçoou através de uma
série de “revoluções” científicas. A poluição aumentou
dramaticamente, e ninguém ainda sabe os custos ambientais reais que
o bombeamento de todo este petróleo do interior da terra poderá
causar ao longo do tempo. Agora existe uma “crise de energia"
e o urânio está se tornando o combustível dominante.
Capitalistas,
pelo menos, desenvolverão o uso do urânio como combustível apenas
se isto lhes proporcionar um bom lucro. Esta é sua ética, e talvez
isto nos garanta ainda algum tempo. Marxistas, por outro lado, podem
desenvolver o uso do urânio como combustível o mais rápido
possível pois este é o combustível mais “eficiente”
disponível. Esta é sua ética, e eu não consigo ver qual é
preferível. Como eu disse, o Marxismo está muito bem inserido no
meio da tradição Europeia. É a mesma ladainha.
Existe
uma regra de ouro que pode ser aplicada aqui. Você não é capaz de
julgar a natureza real de uma doutrina revolucionária Europeia com
base nas mudanças que ela propõe fazer de dentro do poder da
estrutura e sociedade Europeia. Você apenas a pode julgar pelos
efeitos que isto acarretará nos povos não-Europeus. Digo isto
porque toda revolução na história Europeia apenas serviu para
reforçar as tendências e habilidades da Europa em exportar
destruição para outros povos, outras culturas e para o próprio
meio ambiente. Eu desafio qualquer um a apresentar um exemplo em que
isto não seja verdade.
Então
nós agora, como povo Indígena Americano, somos convidados a
acreditar que um “nova” doutrina revolucionária Europeia como o
Marxismo era reverter os efeitos negativos que a história Europeia
teve sobre nós. As relações de poder Europeu serão ajustados mais
uma vez, e supõem-se isto fará as coisas ficarem melhores para
todos nós. Mas o que isto realmente significa?
Exatamente
agora, hoje, nós que vivemos na Reserva Pine Ridge estamos vivendo
no que a sociedade branca designou como “Área de Sacrifício
Nacional”. Isto significa que nós temos muita reserva de urânio
aqui, e a cultura branca (não nós) precisamos deste urânio como
material de produção de energia. O mais barato, mais eficiente
jeito para a indústria extrair e processar este urânio é despejar
os resíduos da produção exatamente aqui nos sítios de escavação.
Exatamente aqui onde nós vivemos. Este resíduo é radioativo e
tornará a região toda inabitável para sempre. Isto é considerado
pela indústria, e pela sociedade branca que criou esta indústria,
como sendo um preço “aceitável” a pagar pelo desenvolvimento
destes recursos de energia. Ao longo do caminho eles também planejam
drenar o lençol de água que está debaixo desta área da Dakota do
Sul como parte do processo industrial, assim a região se tornará
duplamente inabitável. O mesmo tipo de situação está ocorrendo
logo abaixo nas terras Navajo e Hopi, logo acima nas terras dos
Cheyenne do Norte e Crow, e outros lugares. Trinta por cento do
carvão do Oeste e metade dos depósitos de urânio nos Estados
Unidos estão em reservas indígenas, portanto de forma alguma isto
pode ser chamado de uma questão menor.
Nós
estamos resistindo a sermos transformados em uma Área de Sacrifício
Nacional. Nós estamos resistindo a sermos transformados em um povo
de sacrifício nacional. Os custos deste processo industrial não são
aceitáveis para nós. É um genocídio escavar urânio aqui e drenar
o lençol de água – não mais, não menos.
Agora
suponhamos que em nossa resistência contra o extermínio comece a
agregar aliados (nós temos). Vamos supor ainda que nós fôssemos
tomar o Marxismo revolucionário como se diz: que pretende nada menos
do que a derrubar completamente a ordem capitalista Europeia que tem
apresentado esta ameaça sobre nossa existência. Esta parece ser uma
aliança natural para o povo Indígena Americano estabelecer. Afinal,
como dizem os Marxistas, são os capitalistas que nos definem como
sacrifício nacional. Isto é verdade até aqui.
