sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Um linfoma chamado Hodgkin - V

Os chamados “ciclos de quimioterapia” seguiram-se, sem percalços. Houve uma ameaça de interrupção do tratamento por falta de medicamento na farmácia do HSPM, mas felizmente sua reposição chegou a tempo sem provocar interrupções no meu tratamento. O mesmo não pode ser dito no caso de outros pacientes, infelizmente.
Apesar de nunca faltar nada nos gabinetes de nossos ilustres vereadores; que também deveriam ser responsáveis pelo bom funcionamento dos serviços públicos; as escolas, postos de saúde e hospitais de São Paulo só não estão mais abandonados porque a população sempre “põe a boca no trombone” e a mídia adora uma notícia destas para ter IBOPE. É mais uma vergonha para nosso país, tão rico e miserável ao mesmo tempo.
Fisicamente, o corpo se desgasta com o passar das sessões. O estômago fica mais sensível, as veias também sofrem com os medicamentos que são injetados (como é dito no jargão hospitalar, as veias “fritam”). É por esta razão que o cuidado com a alimentação e com o descanso é muito importante. Uma única vez que não resisti à tentação de comer uma coxinha, eu passei a vergonha de dar uma mordida nela e sair correndo para vomitar no banheiro, e nem deu tempo de chegar até lá. Acabei trocando o meu vício em cerveja e bebidas alcoólicas por vício em água e sucos (sorriso). É incrível como, mesmo com uma pausa no tratamento, o meu desejo por estas bebidas ficou menor, e a necessidade por água e sucos ficou mais intensa. Para o problema das veias, uma boa compressa com chá de camomila proporciona uma melhora significativa.
Inicialmente fui encaminhado para 8 ciclos de quimioterapia e terminados estes ciclos, realizei novos exames de tomografia e cintilografia. Apesar de os exames não apresentarem mais nenhum linfonodo, o médico me encaminhou para mais 4 ciclos de quimioterapia afim de aumentar o possibilidade de não reincidência do linfoma. No caso de reincidência do linfoma, o tratamento é mais agressivo, o que torna este cuidado, neste momento, muito mais adequado e com menor sofrimento, já que estou reagindo bem aos medicamentos e o tratamento não tem causado tantos danos colaterais. O “presente” de mais 4 ciclos de quimioterapia não é muito animador, mas é necessário, portanto, mais uma vez, é preciso transformar nossa vida não em uma sucessão de problemas, mas em uma sucessão de vitórias! Como diz o poeta: “Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas. / Nunca me esquecerei que no meio do caminho / tinha uma pedra.”
Já foram cinco meses de tratamento, agora são mais dois meses de quimioterapia e depois vou passar por sessões de radioterapia, e após tudo isto, alguns anos de exames e acompanhamento para averiguar se não ocorre a reincidência do linfoma. Mas posso dizer, com toda a certeza, que todos os resultados são extremamente positivos.

Um linfoma chamado Hodgkin - IV

Após a terceira sessão de quimioterapia tudo continuou muito bem, nenhum dos efeitos colaterais desagradáveis apareceram. Passei pela médica que me acompanha e meu exame de sangue estava sem alterações, todos os níveis de glóbulos brancos e coloridos excelentes. A Éden (minha querida e admirada médica) fez um exame de toque nos linfonodos do pescoço e... já sumiram!!!
A tomografia que realizei uma semana antes do inicio do tratamento de quimioterapia mostrou linfonodos no tórax e no abdomem também, o que indica que estava no estágio 3 do Linfoma, e não no estágio 2, como estavam prevendo antes do exame. O único problema é que engordei 1,5kg, o que não é normal para alguém em processo de quimioterapia (sorriso).
Para os ciclos de quimioterapia é preciso de um acompanhante na saída das aplicações. Eu chego no hospital às 7h da manhã, e saio entre 11h30 e 12h30. Assim, é preciso sempre ter alguém no HSPM por volta de 11h. Aí, é só me acompanhar até minha casa onde já estou com todo o esquema preparado para me virar sozinho. Então, faço aqui meu agradecimento a estes amigos maravilhosos que dispuseram de seu tempo para me ajudar neste momento:
A minha irmã e meu cunhado, sempre presentes e carinhosos comigo; à Márcia Fráguas por seus deliciosos presentes (além da companhia); ao Miguel Anselmo que além da companhia me ajudou muito sobre como lidar com todo o processo; ao Adilson Rodrigues, sempre alegre e dando a maior força; à Patrícia Weiss que me acompanhou mesmo estando em férias; ao Fábio Tamizari com seu apoio e alegria insuperáveis e a minha queridíssima amiga Michele Krepschi, que mesmo “atarefada”, conseguiu dedicar uma manhã para mim.

Um linfoma chamado Hodgkin - III

Relatório do primeiro dia.
Entre as inúmeras surpresas que tive no decorrer do ano de 2012, esta foi uma surpresa positiva. Hoje considero toda a propaganda sobre quimioterapia enganosa. A primeira sessão de quimioterapia foi muito tranquila, até mesmo divertida. As enfermeiras Cecília e Roberta são maravilhosas, na falta de uma palavra melhor. A sessão começa com um pouco de soro, depois um medicamento para náusea e enjoo, depois seguem os quatro medicamentos do tratamento, intercalados por um pouco de soro.
No meu caso, não tive nenhuma das reações desagradáveis que tanto propagam. É fato que, cada caso é um caso. Eu me preparei com uma alimentação mais leve, muita água, e um omeoprazol logo pela manhã. A sessão durou quase 6 horas, com direito a almoço (mas eu não almocei desta vez) e muita conversa, afinal, 10 pessoas passam por aquela sala todas as manhãs, com um processo semelhante, com muitas histórias para contar. Este é um detalhe importante: todos os dias 10 pessoas passam por um processo semelhante. Não sou o único.
Levei uma sacola de piquenique, mas ela não foi tão necessária. Acabei só tomando um pouco de iogurte e água de coco, e algumas bolachas com gergelim. Teve um dos medicamentos que apelidamos de “ardida”, mas também foi sem maiores problemas. A Cecília começou com gotejação bem lenta e foi aumentando aos poucos, o que fez com que este medicamento não fosse diferente dos outros, e as etapas de soro são sempre refrescantes, até agradáveis.
Minha querida irmã, com meu incrível cunhado estavam me esperando. Sai da sessão da mesma forma que entrei. Paramos em um restaurante para almoçar e depois fizemos uma visita rápida na tia Graça, que mora na Pompeia. Foi aí que a situação ficou um pouco intranquila. Senti calafrios, cansaço, mas não cheguei a ter febre. Fizemos a viagem para Araras, aonde cheguei bastante abatido. Mas o descanso foi milagroso. Não era 8 horas da noite e eu já estava bem novamente. Sem febre, sem calafrios. Não parei de tomar líquidos durante o dia, sempre tomando água de coco e água. À noite tomei uma sopa, mas não resisti à tentação de comer um lanche junto com minha irmã e meu cunhado.
No dia seguinte acordei muito bem, tomei o omeoprazol que vai me acompanhar durante todo o tratamento e já estava tomando um comprimido de Vonau a cada 8 horas. Existe uma série de medicamentos que “ajudam” no tratamento contra os efeitos colaterais da quimioterapia, e é muito importante seguir este procedimento a risca. De resto, tive um dia cheio, fiz minha inscrição para a prova de mestrado e iniciei a leitura da biografia do Jean Genet escrita por Edmund White. A partir do terceiro dia, inicia-se uma série de cinco aplicações subcutâneas de um medicamento para reforçar o sistema imunológico, que é fortemente abalado pela quimioterapia.
Uma grande alegria para mim foi que me dei conta que tenho amigos e amigas das mais diferentes religiões e crenças, e amigos e amigas ateus também. E TODOS, sem exceção, tem sua participação e colaboração para me ajudar. Os evangélicos são os mais chatos, pois confundem Deus com igreja (embora afirmem o contrário), confundem fé com comportamento. Enfim, cada um com seu jeito de ser. Os mais divertidos são os ateus, que usam o otimismo e a alegria prática, sem recorrer a orações, embora eu acredite que pensamento positivo seja uma forma de oração. E eu, de família cristã, que sempre tive as religiões afrodescendentes como demoníacas, reconheço agora meu erro, é o mesmo Deus em suas diferentes manifestações.
Ser professor de História tem me ensinado muito neste aspecto, conhecer e transmitir estas diferentes histórias de mundo, conhecer e falar sobre diferentes culturas, tudo isto tem me mostrado que somos os mesmos seres humanos, na tentativa de construir um mundo que seja melhor, com menos violências, com menos sofrimentos, com menos miséria econômica e humana, para que as diferenças sejam motivo de admiração e não de medo, para que as diferenças sejam sinônimo de riqueza e não de miséria, de liberdade de não de controle, para que as diferenças sejam sinônimo de fraternidade, e não razão para disputas e intolerâncias.

