quinta-feira, 9 de abril de 2020

Autoritarismo e conformidade, as bases da política

CATILINÁRIA: DISCURSO DE CÍCERO CONTRA CATILINS VALE PARA O BRASIL

   – Já que és um político – sorriu Cícero – talvez possas dizer-me o que é um político?
   – Um farsante – respondeu Graco, secamente. 
   – Pelo menos és franco.
   – É minha única virtude, e uma virtude extremamente valiosa. Num político as pessoas confundem-na com honestidade. Verás: nós vivemos numa república. Isto significa que há muita gente que não tem nada e um pequeno número que tem muitíssimo. E aqueles que têm muitíssimo precisam ser defendidos e protegidos por aqueles que nada têm. Não somente isto. Os que têm muito precisam proteger sua propriedade e, portanto, aqueles que não têm nada devem estar dispostos a morrer pela propriedade de gente como tu ou como eu e nosso bom anfitrião Antônio. Além disso, gente como nós tem muitos escravos. Esses escravos não gostam de nós. Não devemos cair na ilusão de que os escravos amam seus donos. Não amam e, portanto, os escravos não nos protegerão contra outros escravos. De modo que os muitos que não têm escravo algum, devem estar dispostos a morrer para que possamos ter nossos escravos. Roma mantém um quarto de milhão de homens armados. Estes soldados devem estar dispostos a ir para terras estrangeiras, a marchar até que seus pés estejam completamente desgastados, a viver na sujeira e na miséria, a ensanguentar-se, de modo que nós possamos estar seguros em viver com comodidade e aumentar nossa fortuna pessoal. Quando estas tropas saíram para lutar contra Espártaco, tinham menos a defendo do que os escravos e, não obstante, morreram aos milhares lutando contra eles. Poderíamos ir mais longe. Os camponeses que morreram lutando contra os escravos estavam no exército, em primeiro ugar, porque foram expulsos de suas terras pelos latifúndios. As plantações, nas quais trabalham os escravos, os transformaram em miseráveis sem terra; e, depois, morreram para manter intactas as plantações. Poderíamos nos sentir tentados a dizer reductio ad absurdum. Considera, pois, querido Cícero, o que o bravo soldado romano perde se os escravos vencem? Eles, na realidade, vão necessitá-los desesperadamente, pois não há escravos suficientes para trabalhar adequadamente a terra. As terras seriam insuficientes para todos e nossos legionários teriam o que mais sonham ter, seu pedaço de terra e sua casinha. E, no entanto, marcham para destruir seu próprio sonho, para que dezesseis escravos carreguem um porco velho e gordo como eu numa liteira acolchoada. Poderias negar a verdade do que digo? 
   – Penso que, se o que dizes fosse dito em voz alta por um homem comum, no Foro, crucificá-lo-íamos. 
   – Cícero, Cícero – ri Graco –, isto é uma ameaça? Sou demasiado gordo, pesado e velho para ser crucificado. E por que ficas tão nervoso quando escutas a verdade? É necessário mentir aos outros. É necessário que tenhamos de crer nas nossas mentiras? 
   – É tal como dizes. Tu simplesmente omites a pergunta-chave: É cada homem igual a outro ou diferente do outro? Há uma inconsistência em teu pequeno discurso. Tu dás por assentado que os homens são semelhantes como as ervilhas numa vasilha. Eu não. Existe uma elite, um grupo de homens superiores. Se os deuses os fizeram desta maneira ou as circunstâncias fizeram-nos encaixar em seus papéis, isto não é algo que se deva discutir. São homens feitos para governar e, por isso, governam. E porque os demikas são como gado, comportam-se como gado Olha só: apresenta uma tese, a dificuldade é explicá-la. Apresenta uma sociedade, mas se a verdade fosse tão ilógica como teu retrato, a estrutura inteira entraria em colapso em um só dia. O que não explicas é o que mantém funcionando este quebra-cabeça ilógico. 
   – Claro que o faço – acrescenta Graco, – Eu o mantenho funcionando. 
   – Tu? Somente tu?
  – Cícero, pensas realmente que sou um idiota? Vivi uma vida longa e perigosa e continua por cima. Perguntaste-me antes o que é um político. O político é o cimento desta casa louca. O patrício não o pode fazer sozinho. Em primeiro lugar, pensa da mesma maneira que tu pensas e aos cidadãos romanos não lhes agrada que lhes digam que são gado. Não o são – coisa que algum dia aprenderás. Em segundo lugar, o patrício não sabe nada sobre os cidadãos. Se fosse deixado por sua conta, a estrutura entraria em colapso num só dia. Por isso, recorre a pessoas como eu. Não poderia viver sem pessoas como eu. Nós racionalizamos o irracional. Nós convencemos as pessoas de que deve renunciar a uma porção de sua fortuna para manter o resto. Nós somos como magos. Nós fabricamos uma ilusão e a ilusão é à prova de todos. Nós dizemos ao povo: ‘tu és poder’. Teu voto é a fonte da força e glória de Roma. Vós sois o único povo livre do mundo. Não há nada mais precioso que tua liberdade, nada mais admirável que tua civilização. ‘E tu controlas tudo; tu és o poder’. Eles, então, votam por nossos candidatos. Choram por nossas derrotas. Gozam com alegria por nossas vitórias. E se sentem orgulhosos e superiores porque não são escravos. Não importa quão baixo estejam não importa se dormem na rua, se ocupam os assentos públicos nas corridas e na arena todo dia, se matam os seus recém-nascidos, se vivem graças à caridade alheia, e nunca levantam a mão para trabalho algum, desde o seu nascimento até a sua morte, o importante é que eles não são escravos. Eles são uma porcaria, mas cada vez que veem um escravo seus egos se levantam e se sentem cheios de orgulho e poder. Então sabem que são cidadãos romanos e que o mundo inteiro sente inveja deles. E esta é a minha arte peculiar, Cícero. Jamais denigras ou desprezes um político.