Mas,
como eu tenho tentado apontar, esta “verdade” é muito
traiçoeira. O Marxismo Revolucionário está comprometido ainda mais
com a perpetuação e perfeição do verdadeiro processo industrial
que está destruindo todos nós. Ele oferece apenas a
“redistribuição” dos resultados – o dinheiro, talvez –
desta industrialização para uma parcela maior da população. Ele
oferece retirar a riqueza dos capitalistas e repassá-la adiante; mas
a fim de fazer o quê, o Marxismo deverá manter o sistema
industrial. Mais uma vez, o poder das relações dentro da sociedade
Europeia será alterado, porém mais uma vez os efeitos sobre os
povos Indígenas Americanos aqui e os não-Europeus em qualquer lugar
continuarão a ser os mesmos. É a mesma coisa quando o poder foi
redistribuído da igreja para os negócios privados durante a chamada
revolução burguesa. A sociedade Europeia mudou um pouco, pelo menos
superficialmente, mas seu domínio sobre os não-Europeus continuou
como antes. Você pode ver o que a Revolução Americana de 1776
causou aos Índios Americanos. É a mesma velha ladainha. Ladainha.
O
Marxismo Revolucionário, como outras formas na sociedade industrial,
almeja "racionalizar" todos os povos em direção à
indústria – indústria máxima, máxima produção. Esta é uma
doutrina que despreza a tradição espiritual dos Índios Americanos,
nossas culturas, nossos jeitos de viver. O próprio Marx nós chamou
de “pré-capitalistas” e “primitivos”. Pré-capitalista
significa simplesmente que, em sua visão, nós eventualmente iríamos
descobrir o capitalismo e nos tornar capitalistas; nós temos sempre
sido economicamente atrasados nos termos Marxistas. A única maneira
pela qual o povo Indígena Americano poderia participar na revolução
Marxista seria unindo-se ao sistema industrial, tornarem-se
trabalhadores de fábricas, ou “proletários”, como Marx os
chamou. O homem estava bem certo sobre o fato de que sua revolução
apenas poderia ocorrer através da luta do proletariado, que a
existência de um sistema industrial de massa é a pré-condição
para uma sociedade Marxista de sucesso.
Eu
penso que existe um problema com a linguagem aqui. Cristãos,
capitalistas, marxistas. Todos eles foram revolucionários em suas
próprias mentes, mas nenhum deles realmente promoveu uma revolução.
O quê eles realmente queriam era continuação. Eles fazem o que
eles fazem a fim de que a cultura Europeia continua e se desenvolva
de acordo com suas necessidades.
Então,
para que todos nós realmente unamos nossas forças com o Marxismo,
nós Índios Americanos devemos aceitas o sacrifício nacional de
nossa terra natal; nós devemos cometer suicídio cultural e nos
tornarmos industrializados e Europeizados.
Neste
ponto, eu tenho que parar e perguntar a mim mesmo se eu não estou
sendo muito duro. O Marxismo tem uma boa história. Esta história
bear out minhas observações? Eu olho para o processo de
industrialização na União Soviética desde 1920 e eu vejo que
aqueles Marxistas fizeram o que levou 300 anos para a Revolução
Industrial Inglesa realizar; e o Marxismo realizou em 60 anos. Eu
vejo que o território da USSR possuia um número de povos tribais e
que eles foram esmagados para dar caminho para as fábricas. Os
Soviéticos se referem a isto como “A Questão Nacional”, a
questão se os povos tribais tem o direito de existir como povo; e
eles decidiram que os povos tribais eram um sacrifício aceitável
para as necessidades industriais. Eu olho para e China e vejo a mesma
situação. Eu olho para o Vietnam e vejo Marxistas impondo uma ordem
industrial e acabando com as raízes dos povos indígenas tribais
montanheses.
I
ouço influentes cientistas Soviéticos dizendo que quando o urânio
estiver exaurido, outras alternativas serão encontradas. Eu vejo
Vietnamitas invadindo plantas de energia nuclear abandonadas pelo
exército dos Estados Unidos. Eles a desmontaram e destruíram? Não,
eles as estão usando. Eu vejo a China explodindo bombas nucleares,
desenvolvendo reatores nucleares, e preparando um programa espacial a
fim de colonizar e explorar planetas da mesma maneira que os Europeus
colonizaram e exploraram este hemisfério. É a mesma velha ladainha,
mas talvez com maior velocidade desta vez.