Um linfoma chamado Hodgkin - II

Mais um ano começou: 2012. Minhas férias de janeiro foram dedicadas a esclarecer minhas preocupações. Através de minha médica, que tinha um amigo que trabalhava no Hospital Dia, fui orientado a procura-lo com um relatório detalhado, e tentar conseguir a biopsia através deles. Junto a isto, consegui agendar atendimento com um Clínico Geral no HSPM.
Depois de muita dificuldade burocrática, e graças à boa vontade do médico e atendentes do Hospital Dia, consegui agendar uma biopsia para o início de fevereiro. No HSPM também estava agendada a consulta com o Clínico Geral. Estes dois procedimentos foram acontecendo ao mesmo tempo: no Hospital Dia realizei a biopsia e aguardei o resultado; no HSPM passei pelo Clínico Geral, que me encaminhou para Moléstias Infecciosas, que me encaminhou para a Dra. Éden, na Clínica de Hematologia.
Quando fui atendido pela médica da Hematologia, a maravilhosa Dra. Éden, já estava com o resultado da biopsia em mãos: linfadenite atípica. Como o atendimento pelo HSPM acabou sendo mais rápido, eficaz e conveniente que o atendimento pelo SUS, resolvi focar todo o caso no HSPM.  Para a Dra. Éden a biopsia do Hospital Dia não dizia nada, era totalmente inconclusivo, e como não havia a possibilidade de solicitar uma nova análise do material obtido na biopsia, foi necessário outro encaminhamento, para a Clínica de Pescoço e Cabeça no HSPM, e a realização de uma nova biopsia.
Mais consultas, mais exames, biopsia agendada. Já estávamos em junho, final de semestre, minha viagem pelo Rio Amazonas (Manaus-Santarém-Belém) estava completamente programada. Meu querido amigo Ulisses me acompanhou durante a biopsia, mas o resultado só ficaria disponível após minhas férias. Uma preocupação a menos, pois considero que um problema sem solução, resolvido está. Novas consultas com a Dra. Éden e na Clínica de Pescoço e Cabeça para conhecimento do resultado da biopsia foram agendadas para a última semana de julho, depois da viagem.
Minha viagem de descobrimento pelo Rio Amazonas foi maravilhosa: os dias no barco foram lindos e instrutivos, meu único dia em Alter do Chão foi paradisíaco e Belém foi uma grande festa de encerramento da viagem. Tudo fotografado e relatado, como é de meu feitio.
De volta à realidade, com o resultado da biopsia em mãos, desta vez, sem dúvidas: Linfoma de Hodgkin.
Nada a fazer senão encarar os fatos e enfrenta-los. A Dra. Éden, com seu comprometimento além de qualquer expectativa já havia encaminhado alguns exames que seriam necessários e agendado uma consulta com o médico que iria administrar o tratamento do Linfoma: quimioterapia e radioterapia.
No site da ABRALE consegui inúmeras informações e orientações, entre elas, um excelente “Manual de Cuidado Nutricional em Quimioterapia”. Outro amigo que já passou por um processo semelhante me tranquilizou e me orientou ainda mais. Enfim, todas as providências foram tomadas, e no dia 9 de agosto, praticamente um ano após eu ter observado a alteração em meu pescoço, eu iniciei meu tratamento com quimioterapia para me curar do Linfoma de Hodgkin.

Um linfoma chamado Hodgkin - I



Tudo começou em mais um daqueles momentos em que nos defrontamos com nós mesmos na frente do espelho. O final de semana havia sido intenso e uma nova semana com sua rotina devia começar. Lá estava eu, na frente do espelho, averiguando quem estava ali comigo; se havia ocorrido alguma mudança; se os cabelos brancos continuavam desalinhados; se o diâmetro da cintura continuava maior do que o desejado; se o meu olhar tinha algo para me dizer. Foi entre estas divagações e olhares que notei algo estranho no meu pescoço; o lado esquerdo estava maior do que de costume; havia um inchaço que deformava a linha do pescoço. Apalpei o inchaço para averiguar sua existência, não havia dor, curvei a cabeça para todos os lados; o inchaço continuava lá.
Estávamos em agosto de 2011 e os compromissos da vida eram inadiáveis, assim sendo, segui minha rotina, sem abandonar o pensamento sobre aquela alteração em minha fisionomia. Alguns dias se passaram sem que ninguém observasse algo diferente em meu pescoço, além de mim mesmo. A possibilidade de ser apenas algo momentâneo foi sendo eliminada com o passar dos dias e a permanência da alteração. Junto com o pensamento vieram as preocupações e uma consequente busca de informações que indicaram várias alternativas: lipodistrofia, tireoide, um simples deslocamento na musculatura, um linfoma chamado Hodgkin.
Passadas algumas semanas tive uma consulta com a médica que me acompanhava e apresentei minha preocupação sobre a alteração em meu pescoço.  A médica examinou e eliminou a possibilidade sobre a musculatura; havia pelo menos um nódulo grande no pescoço. Iniciou-se então uma sequência de exames e encaminhamentos para diagnóstico.  Após alguns exames a tireoide foi descartada e passamos então ao encaminhamento para uma biopsia do nódulo. Já estávamos em novembro e pelo nosso Sistema Único de Saúde (SUS) este exame poderia demorar alguns meses para ocorrer. Sendo professor na rede pública municipal de São Paulo uma amiga me aconselhou a procurar o Hospital do Servidor Público Municipal (HSPM). O ano estava chegando ao fim, com muitos compromissos e atividades na agenda, o inchaço no pescoço não apresentava dor ou qualquer incômodo, os dias foram se passando e qualquer atitude mais incisiva foi postergada para o ano seguinte.
No decorrer do processo, já com a possibilidade de ser o Linfoma de Hodgkin, ou algo pior, o Linfoma de não-Hodgkin, procurei orientações no site da ABRALE e recebi ótimas e rápidas orientações sobre como proceder. Mas como disse, o ano estava acabando, e as ações foram deixadas para o início do ano seguinte.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Passando roupa com Alexandre Machado