terça-feira, 2 de abril de 2019

Leitura de I Ching com varetas

Durante muitos anos desenvolvi a prática de leitura do I Ching com varetas, estudando textos de C. G. Jung. A partir desta prática e dos estudos, preparei uma oficina de "Leitura do I Ching com varetas".

Projeto de HistóriaS

Obtive minha formação em História pela Universidade Federal de Ouro Preto em 2003 (Bacharelado e Licenciatura) e iniciei minha carreira como Professor na Rede Municipal de Ensino de São Paulo em 2010.
Neste período, desenvolvi diversos resumos e mapas mentais para auxiliar minhas aulas, nunca prontos, sempre em aprimoramento:














sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Independência ou dívida?

O Brasil de fato conquistou a sua Independência pagando milhões de libras esterlinas a Portugal numa negociação mediada pelo Excelentíssimo Cavaleiro de Sua Majestade Britânica Sir Charles Stuard, Grão Cruz da Ordem da Torre e Espada, em 1825.
O Brasil comprou a sua Independência. O tratado que oficializou o ato, chamado de reconhecimento, foi publicado em vários jornais brasileiros, inclusive em Salvador. O Correio da Bahia publicou a íntegra do documento, em setembro de 1825; não fala em valores e para isso usa do eufemismo “aceitando a mediação de sua majestade britânica para o ajuste de toda a questão incidente à separação dos dois estados”. A “questão incidente” era de 2 milhões de libras esterlinas, valor pago a título de indenização.
Pelo tratado publicado no jornal baiano, em setembro de 1825, Portugal reconhece o Brasil como país independente e “promete não aceitar proposições de quaisquer colônias portuguesas para se reunirem ao Império do Brasil”. O dinheiro foi tomado de empréstimo nos bancos ingleses, mas não chegou na íntegra dos valores conveniados aos cofres de Portugal. A operação bancária passou por Londres que reteve 1,4 milhões de libras esterlinas, a título de pagamento da dívida externa de Portugal para com os britânicos. Está explicado o interesse dos britânicos em mediar o tratado.
Em 7 de setembro, D. Pedro proclamou a famosa frase: Independência ou Morte. Esse mote foi um impulso para a multiplicação de hinos, representações e sentimento de amor à pátria. Porém, nesse momento ainda não se tinha com precisão a data da independência. Em junho havia tido a convocação da Assembleia Constituinte para o Reino do Brasil, em outubro se deu a aclamação de D. Pedro I no Rio de Janeiro e somente em dezembro é que ele foi oficialmente coroado. Assim, a firmação do 7 de setembro como data oficial da Independência foi mais uma conveniência simbólica do processo todo.

sábado, 16 de junho de 2018

DA NECESSIDADE DE ESTUDAR HISTÓRIA

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"... o estudo da história visa acima de tudo nos tornar cientes de possibilidades que talvez não levássemos em consideração. Historiadores estudam o passado não para poder repeti-lo, e sim para poder se libertar dele.
Cada um de nós e todos nós nascemos numa determinada realidade histórica, governada por normas e valores específicos e conduzida por um sistema econômico ímpar. Vemos essa realidade como fato consumado e a achamos natural, inevitável e imutável. Esquecemos que nosso mundo foi criado numa cadeia de eventos acidental e que a história configurou não apenas a tecnologia, a política e a sociedade, mas também nossos pensamentos, temores e sonhos. A mão fria do passado emerge na direção de um único futuro. Sentimos essa constrição desde o momento em que nascemos, e assim presumimos que ela é parte natural e inescapável do que somos. Portanto, raramente tentamos nos livrar dela para antever futuros alternativos.
O ESTUDO DA HISTÓRIA TEM O OBJETIVO DE NOS LIVRAR DESSA SUBMISSÃO AO PASSADO. ELE NOS PERMITE VOLTAR A CABEÇA PARA MAIS DE UMA DIREÇÃO E COMEÇAR A PERCEBER POSSIBILIDADES INIMAGINÁVEIS PARA NOSSOS ANTEPASSADOS. AO OBSERVAR A CADEIA ACIDENTAL DE EVENTOS QUE NOS TROUXE ATÉ AQUI, NOS DAMOS CONTA DE COMO NOSSOS PENSAMENTOS E SONHOS GANHARAM FORMA - E PODEMOS COMEÇAR A PENSAR E SONHAR DE MODO DIFERENTE. O ESTUDO DA HISTÓRIA NÃO DIRÁ QUAL DEVE SER NOSSA ESCOLHA, MAS AO MENOS NOS DARÁ MAIS OPÇÕES."
(HOMO DEUS, de Yuval Noah Harari, p 67)