Os
argumentos dos cientistas Soviéticos é muito interessante. Eles
sabem qual será esta fonte de energia alternativa? Não, eles
simplesmente tem fé. A ciência encontrará um caminho. Eu ouço
Marxistas revolucionários dizendo que a destruição do ambiente,
poluição e radiação serão todos controlados. E eu os vejo agindo
de acordo com suas palavras. Eles sabem como estas condições serão
controladas? Não, eles simplesmente tem fé. A ciência encontrará
um caminho. A industrialização é boa e necessária. Como eles
sabem disto? Fé. A ciência encontrará um caminho. Fé deste tipo
sempre foi conhecida na Europa como religião. A ciência se tornou a
nova religião Europeia para capitalistas e Marxistas; eles são
verdadeiramente inseparáveis; eles são parte e parcela da mesma
cultura. Portanto, em ambas teorias e práticas, o Marxismo exige que
povos não-Europeus desistam de seus valores de suas tradições, de
sua existência cultural completamente. Nós todos nos tornaremos
viciados em ciência industrializada em uma sociedade Marxista.
Eu
não acredito que o capitalismo em si seja realmente responsável
pela situação na qual os Índios Americanos tem sido declarado um
sacrifício nacional. Não, esta é a tradição Europeia; a cultura
Europeia em si é responsável. O Marxismo é apenas a continuação
mais recente desta tradição, não é uma solução para isto.
Aliar-se ao Marxismo e se aliar com as mesmas forças que nos
declararam um custo aceitável.
Existe
outro caminho. Existe o caminho tradicional dos Lakota e os caminhos
dos povos Indígenas Americanos. Este é o caminho que sabe que os
humanos não tem o direito de degradar a Mãe Terra, que existem
forças além de qualquer coisa que a mente Europeia tenha concebido,
que os humanos devem estar em harmonia com todas as relações ou as
relações irão eventualmente eliminar a desarmonia. A ênfase torta
nos humanos pelos humanos – a arrogância Europeia de agir como se
eles estivessem além da natureza de tudo como coisas relacionadas –
pode apenas resultar na total desarmonia e um reajuste que reduzirá
o número de humanos arrogantes, dando-lhes o gosto desta realidade
além de sua compreensão ou controle e restaure a harmonia. Não é
necessário uma teoria revolucionária para que isto aconteça; isto
está além do controle humano. Os povos naturais deste planeta sabem
disto e portanto eles não teorizam sobre isto. Teoria é uma
abstração; nosso conhecimento é real.
Distilada
em seus termos básicos, a fé Europeia – incluindo a nova fé na
ciência – é equivalente à crença de que o homem é Deus. A
Europa sempre procurou um Messias, seja este o homem Jesus Cristo ou
o homem Karl Marx ou o homem Albert Einstein. Índios Americanos
sabem que isto é totalmente absurdo. Os humanos são as criaturas
mais frágeis de todas, tão fracas que outras criaturas estão
dispostas a desistir de sua própria vida para que nós possamos
viver. Os Humanos são capazes de sobreviver apenas através do
exercício da racionalidade pois eles não possuem as habilidades de
outras criaturas para obter comida através do uso de garras e
presas.
Mas
a racionalidade é uma maldição se ela pode fazer com que os
humanos esqueçam da ordem natural das coisas que outras criaturas
não esquecem. Um lobo nunca se esquece de seu lugar na ordem
natural. Índios Americanos podem se esquecer. Europeus quase sempre
se esquecem. Nós oramos em agradecimento ao cervo, por nossas
relações, por nos permitir comer sua carne; Europeus simplesmente
comem a carne como se fosse seu direito e consideram o cervo um ser
inferior. Afinal, Europeus se consideram à semelhança de deus em
seu racionalismo e ciência. Deus é o Ser Supremo; tudo mais deve
ser inferior.
Toda
a tradição Europeia, incluindo o Marxismo, tem conspirado para
desafiar a ordem natural das coisas. A Mãe Terra tem sido abusada,
poderes tem sido abusados, e isto não continuará para sempre.
Nenhuma teoria é capaz de alterar este simples fato. A Mãe Terra
vai retaliar, o meio ambiente todo vai retaliar, e os abusadores
serão eliminados. Todas as coisas compõe um círculo perfeito, que
volta ao ponto onde começou. Isto é revolução. E esta é uma
profecia do meu povo, do povo Hopi e de outros povos.