   Ontem foi um dia difícil. Um daqueles dias em que várias pequenas coisas não acontecem como gostaríamos que ocorressem. Foi assim que cheguei em minha gruta; cansado e aborrecido. E bem na minha frente, sobre o sofá, pilhas de roupas para passar. Como sou um professor da rede municipal de ensino na cidade de São Paulo não tenho condições de me dar ao luxo de pagar uma diarista para executar esta tarefa, portanto, me dedico também a este cuidado pessoal.
   Esta visão poderia ser mais um fato desagradável, mas não foi. Me peguei sorrindo e pensando no dia seguinte, o dia que sempre vem até que eu deixe de existir. Me peguei sorrindo pois já antecipei a manhã seguinte, manhã em que começaria meu dia passando roupa com Alexandre Machado.
   Já faz um tempo que realizo este ritual, passar minhas roupas ouvindo a Cultura FM, e como geralmente realizo esta atividade logo cedo, inicio o processo ouvindo o programa “Começando o dia com Alexandre Machado”. Agora vocês já entenderam o título desta postagem. É assim que uma atividade rotineira e que poderia ser aborrecida transforma-se em um momento de relaxamento, de descontração, de prazer.
   Vamos então, ao dia seguinte.
   Acordei em um horário habitual, entre 6 e 7 horas da manhã. Liguei a televisão para ver os noticiários matinais e preparar meu cappuccino e torradas. Infelizmente, recordando o dia anterior, todas as notícias se resumiam ao jogo do Corintians no Japão. Após a terceira chamada sobre o mesmo tema resolvi não repetir a tragédia do dia anterior. Transferi a sintonia da minha televisão a cabo dos canais televisivos para os canais de música, e como já está programado, iniciei meu processo de relaxamento ouvindo uma música clássica pela Cultura FM e acendendo um incenso de patchouli. É incrível como uma simples troca de canais pode transformar o contexto de um dia inteiro.
   E assim pude seguir meu dia, finalizando o café matinal, lavando os pratos e talheres, preparando o ferro e a tábua de passar roupas. Adquiri esta rotina; primeiro as calças e bermudas, depois as camisetas de algodão e por último as camisas e camisetas mais finas. Separo os cabides vagos, vou dobrando e separando as roupas sobre a cama e no final do processo organizo tudo dentro do armário. Pode parecer algo cansativo, banal e aborrecido, mas não é.
   Na televisão vem a voz de Alexandre Machado anunciando as músicas e outras notícias matinais. Ao contrário da mesmice de outros canais de comunicação, as notícias informadas e comentadas pelo Alexandre e seus colaboradores são esclarecedoras. Não são apenas notícias soltas e desconexas, são informações contextualizadas e comentadas, sem força de julgamento, mas com a consistência necessária para uma verdadeira formação de opinião. E tudo isto embelezado por uma seleção inteligente e primorosa de músicas.
   Infelizmente não participei do sorteio de livros pois, como já escrevi, estava passando minhas roupas, e não quis interromper meu processo para acessar uma página no facebook.
   Tudo foi seguindo seu rumo até a inevitável notícia: o jogo do Corintians no Japão. Seria querer demais que Alexandre Machado ignorasse tal informação. Mas, com uma pitada sútil de humor ele introduziu a notícia e depois comentou sobre o adversário do time brasileiro, um time do Egito que havia passado por uma ocorrência onde morreram em torno de 70 torcedores em seu país. Foi então me dei conta de que, até aquele momento, desconhecia o adversário do time brasileiro. Apesar de me sentir sufocado pela constante repetição e imposição da informação referente a este jogo de futebol, mesmo com as dezenas de minutos e até mesmo horas de programação dos outros canais de comunicação dedicados a este jogo de futebol, foi apenas neste momento no qual posso afirmar que apreendi alguma coisa, foi apenas neste momento no qual pude perceber que além de um jogo de futebol havia algo mais para saber e conhecer, foi apenas neste momento em que me dei conta de que o time do Brasil iria jogar com um time do Egito, no Japão.
   “Começando o dia com Alexandre Machado” chegou ao fim, mas não a minha pilha de roupas para passar, e este é mais um dia que eu estou apenas começando. As músicas da Cultura FM seguiram sua programação, minhas atividades seguiram a minha rotina, mas não poderia deixar passar este momento sem dizer: Obrigado Alexandre Machado por eu começar tão bem este dia.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Manutenção de gabinete dos vereadores de São Paulo - 2012

   Vejamos como nossos vereadores “investem” nosso dinheiro em seus próprios interesses.
   Em 2011, de janeiro a setembro, eles gastaram R$ 4.913.112,13. Em 2012, ano de reeleição, o gasto está em R$ 5.364.866,63. O vencedor é Carlos Neder (PT), que sozinho gastou R$ 155.324,01. Mas nada está definido ainda. Eles tem mais 3 meses para superarem estes gastos com “manutenção de gabinete”.
   Neste ano tive a paciência de verificar os itens nos quais este dinheiro é gasto. É realmente um absurdo a falta de responsabilidade destes senhores:
   Apenas com combustível, eles gastaram R$ 274.556,01. O vencedor neste item é o Toninho Paiva (PR), que gastou R$ 11.599,44 seguido de Agnaldo Timóteo (PR) com um gasto de R$ 11.464,60.
   Outro item que revolta qualquer contribuinte é o dinheiro gasto com “locação de veículos’. Apenas em 2012 já foi gasto R$ 23.269,12 com cada vereador. Praticamente os vereadores “ganham” um carro popular por ano. 6 dos 55 vereadores não utilizaram o “direito” de gastar nosso dinheiro com locação de carros e combustível, sendo que 3 deles foram reeleitos, o que nos indica que é possível ser um bom vereador sem gastar dinheiro desta maneira. Aliás, o vereador Agnaldo Timóteo, apesar de ser um dos campeões nesta categoria, não foi reeleito.
   Apenas com cópias fotográficas (xerox) nossos vereadores gastaram R$ 33.139,82. O campeão é Senival Moura (PT) que gastou 6.292,68 e foi reeleito, prometendo gastar muito mais no próximo mandato.
   Com material de escritório, as excelências gastaram R$ 302.044,78, e o Toninho Paiva (PT) aparece novamente como o que mais gasta: R$ 25.713,25. Divida este valor por 9. Muitas escolas não gastam tanto com material de escritório.
   Com “locação de móveis”, para aqueles que não gostam dos móveis oferecidos pela Câmara, foi gasto R$ 220.069,13. Neste item Eliseu Gabriel (PSB) gastou R$ 33.480,00. Quantos escritórios não podem ser montados com este valor? Neste item, 19 vereadores não gastaram nosso dinheiro para seu próprio conforto.
   Com assinaturas de jornais e revistas foram gastos R$ 24.755,39 por 24 vereadores. 31 deles não utilizaram dinheiro para assinarem jornais e revistas. Aqui temos uma campeã, Juliana Cardoso (PT), que conseguiu investir R$ 2.800,37 neste item (dizem as más línguas que com revistas de moda e decoração, pois ela é uma vereadora chique).
   Depois temos o investimento na construção de páginas pessoais na Internet e hospedagem de sites: R$ 201.077,15, utilizados por 28 vereadores. O campeão novamente é Carlos Neder (PT), com um gasto individual de R$ 34.911,17. É importante salientar que estes gastos referem-se apenas ao ano de 2012. Multipliquem estes valores por 4.
   Um item enigmático: gasto com contratação de Pessoa Jurídica. Os vereadores podem contratar assessorias jurídicas e outros serviços. 35 vereadores gastaram R$ 647.113,56 neste item, sendo que Atílio Francisco (PRB) gastou R$ 68.725,60, seguido de Gilson Barreto (PSDB) com um gasto de R$ 60.692,50. Mas é possível gastar “pouco”, já que Claudio Fonseca (PPS), presidente de um sindicato de professores, gastou apenas R$ 2.409,23, apesar de contar com a assessoria jurídica que o próprio sindicato possui.
   Com contas de telefone, nossas excelências gastaram R$ 228.327,99, sendo R$ 70.461,83 com telefonia fixa e R$ 157.866,16 com telefonia móvel. É. Nossos vereadores podem gastar à vontade com celulares. O campeão é o querido Agnaldo Timóteo (PR), que conseguiu gastar R$ 9.985,37 em conta de celulares em nove meses. Obviamente ele pode gastar pois quem paga esta conta, somos nós. Com telefonia fixa o Kamia (DEM) conseguiu gastar R$ 8.261,12. Mas é bom citar também que o telefone não é uma necessidade tão importante, já que 18 vereadores não gastaram nada com telefonia fixa e 20 não gastaram nada com telefonia móvel. Economizar é possível, basta querer e ter idoneidade.
   Restam mais 3 itens. Correio R$ 754.266,53 tendo o Dr. Milton Ferreira (PPS) como campeão nesta categoria. R$ 62.081,41. Mas podemos ficar tranquilos (?), ele não foi reeleito.
   Com eventos e seminários, apenas 11 vereadores conseguiram gastar R$ 70.967,41. Floriano Pesaro (PSDB) gastou R$ 21.453,95. Os outros 44 vereadores não gastaram nosso dinheiro nesta categoria.
   E o item mais impressionante de todos: gasto com Gráficas. R$ 1.159.884,89. E dizem que as campanhas políticas não são patrocinadas com dinheiro público? E todo este dinheiro gasto em gráficas foi utilizado na impressão de livros didáticos e folhetos informativos sobre saúde, trânsito, segurança... E o Papai Noel vai dar um livro “Manual do Otário” para cada um de nós. O Zelão (PT) gastou R$ 63.513,88, seguido do Claudio Prado (PDT) com R$ 62.165,43.
   Todas estas informações estão disponíveis na página da Câmara dos Vereadores de São Paulo, obviamente que não estão organizadas para não denegrir a imagem de nossos representantes.
   A quem se interessar, mantenho uma planilha onde atualizo estas informações e terei imenso prazer em disponibilizá-la.
   E bom lembrar que nas escolas falta papel, nos hospitais faltam equipamentos e nossos policiais não tem colete à prova de balas. Para nossos vereadores, tudo, para a população, a realidade.
Fica aqui registrada a minha indignação!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Cultura capitalista e humanismo no Ensino Fundamental e Médio