Os
Índios Americanos tem tentato explicar isto para os Europeus por
séculos. Mas, como eu disse no antes, os Europeus tem provado que
são incapazes de ouvir. A ordem natural vencerá, e os infratores
vão morrer, assim como o cervo morre quando ele fere a harmonia ao
procriar demais em uma certa região. É apenas uma questão de tempo
até que a chamada "catástrofe de proporções globais"
pelos Europeus aconteça. Este é o papel dos povos Indígenas
Americanos, o papel de todas os seres naturais, sobreviver. Uma parte
de nossa sobrevivência é resistir. Nós resistimos não para
derrubar um governo ou para tomar o poder político, mas porque é
algo natural resistir à exterminação, sobreviver. Nós não
queremos ter poder sobre as instituições dos brancos; nós queremos
que as instituições dos brancos desapareçam. Isto é revolução.
Os
Índios Americanos ainda estão em contato com essas realidades –
as profecias, as tradições de nossos ancestrais. Nós aprendemos de
nossos anciãos, da natureza, dos poderes. E quando a catástrofe
terminar, os Índios Americanos ainda estarão aqui para habitar o
hemisfério. Eu não me importo que seja apenas um punhado de pessoas
vivendo no alto dos Andes. Os povos Indígenas Americanosvão
sobreviver; a harmonia será reestabelecida. Isso é revolução.
Neste
ponto, talvez, Eu precise ser mais claro sobre outra questão, que já
deveria estar claro a partir do que eu já disse. Mas a confusão
nasce facilmente nos dias atuais, portanto eu quero reforçar este
ponto. Quando eu uso o termo Europeu, Eu não estou me referindo à
cor da pela ou a uma estrutura genética em particular. Eu estou me
referindo a uma estrutura de pensamento, a uma visão de mundo que é
um produto do desenvolvimento da cultura Europeia. Os povos não são
geneticamente codificados para sustentar esta perspectiva; eles são
aculturados para sustentá-la. O mesmo é verdadeiro para os Índios
Americanos ou para os membros de qualquer cultura.
É
possível para um Índio Americano compartilhar valores Europeus, uma
visão de mundo Europeia. Nós temos um termo para estas pessoas; nós
os chamamos de “maçãs” - vermelhos por fora (genética) e
brancos por dentro (seus valores). Outros grupos tem termos
semelhantes: os Negros tem seus "oreos"; Hispânicos tem
"Coconuts" e assim por diante. E, como eu disse antes,
existem excessões para o padrão branco: pessoas que são brancas
por fora, mas não são brancas por dentro. Eu não estou certo sobre
que termo eu deveria usar em relação a eles a não ser "seres
humanos".
O
que eu estou expondo aqui não é uma proposição racial, mas uma
proposição cultural. Aqueles que recentemente tem advogado a favor
e defendido as realidades da cultura Europeia e seu industrialismo
são meus inimigos. Aqueles que resistem a isto, que lutam contra
isto, são meus aliados, os aliados do povo Indígena Americano. E eu
não dou a mínima para qual seja a cor de sua pele. Caucasiano é a
palavra branca para a raça branca: Europeus é a perspectiva à qual
eu me oponho.
Os
Vietnamitas Comunistas não são exatamente o que se considera um
Caucasiano geneticamente falando, mas agora eles estão funcionando
como Europeus mentais. O mesmo é verdade para os Chineses
Comunistas, para os Japoneses capitalistas ou para os Católicos
Bantu ou Peter "MacDollar" abaixo na Reserva Navajo ou
Dickie Wilson acima na Pine Ridge. Não existe nenhum racismo
envolvido nisto, apenas um reconhecimento da mente e espírito que
compõe uma cultura.
Em
termos Marxistas eu suponho que eu seja um "nacionalista
cultural". Eu trabalho primeiramente com meu povo, o povo
tradicional Lakota, porque nós comungamos de uma visão de mundo em
comum e compartilhamos de uma luta direta. Além disto, Eu trabalho
com outros povos Indígenas Americanos tradicionais, novamente devido
a uma certa comunhão na visão de mundo e na forma de luta. E além
disto, eu trabalho com qualquer um que tenha vivido a opressão
colonial da Europa e que resista a seu absolutismo cultural e
industrial. Evidentemente, isto inclui Caucasianos geneticamente
falando que lutam para resistir ao padrão dominante da cultura
Europeia. Os Irlandeses e os Bascos me vem imediatamente à mente,
mas existem muitos outros.