     Com base em trechos selecionados de Nicolau Sevcenko e das Orientações Curriculares, elaborei este texto sobre os conceitos de cultura capitalista e humanismo a serem trabalhamos no Ensino Fundamental e Médio.
     Existe um texto muito bom que trata deste assunto, escrito pela filósofa Olgária Matos (disponível em http://www.intermeio.ufms.br/revistas/28/InterMeio_v14_n28%20Olgaria.pdf), o próprio título do texto é “Capitalismo e humanismo”. Seria mais fácil copiar e colar, mas sabemos que não é esta a proposta. Porém, para iniciar a atividade, vou copiar as definições que encontrei neste texto da Profª. Olgária Matos por considerar uma excelente definição para introduzir a discussão:
     “O ‘Capitalismo cultural’ é o modo de produção que integra as realizações espirituais no mercado consumidor, segundo as determinações de custo-benefício e de amortizações rápidas de investimento. Cultura capitalista é a superestrutura que corresponde à transformação da economia de mercado em sociedade de mercado, na qual nada escapa às leis de compra e de venda, tendo-se universalizado o devir econômico da política, sua conversão em economia, com o conseqüente encolhimento do espaço público, proletarização crescente da sociedade e miséria simbólica que isso implica. A cultura capitalista é a simbiose entre economia e cultura e constitui-se pela dessublimação repressiva de desejos, pela ilimitação do consumo e produção permanente de carências e de falta, de tal forma que determinando uma cultura do excesso, a sociedade de mercado atual conduz à incivilidade.
     A cultura humanista e das Luzes, ao contrário, concebeu a esfera pública como a dimensão da vida social e política autônoma com respeito às leis do mercado, inscrevendo-se na tradição da skolé grega e da Renascença. Essa autarquia evidenciava-se em saberes valorizados, os studia humanitatis. Cícero, como outros autores romanos da Antiguidade, empregaram o termo no sentido geral de educação liberal, isto é, dos livros, de educação literária, a que deram continuidade os sábios italianos do século XIV. Na primeira metade do século XV, os studia humanitatis consistiam em um ciclo claramente definido de disciplinas intelectuais – a gramática, a retórica, a história, a poesia e a filosofia moral, e excluía, de certo modo, a lógica, a filosofia natural, a metafísica, a matemática, a astronomia, a medicina, as leis e a teologia. Tratou-se de uma decisão tanto cultural quanto política de enobrecer mais a cultura da sociabilidade, da civilidade, da politisse do que a cultura científica, por encontrarem-se os studia humanitatis diretamente associados à constituição do laço social. Se, nessa tradição, a cidade é o laço afetivo, é philia, é também um modo específico de economia libidinal que produz idealidades políticas.”
     Somente nestes dois parágrafos iniciais do texto já temos muito para comentar e discutir mas, seguindo as Orientações Curriculares, pretendemos utilizar esses conceitos para provocar o questionamento e a identificação de contradições do sistema, para que se possa superar e compreender alguns dos pressupostos da modernidade, como a legitimidade da propriedade privada, independente do uso, e a promoção do individualismo possessivo, articulado à cultura consumista, que valoriza os objetos em detrimento das pessoas.
     Tentando buscar um sentido para toda esta verborragia, uma formação “humanista” – onde temos a história como uma de suas disciplinas definidoras – tem a finalidade de se contrapor a uma “cultura capitalista”. Infelizmente, esta é apenas mais um mecanismo para “amenizar” os efeitos nocivos da “cultura capitalista”, e não pretende, de forma alguma, propor qualquer alternativa para esta estrutura econômica e social.
     Nicolau Sevcenko vem nos propor este momento de reflexão, no loop da montanha-russa, que ele divide em três tempos:
     “O primeiro consiste em conseguirmos nos desprender-nos do ritmo acelerado das mudanças atuais, a fim de obter uma posição de distanciamento a partir da qual possamos articular um discernimento crítico que nunca conseguiríamos estabelecer se nos mantivéssemos colados às vicissitudes das próprias transformações. O segundo requer que recuperemos o tempo da própria sociedade, ou seja, o tempo histórico, aquele que nos fornece o contexto no interior do qual podemos avaliar a escala, a natureza, a dinâmica e os efeitos das mudanças em curso, bem como quem são seus beneficiários e a quem elas prejudicam. O terceiro movimento seria então, o de sondar o futuro a partir da crítica em perspectiva histórica, ponderando como a técnica pode ser posta a serviço de valores humanos, beneficiando o maior número de pessoas.
     Essa reflexão em três tempos não deve se limitar aos interesses das sociedades e das gerações atuais, mas levar em conta a sobrevivência e a qualidade de vida também das gerações futuras – considerando, portanto, valores de longa duração como participação democrática nas discussões e decisões que dizem respeito a todos, distribuição equitativa dos recursos e oportunidades gerados pelas transformações tecnológicas, luta contra todas as formas de injustiça, violência e discriminação, e preservação dos recursos naturais. Esses são os critérios para que se possa julgar criticamente o presente, com o sentido histórico e senso de responsabilidade em relação ao futuro. Se a síndrome do loop abole a percepção do tempo, para enfrentá-la é preciso desdobrá-lo nos seus três âmbitos: presente, passado e futuro.”
     Bem. Aqui, realmente, uma pausa.
     Ironicamente falando, seremos nós os “salvadores do mundo”? Seremos nós os responsáveis para corrigir os persistentes erros destas superestruturas econômicas?
     Um grande pensador contemporâneo é o sociólogo polonês Zigmunt Bauman, que nos alerta em seu livro “Tempos líquidos” para o fato de que as estruturas econômicas, ou aqui nomeada, a “cultura capitalista” é uma estrutura global, que não possui fronteiras. Contra este poder global, temos o poder político, mas este poder é “local”: “Os verdadeiros poderes que modelam as condições sob as quais agimos atualmente fluem num espaço global, enquanto nossas instituições de ação política permanecem amplamente presas ao solo – elas são, tal como antes, locais.” (p 87).
     Olgária Matos, no desenvolver de seu texto, destaca que a cultura humanista surge para se contrapor a uma educação que “idiotiza” as pessoas, e diz: “Proveniente do grego, idiotes significa alguém que se educa e se forma em separado, que é solitário, simples, particular e, por extensão semântica, pessoa desprovida de inteligência e de razão”, e segue citando Clément Rosset:
     “[...] qualquer pessoa é idiota a partir do momento que só existe em si mesma, incapaz de aparecer de um modo diferente do que aquele em que se encontra e tal qual é: incapaz, pois, e em primeiro lugar, de refletir-se [...] de duplicar-se sem tornar-se logo um outro [...], um ser unilateral cujo complemento em espelho não existe” (Le Réel. Traité de l’idiotie. Paris: Minuit, 2003. p 42-43.)
     A situação apenas se complica pois, com todo este questionamento, o que poderemos propor a nossos alunos além da consciência de submissão a um sistema peçonhento ao qual estamos completamente dependentes e que, ainda por cima, somos chamados a minimizar seus efeitos para nossa própria salvação? 
     Mas estamos trabalhando com o Ensino Fundamental e Médio. Muitas destas discussões ainda não tem resposta e nem mesmo consenso entre estudiosos do chamado “nível superior”. Até que ponto podemos e devemos chegar com nossos alunos que nem mesmo entraram no mercado de trabalho, mas que sofrem diretamente os efeitos deste sistema?
     Vou finalizar o texto por aqui.
     A cultura capitalista é o modo de vida e produção ao qual estamos condenados a viver e o humanismo é o mecanismo que pretende minimizar seus efeitos nocivos. Se este mecanismo será suficiente é algo que não podemos prever, apenas nutrir nossas esperanças.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Dificuldades e problemas, dentro ou fora da Escola?

1- Quais dificuldades vocês identificam em relação à construção de sequências didáticas para o ensino da História?
2- Tendo por base o trecho das Orientações Curriculares: Proposição de Expectativas de Aprendizagem: ciclo II: História sobre os problemas relativos aos conteúdos e métodos no ensino de história (pp. 32-36), quais encaminhamentos podem ser apontados por você?
“Quanto mais me torno capaz de me afirmar como sujeito que pode conhecer tanto melhor desempenho minha aptidão para fazê-lo.
(FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. Coleção Leitura. p 124).

Talvez ainda existam escolas e professores com práticas arcaicas, como sugere o texto das Orientações Curriculares, onde “entende-se como conteúdo certos conhecimentos concebidos e produzidos fora da escola, para serem transmitidos para alunos passivos, que não interferem no saber”. Talvez ainda existam, mas não é o que ocorre na EMEF Eduardo Prado onde trabalho. Talvez ainda existam, mas não foi esta a forma que me foi ensinada em meu curso de Licenciatura, finalizado há 10 anos atrás.
Em meu curso de História na Universidade Federal de Ouro Preto, no Instituto de Ciências Humanas e Sociais em Mariana, analisamos muito os textos de autores como Jacques Le Goff, que enfatiza a importância de uma “crítica histórica”, ou de Marc Bloch que inaugurou a noção de “história como problema” e que é notoriamente reconhecido como um historiador que teve a capacidade de transformar seu presente vivido em reflexão histórica.
Na EMEF Eduardo Prado, as chamadas Jornadas Pedagógicas e as Jornadas de Formação, não são apenas uma reunião de professores para uma “roda de conversa”. São reuniões com toda a equipe pedagógica onde se questiona e se planeja a prática escolar, onde se questiona a efetividade e os problemas que surgem no cotidiano escolar. É uma Escola que não fecha os olhos e ouvidos para seus alunos e para a sua comunidade. O resultado disto, apesar de questionável, está na nossa última nota do IDEB que foi, para o 5º ano, 5,1 e para o 9º ano, 4,9. Atingimos a meta do município para o 5º ano, que é 5,1 e ultrapassamos a média do 9º ano, que é 4,4.
E aqui repito um dos textos iniciais de nosso curso, o texto em que Maria Auxiliadora e Tânia Maria apresentam suas questões finais citadas como “última parte da Aula Oficina”: O que você aprendeu de novo nestas aulas? O que você já sabia? O que gostou mais de aprender? O que gostaria de saber mais sobre esse assunto? São nestas questões que encontro a superação dos problemas relativos aos conteúdos e métodos no ensino de História, assim como enfrento qualquer dificuldade em relação à construção de sequências didáticas para o ensino da História.
Evidencia-se aqui a proposta das Orientações Curriculares - mas também de minha formação e prática pedagógica - onde se afirma que “é preciso reconhecer que todos os sujeitos que participam da escola, de algum modo, interferem e constroem o saber escolar: alunos, professores, educadores da escola, pais, editores e autores de livros didáticos, autores de referência da historiografia. Assim, o saber escolar é sempre recriação e, ao mesmo tempo, fruto de escolhas coletivas do que se espera ensinar e do que se aprende realmente de história na escola.” Afirmação esta que é referenciada na obra de Ana Maria Monteiro, Ensino de História – Sujeitos, saberes e práticas. (Rio de Janeiro: Mauad, 2007)
Mas não posso, em nenhum momento, seguindo o exemplo de Marc Bloch, e fazendo do meu presente vivido uma reflexão histórica, ignorar que a comunidade na qual convivo está sufocada por uma cultura de massa que não valoriza a diversidade de crenças, opiniões e representações; que não valoriza um aluno como sujeito ativo no processo de aprendizagem; que não valoriza o saber histórico científico.
Quando vemos um candidato a prefeito que está em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de votos afirmar que gostaria que houvesse uma IGREJA em cada esquina, e não uma ESCOLA, temo e tremo pelo futuro pelo qual tanto nos esforçamos neste momento para construir juntos.
Afirmo que a Escola já mudou bastante, a Escola onde trabalho se transforma a cada ano, porque ela está atenta às mudanças e transformações de nossos alunos, professores, educadores da escola, pais, editores e autores de livros didáticos, autores de referência da historiografia e ao nosso contexto social.
Portanto, também ouso afirmar que as maiores dificuldades em relação à construção de sequências didáticas para o ensino da História estão FORA da Escola, e não dentro dela. A superação dos problemas relativos aos conteúdos e métodos no ensino de História somente ocorrerão quando ocorrer tal superação em nosso contexto politico, social e econômico. A Escola e sua equipe pedagógica serão capazes de superar qualquer problema quando seu papel e seu valor forem reconhecidos e valorizados ao contrário de acusados como causa. A Escola e o professor também são “efeito”, também são fruto de escolhas coletivas do que se espera e do que se aprende realmente fora da escola. E não podemos ignorar este aspecto.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

PEDAGOGIA DA AUTONOMIA? SERÁ POSSÍVEL?


QUAIS INFORMAÇÕES E CONHECIMENTOS PRÉVIOS FORAM MOBILIZADOS PELOS ALUNOS PARA COMPREENDEREM AS IMAGENS E EXPLICAÇÕES DA PROFESSORA NOS TRECHOS DO EPISÓDIO DA SÉRIE CIDADE DOS HOMENS?

COMO VOCÊ EXPLICA ESSAS DIFERENÇAS ENTRE A PESPECTIVA DA PROFESSORA E DOS ALUNOS?

Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo.
(FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996. Coleção Leitura. p 53).

Tomando da Introdução de Marc Bloch ao seu texto “Apologia da História”, coloco neste tópico o mesmo problema colocado por ele ao ouvir a pergunta de um garoto: “Papai, então me explica para que serve a história.” O problema que esta pergunta coloca não é nada menos do que o da legitimidade da história. É o que diz Marc Bloch.
O que sugere os trechos do episódio da série Cidade dos Homens e os desafios apresentados nas Orientações Curriculares para História (pp 35 e 36) reforçam a questão da legitimidade daquilo que queremos ensinar em sala de aula. Além de “o que” queremos ensinar, mas “como” queremos” ensinar, e “para que” queremos ensinar.
Meu livrinho de cabeceira tem sido, e pelo visto, continuará sendo por toda a minha vida; “Pedagogia da Autonomia”, do mestre Paulo Freire. Vejam o que ele nos diz na página 55 deste livreto: 

“Histórico-sócio-culturais, mulheres e homens nos tornamos seres em quem a curiosidade, ultrapassando os limites que lhe são peculiares no domínio vital, se torna fundante da produção do conhecimento. Mais ainda, a curiosidade é já conhecimento. Como a linguagem que anima a curiosidade e com ela se anima, é também conhecimento e não só expressão dele.”

Mas vamos fazer uma análise de uma experiência prática na cidade de Santos. Vejam o anexo 1 deste texto retirado do site g1.globo.com. A manchete é “Professor de matemática é suspeito de apologia ao crime em Santos”. Mas será que Acerola e a professora de História não fizeram apologia ao crime na série Cidade dos Homens? O que os distingue? Quem determina quem é exemplo e quem é criminoso?