Eu
trabalho primeiramente com meu próprio povo, com minha própria
comunidade. Outros povos que sustentam perspectivas não-Europeias
deveriam fazer o mesmo. Eu acredito no ditado, "Acredita na
visão de seu irmão", embora eu gosto de acrescentar irmãs
também na questão. Eu confio na comunidade e na visão
culturalmente baseada de todas as raças que resistem naturalmente à
industrialização e à extinção do humano. É claro que indivíduos
brancos podem compartilhar disto, dado apenas que eles tenham
alcançado a consciência de que a continuidade dos imperativos
industriais Europeus não são um ponto de vista, mas o suicídio da
espécie. O Branco é uma das cores sagradas para o povo Lakota –
vermelho, amarelo, branco e preto. As quatro direções. As quatro
estações. Os quatro períodos de vida e emadurecimento. As quatro
raças da humanidade. Misturando o vermelho, o amarelo, o branco e o
preto nós temos o marrom, a cor da quinta raça. Esta é a ordem
natural das coisas. E me parece natural portanto que todas as raças,
cada qual com seu princípio, identidade e mensagem especiais.
Mas
existe um comportamento peculiar entre a maioria dos Caucasianos.
Assim que eu me tornei um crítico da Europe e de seu impacto sobre
outras culturas, eles se tornaram defensivos. Eles começaram a se
defender. Mas eu não os estou atacando pessoalmente; Eu estou
atacando a Europa. Ao personalizar minhas observações sobre a
Europa eles estão personalizando a cultura Europeia, identificando a
si mesmos com ela. Ao se defenderam neste contexto, eles estão em
última instância defendendo a cultura da morte. Existe uma confusão
que dever ser superada, e deve ser superada rapidamente. Nenhum de
nós tem energia para desperdiçar em lutas falsas.
Os
Caucasianos tem uma visão mais positiva para oferecer à humanidade
do que a cultura Europeia. Eu acredito nisto. Mas para que os
Caucasianos tenham esta visão é necessário que eles saiam da
cultura Europeia – se alinhem ao resto da humanidade – para ver o
que a Europa é e o que ela tem faz.
Agarrar-se
ao capitalismo e ao Marxismo e todos os outros "ismos" é
simplesmente permanecer dentro da cultura Europeia. Não tem como
evitar este fato básico. Como um fato, isto determina uma escolha.
Entender que a escolha está baseada na cultura, não na raça.
Entender que escolher a cultura e a industrialização Europeia é
escolher ser meu inimigo. E entender que esta escolha é sua, não
minha.
Isto
me leva de volta a me dirigir àqueles Índios Americanos que estão
vagando por universidades, favelas nas cidades, e outras instituições
Europeias. Se vocês estão aí para resistir ao opressor de acordo
com seus costumes tradicionais, que assim seja. Eu não sei como você
consegue combinar as duas coisas, mas talvez você consiga ter
sucesso. Mas mantenha o seu senso de realidade. Esteja atento a vir a
acreditar que o mundo branco agora oferece soluções para os
problemas que nos atinge. Esteja atento, também, de não permitir
que as palavras dos povos nativos sejam usados para vantagem de
nossos inimigos. A Europa inventou a prática de aproveitar as
palavras para si mesmos. Basta que vocês olhem para os tratados
entre Índios Americanos e vários governos Europeus para saber que
isto é verdade. Desenvolva sua força a partir do que você é.
Uma
cultura que regularmente confunde revolta com resistência, não tem
nada útil para te ensinar nem nada a te oferecer como forma de
viver. Os Europeus tem já há um longo tempo perdido todo o contato
com a realidade, se é que alguma vez eles estabeleceram algum
contato com o que vocês são como Índios Americanos.
Portanto,
para concluir este discurso, eu quero deixar bem claro que direcionar
qualquer um ao Marxismo é a última coisa que passa pela minha
mente. O Marxismo é tão alienígena à minha cultura quanto o
capitalismo e o Cristianismo são. De fato, eu posso dizer que eu não
penso que eu esteja tentando conduzir qualquer pessoa em direção a
qualquer coisa. Até um certo ponto eu tentei ser um “líder",
no sentido que a mídia branca gosta de usar este termo, Quando o
Movimento Indígena Americano era uma organização nova. Este é o
resultado de uma confusão que eu não tenho mais. Você não é
capaz de ser tudo para todos. Eu não me proponho a ser usado desta
forma por meus inimigos. Eu não sou um líder. Eu sou um membro da
comunidade Oglala Lakota. Isto é tudo o que eu quero e tudo o que eu
preciso ser. E eu estou completamente confortável com o que eu sou".
Texto original: http://theanarchistlibrary.org/library/russell-means-for-america-to-live-europe-must-die
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