A legitimidade.
A Rede Globo tem o poder e o domínio para determinar o que é legítimo e o que não é. Em uma novela de TV vê-se um exemplo que pode ser aplicado em um curso de formação de professores. Na prática do professor vê-se o crime. Eu volto a perguntar: O que os distingue?
E respondo com Paulo Freire, o mesmo livreto, na página 63:
“É o meu bom senso, em primeiro lugar, o que me deixa suspeitoso, no mínimo, de que não é possível à escola, se, na verdade, engajada na formação de educandos educadores, alhear-se das condições sociais culturais, econômicas de seus alunos, de suas famílias, de seus vizinhos.”

E continuo com a página 65:

“A prática docente especificamente humana, é profundamente formadora, por isso, ética. Se não se pode esperar de seus agentes que sejam santos ou anjos, pode-se e deve-se deles exigir seriedade e retidão.”

E fica a pergunta, esta, sem resposta: Quem determina o que é legítimo e o que não é? Neste aspecto, tanto a Rede Globo quanto a academia se fazem juízes e condenam, sem profundidade de conhecimento, apenas com teses, conceitos, teorias e mercado.
Mas pretendo ampliar esta questão evitando restringir nossa análise a fatos singulares, como sugere as Orientações Curriculares. Até onde vai nossa realidade e nossa responsabilidade?
Vejamos a tabela de gastos de manutenção de gabinete de vereadores em São Paulo. Vamos comparar com o gasto de nossas Escolas? A Escola onde trabalho, que atende mais de 800 alunos, recebeu menos de R$ 50.000 no ano de 2011. A Prefeitura gastou mais de 7,5 milhões de reais para manter 54 gabinetes, podendo gastar até R$ 192.312,56 por gabinete/ano.
Esta é a triste realidade de nosso cotidiano. Nossos heróis jogam bola e exibem o corpo “sarado”. Nossos heróis não precisam ler, muito menos estudar. O político que ganha menos recebe um salário pelo menos duas vezes maior do que qualquer professor ou médico.
Enquanto nossos valores estiverem sujeitos ao mercado e não sofrerem uma mudança ética nossos alunos não serão encorajados à árdua tarefa de transformação do saber ingênuo em saber produzido. E finalizo este texto com mais uma citação de Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia, página 69, como uma forma de oração: 
“Mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nos tornamos capazes de aprender. Por isso, somos os únicos em quem aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito.”




RESPOSTA SIMPLES PARA AS QUESTÔES POSTAS:

1. Os conhecimentos prévios mobilizados pelo aluno Acerola para compreender as imagens e explicações da professora foram as imagens, linguagem e contexto de seu cotidiano nos morros dominados por traficantes no Rio de Janeiro.
2. A perspectiva da professora era meramente acadêmica, enquanto a perspectiva do Acerola era figurativa e vinculada ao seu cotidiano. O grande elo que é apresentado neste episódio, a meu ver, é o momento em que a professora “ouve” a narrativa de seu aluno e se apropria dele para desenvolver o tema.
Anexo 1:
http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2011/02/professor-de-matematica-e-acusado-de-apologia-ao-crime-em-santos.html

Anexo 2:
http://ocasional-mente.blogspot.com.br/2012/08/manutencao-de-gabinete-dos-vereadores.html

O episódio de Cidade dos Homens citado é "Coroa do Imperador" (partes 1 e 4):
http://www.youtube.com/watch?v=vIliPChFgRs&feature=player_embedded

Manutenção de gabinete dos vereadores de São Paulo

Veja o quanto os vereadores de São Paulo gastaram com "manutenção de gabinete" no ano de 2011. Esta tabela não inclui salários. Os itens são "correio", "internet", "combustível"... Uma vergonha, principalmente quando sabemos que uma EMEF com mais de 800 alunos não recebe mais do que R$ 50.000 por ano para gastos semelhantes. Por exemplo, somente no mês de dezembro foi gasto R$ 1.154.590,42. A média seria de R$ 610.912,86 por mês, mas em dezembro eles precisam chegar no "limite" de gastos disponíveis, por isso, gastam mais. Para quê? O campeão foi o vereador Roberto Trípoli (PV), que em dezembro conseguiu gastar R$ 72.469,95 para atingir sua meta. Você consegue imaginar o que pode ser feito de benefício para a populaçãocom mais de 7,5 milhões de reais?

Abou Anni PV  196.172,99
Toninho Paiva PR  196.129,02
Alfredinho PT  195.833,56
Eliseu Gabriel PSB  194.798,60
Paulo Frange PTB  194.177,50
Sandra Tadeu DEM  194.088,23
Souza Santos PSD  193.332,51
Jamil Murad PCdoB   192.904,21
José Américo PT  192.437,15
Gilberto Natalini PV  191.354,91
Noemi Nonato PSB  191.277,08
Dr. Milton Ferreira PPS  187.915,29
Francisco Chagas PT  186.891,40
Senival Moura PT  185.649,13
Gilson Barreto PSDB  185.221,59
Atílio Francisco PRB  184.156,84
Wadih Mutran PP  177.629,28
Ricardo Teixeira PV  175.549,61
Juscelino Gadelha PSB  173.155,11
Dalton Silvano PV  172.785,00
Agnaldo Timóteo PR  170.013,89
Quito Formiga PR  168.116,80
Adilson Amadeu PTB  167.609,25
Claudio Prado PDT  162.246,54
José Ferreira (Zelão) PT  158.052,94
Donato PT  157.107,23
Juliana Cardoso PT  155.267,61
Marta Costa DEM  153.903,05
Adolfo Quintas PSDB  153.549,22
Edir Sales PSD  151.051,61
Antonio Goulart PSD  150.508,65
Floriano Pesaro (Salomão) PSDB  140.850,35
Roberto Tripoli PV  127.010,52
Claudinho PSDB  126.596,87
Carlos Neder PT  124.912,30
Chico Macena PT  121.614,09
Ushitaro Kamia DEM  121.517,12
Milton Leite DEM  118.580,44
Ítalo Cardoso PT  110.254,75
Arselino Tatto PT  108.783,35
Antonio Carlos Rodrigues PR  101.937,23
Aurélio Nomura PSDB  100.331,99
Anibal de Freitas PSDB    97.872,55
Attila Russomanno PP    78.360,31
Aurelio Miguel PR    71.824,30
Claudio Fonseca PPS    64.871,22
José Police Neto PSD    62.773,79
Marco Aurélio Cunha PSD    61.842,87
David Soares PSD    59.549,19
Netinho de Paula PCdoB    47.568,59
Tião Farias PSDB    47.274,53
José Rolim PSDB    47.121,03
Domingos Dissei PSD    37.551,00
Celso Jatene PTB    36.023,96
Carlos Apolinario DEM    15.228,11
   7.539.136,26


Fonte:
http://www.camara.sp.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=472&Itemid=66

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Comparação da "experiência concreta" com textos sugeridos para leitura:


Fiz minha licenciatura no interior de Minas Gerais, na Universidade Federal de Ouro Preto, no Instituto de Ciências Humanas e Sociais, UFOP/ICHS, na cidade de Mariana. Uma das grandes vantagens de ter realizado meu curso nesta Instituição de Ensino Superior é o fato de que todos os professores estão muito próximos. Eram comuns as festas e encontros entre alunos e professores, saídas para almoço ou mesmo um lanche rápido na cantina da Faculdade ou mesmo um papo informal no famoso “redondo”, um espaço onde todos se sentavam para conversar e tocar violão.
Meu professor das disciplinas de Didática e Prática de Ensino se tornou um grande amigo, o Prof. Marcelo Seabra. E a grande lição que ele nos passou foi sobre a efetividade de nossa prática de ensino.
Toda teoria é muito bonita dentro dos muros da academia. É muito fácil elaborar projetos e textos referenciando grandes autores da Pedagogia. É muito fácil obter notas altas em avaliações, projetos e relatórios de atividades. Difícil é estar em uma sala de aula com mais de 35 alunos, muitos analfabetos funcionais, muitos sem estrutura familiar, a maioria sem o menor interesse pela história, conceitos, habilidades e capacidades que queremos trabalhar em sala de aula.
Contra as Orientações Curriculares temos uma realidade que nega os valores que pretendemos trabalhar. Não vemos nenhum “herói” do Big Brother Brasil lendo um livro. Não vemos nenhum jogador de futebol falando sobre sua escola ou sequer sobre seu curso superior de Educação Física. O político que mais teve votos na última eleição, mais de 1.300.000 votos para deputado federal, foi Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca, que teve seu grande slogan repetido por todo o país: “Pior que tá, não fica”, confirmando seu total desconhecimento de História, pois o século XX é um dos maiores exemplos que sim, sempre é possível ficar “pior”.
Para combater esta realidade as universidades elaboram textos lindos como o de Isabel Barca, com seus termos rebuscados como “paradigmas educativos”, “aula-oficina”, “compreensão textualizada”, um texto perfeito obedecendo a todas as regras da ABNT. Para minha prática diária, serve como um instrumento de frustração ao tentar efetivar esta teoria acadêmica em uma sala de aula com 38 adolescentes desinteressados, onde muitos deles nunca saíram do próprio bairro, cujas referências de mundo são o que veem na televisão e o Shopping Center mais próximo.
O texto de Maria Auxiliadora e Tânia Maria já tem um pouco mais de consistência, quando aplicam sua teoria e demonstram algum resultado. Pelo menos nos indica alguma possibilidade de sucesso. Mas aqui também, existe uma hegemonia perigosa: “alunos-investigadores”, como se todos os alunos de uma escola, e eu, pessoalmente, trabalho com mais de 250 alunos, como se todos os meus 250 alunos fossem ou se interessassem em ser um “aluno-investigador”.
Muitos de meus alunos já são “moto-boys”, mesmo sem carteira de motorista, já trabalham como motoqueiro na estrega de pizzas na região onde moram. Muitos de meus alunos estão em LA (liberdade assistida), já tem experiência no crime, já fizeram um curso intensivo na Fundação CASA. Algumas de minhas alunas já tem filhos para cuidar. O interesse e preocupação destes alunos e alunas está muito distante de uma “interpretação de fontes” ou “compreensão textualizada”.
O que salva no texto de Maria Auxiliadora e Tânia Maria são suas questões finais: O que você aprendeu de novo nestas aulas? O que você já sabia? O que gostou mais de aprender? O que gostaria de saber mais sobre esse assunto?, citados como “última parte da Aula Oficina”.
É aqui que entram as Orientações Curriculares, pois são Orientações, e não “receitas” de sucesso.
Apesar de muitos professores reclamarem de que as Orientações Curriculares não oferecem instrumentos de trabalhos, exemplos práticos ou propostas práticas, as Orientações Curriculares nos indicam o “objetivo”, o “resultado”, “o quê nos queremos alcançar” com nosso trabalho. E isto, para mim, é essencial.
Eu adoraria trabalhar com 250 alunos-investigadores, mas eu não trabalho com este público. Eu trabalho com alunos que não gostam de ler, e muitos escrevem muito mal, quando escrevem. Minha maior vitória é quando um aluno que nunca leu um livro entra na Sala de Leitura a procura de algum livro ou autor que eu citei em sala de aula. São estes os troféus que eu coleciono em minha estante.
Eu adoraria realizar apenas aulas-oficinas. E é o que eu busco trabalhar com meus alunos do primeiro ano do Ciclo II, pois é este o momento onde nós conseguimos desenvolver, na prática, “alunos-investigadores”.
Quando o aluno passou por todo o Ciclo II em outro processo de aprendizado, com professores de práticas didáticas diferentes, com professores inconstantes que estão mais tempo afastados por problemas de saúde do que em sala de aula, com professores substitutos que acompanham a turma por algumas aulas, sem continuidade, “tapando o buraco” de professores que não estão presentes na escola. Quando os alunos passam por este processo, e sufocados por um ambiente social que não valoriza a “prática escolar”, o que eles querem é sair da escola o mais rápido possível, executar o mínimo necessário para obter o diploma que para eles, é “maldito”, que não lhes traz ou garante qualquer prazer, fama ou dinheiro.
Assim, “o buraco é mais embaixo”. Antes de conseguir realizar uma “aula-oficina” eu preciso fazer com que meus alunos “queiram” se tornar “alunos-investigadores”. Antes de me preocupar com “interpretação de fontes” e “compreensão textualizada”, eu preciso me preocupar com: O que meu aluno aprendeu de novo nestas aulas? O que meu aluno já sabia? O que meu aluno mais gostou de aprender? O que meu aluno gostaria de saber mais sobre esse assunto?
Não quero, com meu texto, desvalorizar ou desacreditar as propostas de Isabel Barca, Maria Auxiliadora Schmidt e Tania Garcia, muito pelo contrário. Conseguir realizar “aulas-oficina” com “alunos-investigadores” é meu grande sonho. Mas não podemos deixar de ter consciência de que “o mundo real está sempre um passo adiante da lógica”. Alimentarmos nossa utopia é essencial para qualquer transformação. Mas esta transformação apenas acontecerá quando a sociedade brasileira, e consequentemente seus políticos e acadêmicos, tiverem a humildade de estarem ou, pelo menos, ouvirem o que de fato acontece dentro das salas de aula. Elaborar teorias e receitas é apenas uma técnica.
A bula de um remédio nos diz suas indicações e efeitos colaterais, mas o que determina a eficácia e efeitos do medicamento é o corpo do paciente, não a sabedoria do médico.


EXPERIÊNCIA CONCRETA DE PRÁTICA DE ENSINO DE HISTÓRIA
“Como posso jurar dizer a verdade? Só posso dizer o que sei.
Como posso saber se isto é a verdade?”
 (Índio Cree ao fazer juramento em um processo judicial sobre
uma barragem no seu território, Richardson, 1975).

Tenho várias histórias que me alegram no decorrer destes poucos anos como professor de história. Uma delas é sobre minha experiência na Fundação Casa em 2008. Eram quatro turmas de adolescentes em sistema de reclusão cursando o Ciclo II do Ensino Fundamental, baseado no Projeto ENCEEJA. A grande vitória foi obter, do líder de cada turma, a “permissão” para falar e ensinar. Neste ambiente, o professor precisa conquistar sua posição junto aos adolescentes. Neste ambiente, nenhuma autoridade é imposta. Eles estão naquela condição exatamente pelo fato de se colocarem concretamente contra todas as formas de autoridades e regras impostas em nossa sociedade. Assim, conseguir dar aula neste contexto, mesmo sendo aulas meramente expositivas, foi uma grande vitória.
Mas não vou me delongar nesta experiência, que acredito ser bastante diferente do dia-a-dia dos demais colegas neste curso. Vou descrever uma experiência que tive neste ano, com minhas três turmas do primeiro ano do Ciclo II, as antigas quintas séries, e que dialogam melhor com as Orientações Curriculares e os demais textos sugeridos para nossa leitura.
O primeiro ano do Ciclo II traz uma mudança bastante drástica para todos os alunos. Agora os alunos convivem com vários professores, cada um deles trabalhando com uma disciplina diferente. Cada professor tem uma relação e uma prática pedagógica diferente, além dos conteúdos. Por mais que se trabalhe em Projetos Pedagógicos e se proporcionem Encontros de Formação e diálogo entre a equipe pedagógica, cada professor tem o seu perfil e o seu “jeito” de ensinar. E os alunos tem que se adaptar a estas diferenças.
No caso da disciplina de História, seguindo o Planejamento realizado e o livro didático adotado pela Escola, iniciamos com os conceitos básicos de História: fontes históricas, mudanças e permanências na história, arqueologia, sujeitos da história, cultura e tempos históricos.
Para um estudante universitário, a leitura exaustiva de textos de historiadores reconhecidos são suficientes para propiciar uma aula com discussões e exposição de ideias sobre tais conceitos. Para crianças de 10 a 12 anos de idade, estes conceitos não tem nenhum significado, e a tarefa do professor é exatamente trazer estes conceitos “ideais” para o cotidiano dos alunos.
Assim, propus uma “brincadeira”. Em uma aula levei alguns objetos meus, que guardo há muito tempo, algumas fotos, objetos que ajudassem a identificação por parte deles. A partir dos meus objetos e de nossa conversa, solicitei que eles trouxessem, nas aulas seguintes, objetos que existissem em suas casas, fotos, álbuns, dinheiro, brinquedos. Propus que conversassem com seus pais e avós pedindo permissão para trazerem objetos também de seus familiares “mais velhos”. Na proposta deixei claro que os objetos deveriam ser trazidos dentro de caixas, e pedi para que não fossem mostrados antes da aula. Na medida do possível, eles gostaram da brincadeira e a maioria conseguiu manter o “segredo” combinado.
Nas aulas seguintes estavam todos excitados e animados com as surpresas.
Pedi para que as caixas fossem todas empilhadas na frente da sala. Depois, criei a história de um arqueólogo, lembrando os filmes de Indiana Jones. Feita a introdução, sorteei um dos alunos para ser meu “assistente”. Este aluno escolheu uma das caixas encontradas em nossa “exploração” e fez uma “análise” sobre o conteúdo da caixa.
A conversa e controle da aula, em alguns momentos, foi bastante difícil. Mas, para que a brincadeira pudesse continuar, todos acabavam colaborando. Depois de o assistente ter feito sua análise dos objetos encontrados, eu chamava o aluno proprietário dos objetos para “esclarecer” sobre o conteúdo dela. Neste momento surgiram várias histórias e conversas interessantes.
Esta atividade durou várias aulas, sem pressa, procurando proporcionar a participação de todos os alunos (apesar de serem mais de 35). E foi bacana que os objetos foram mudando no decorrer das aulas. Surgiram monóculos, fotos muito antigas, muitas notas de dinheiro antigas, até mesmo objetos bem diferentes e interessantes como máquinas fotográficas antigas e um gravador de fita cassete. Enfim, uma multiplicidade de objetos com muitas histórias e uma participação que despertou nos alunos a “curiosidade” e o “prazer” pelas aulas de história. Foi muito gostoso ouvir muitos alunos dizerem que a “aula de história é a mais legal”.
Bom, depois de toda a brincadeira, coloquei no quadro os conceitos de história que estávamos trabalhando. É extremamente importante neste momento deixar claro para os alunos a necessidade desta “formalização do conhecimento”. Mas, depois da introdução que fizemos, os conceitos tinham mais sentido, e consequentemente, significado. A atividade que eu chamo de “sensibilizadora” proporcionou as dúvidas necessárias para que a formalização do conteúdo fosse tão interessante e “legal” quanto a brincadeira.
Depois desta atividade propus aos alunos que, em grupo, eles criassem alguns cartazes com recortes de revistas e desenhos que mostrassem o que eles entendiam como “o que mudou na história do mundo”, e “o que não mudou na história do mundo”. Para mim foi importante, apesar de triste, que boa parte destes alunos reconheceram que a violência e as guerras é algo que nunca deixou de existir em nossa história.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

MINHA HISTÓRIA, HISTORIADOR


Tudo que se passa no onde vivemos
é em nós que se passa.
Tudo que cessa no que vemos
é em nós que cessa.
Tudo que foi, se o vimos quando era,
é de nós que foi tirado quando partiu.
(Fernando Pessoa)

Minha História não começa com o desejo de estudar História ou de ser um professor de História. Apenas tinha o grande desejo de ser professor, mas sentia mais desafio na área de Exatas, e com o surgimento da Informática, minha trajetória tomou este caminho.
Fiz um curso técnico em Mecânica, iniciei um curso de Engenharia de Produção e depois, de Matemática e junto a isto, fui acompanhando o desenvolvimento dos computadores e seus programas. Era este o meu campo de trabalho e de busca por conhecimento.
A História começou a se insurgir lentamente em mim...
Lembro-me de assistir ao filme “Eles não usam Black Tie”, junto com meus amigos, em um cinema antigo que existia em minha cidade no interior de São Paulo. Sai do cinema inquieto. Aquela história era verdade? Aqueles fatos aconteciam neste país? Por que eu nunca havia prestado atenção nesta situação? Mas esta preocupação não ocupou muito espaço, acabou sendo arquivada.
Alguns anos depois, finalizando o meu curso técnico, consegui uma bolsa de estudos que me levou a viver três meses em Londres. Foi uma grande aventura. Eu, um caipira do interior de São Paulo, vivendo em uma grande metrópole como Londres. A casa onde morei era uma pensão por onde passavam pessoas das mais diferentes nacionalidades, vindas de diferentes lugares do mundo. E eu, jovem, pude ser por um tempo curto, amigo de todos: alemães, franceses, chineses, indianos, espanhóis.
Um dos lugares que mais me fascinou naquela cidade foi o Museu Britânico. Voltei a este museu inúmeras vezes. Caminhar por aqueles monumentos era como reviver no Egito Antigo, na Grécia, na Assíria. Tantos lugares, tantos tempos diferentes. E a própria cidade me falava de mundos diferentes, muito diferentes daquele mundo em que vivia. Mas, novamente, a História foi arquivada.
Voltando para minha cidade, senti que ela estava menor do que quando sai. No ano seguinte me mudei para Campinas, uma cidade maior, onde iniciei meu curso de Matemática.
Foi durante meu curso de Matemática que acabei ingressando no movimento estudantil. Houve uma greve, o centro acadêmico do curso de Matemática estava abandonado. Mobilizamos um grupo e reativamos o movimento estudantil naquele Instituto. Depois de Presidente do Centro Acadêmico acabei ocupando também a posição de Representante Discente no Conselho Universitário. Foi também o tempo em que comecei a trabalhar em um grupo de teatro. Universos se abrindo.
Foi neste momento que o meu papel de professor de Matemática começou a não me satisfazer. Havia algo diferente que me inquietava. Aquela inquietação do filme “Eles não usam Black Tie” tomou força. Como era possível, tudo aquilo acontecendo e eu, ali na praça, dando milho aos pombos...
Neste momento resolvi abandonar o curso de Matemática e tomar outros rumos.
Mas minha vida é um rio turbulento. Eu nunca tomo os atalhos, nem mesmo as estradas, que seguem uma linha reta se curvando apenas quando necessário, sempre nos convidando a seguir. Minha vida é um rio turbulento, que faz inúmeras curvas, sempre nos convidando a parar e redemoinhar.
Assim foi, viver em Belo Horizonte, viver em São Paulo, trabalhar em uma livraria importante, descobrir mundos, ai então, tentar o curso de História na USP, sem sucesso, ir para Ouro Preto, e então, finalmente, obter meu título de Bacharel e Licenciado em História.
Pronto, estava feito? Não. Estava apenas começando outra história.
Voltei a São Paulo e à livraria, adoeci e voltei para minha cidade, sempre pequena. Recuperei minhas forças e, somente muito depois, agora, a pouco tempo, assumi meu papel de Professor de História, da nossa História como humanos, demasiado humanos, querendo céu, e tropeçando nas pedras do caminho.
Apesar de professor tardio, minha experiência de vida me dá uma grande segurança naquilo que faço. Quando falo aos meus alunos não falo de uma História distante, falo da História que está em mim, que tem significado para mim, com todos os seus percalços, com todas as suas dúvidas, com todas as perguntas sem repostas ou com várias respostas contraditórias. Quando ensino História, não ensino uma História morta, definitiva, escrita em carrara; quando ensino História quero falar de todas as Histórias, até mesmo das Histórias impossíveis e principalmente das utópicas.
A História que procuro ensinar não traz respostas, apenas abre nossas Vidas, a minha e a de meus alunos, para mais perguntas.
Assim sou, professor de Histórias.